Caceta, hein, Michael?

Posted 08/07/2009 by Sávio Vilela
Categories: Resmungando sobre o relevante

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capamichaeljacksonespec

A morte do sujeito gerou tanto rebuliço que levantou até defunto. Manobrinha esperta da Abril. Quando a Bizz teve seu último fim decretado, em julho de 2007, já havia rumores de que a editora manteria o título para edições especiais como essa aí.

O Brasil ainda deve continuar sem uma publicação especializada em música. Mas também tenho lá minhas dúvidas se ainda há mercado para isso ou se de fato hoje precisamos de uma revista de música – em papel impresso, mensal e tudo mais. Precisamos?

Vaso ruim até quebra, mas demora…

Posted 07/07/2009 by Sávio Vilela
Categories: Resmungando sobre o relevante

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mcnamara

Imagens do filme The Fog of War

Viu quem foi sentar no colo do capeta na manhã de ontem? O megaquerido Robert McNamara, secretário de defesa dos EUA entre os anos de 1961 e 1968. Fofíssimo na sua função, montou uma verdadeira churrascaria hecatombica no Vietnã e fez o longo conflito no sudeste asiático ser o fiasco histórico e trágico que foi.

Anteriormente, o gênio das estatísticas já tinha ajudado a fazer churrasco de mais de 900 mil civis com bombardeios incendiários em cidades japonesas, durante a Segunda Guerra.

A partir da década de 90, o lindão, com a consciência pesada, começou a capitular sobre a participação dos EUA na Guerra do Vietnã e sobre sua própria atuação no Pentágono. Tachou a guerra de “fútil” e considerou suas decisões como secretário de defesa “terrivelmente equivocadas”. Fidalguesco, não?

Após supervisionar milhares de missões, torrar bilhões de dólares em toneladas de armas nucleares e outras despesas militares e, sobretudo, aniquilar e arruinar centenas de milhares de vidas, eu e a torcida do Flamengo (em forma de Comunidade Mundial) diríamos pro defunto numa mesa branca que foi um pouquinho tarde…

Coincidentemente, no mesmo dia em que o queridão bate as botas, um colega dele, também chegado a massacrinhos à distância, o superfofo Henry Kissinger, tem uma entrevista publicada na distinta Der Spiegel.

O “açougueiro do Cambodia” fica lá falando abrobrinhas sobre o Irã, Obama, política externa dos EUA e geopolítica com a autoridade de quem fala abrobrinhas perigosas e influentes há décadas.

Tá foda. Num mundo onde o Black Flag dura só nove anos, o Joe Strummer morre aos 50 (e um blogueiro faz contrapontos estapafúrdios), uns velhos belicistas manja-rola desses vivem até os 93 ou continuam firmes e influentes aos 86. É… pode ir praticando o desapego porque esta Roda de Nascimento e Morte tá igual à moda jovem: escrota.

402px-RobertMcNamara55

Alô, aqui é o McNamara… Passa fogo na geral, faz favor.

Mais:

http://morris.blogs.nytimes.com/2009/07/07/mcnamara-in-context/

http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=106304285
http://www.youtube.com/watch?v=V2Qgspw5xOg
http://www.youtube.com/watch?v=ZJOcrJP8yM4
http://www.youtube.com/watch?v=InM-E64AUOc

Enchendo linguiça com The Monks

Posted 02/07/2009 by Sávio Vilela
Categories: Enrolação, Resenha

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MOnks 6a

Fotos: cortesia da banda

Quase recuperado de uma infecção de ouvido brava, estava há pouco cometendo uma imprudência: coloquei para tocar o Black Monk Time, dos obscuros The Monks.

Obscuros… Mentira isso. Hoje com a rede mundial de computadores, a Internet, não há praticamente mais nada obscuro em se tratando de música. O que existe é obscurantismo por parte dos usuários. No entanto, se eu me prolongar neste raciocínio, o texto vai perder seu foco principal: The Monks.

“Ah, Monkees”, diz o incauto, “conheço… ‘Then I saw her face, now I’m a believer!’, bacana demais essa música, né?!” Não. Dá um tempo. Presta atenção. É The Monks, não The Monkees.

Pega leve. Os Monkees eram menininhas romanas de togas cor-de-rosa perto da horda visigoda que eram os Monks. Inclusive, é difícil acreditar que um barbarismo musical daquela natureza possa ter sido gerado em 1965 e registrado em 1966.

Acabei me lembrando do texto que escrevi para a Bizz sobre o Black Monk Time para a seção Tesouros Perdidos. Enquanto eu não arranjo algo melhor para isto aqui, dêem uma olhada, é legal. Para tornar este post mais rico e elucidativo e mostrar que sou gente fina, utilizei de recursos multimídia que hoje a rede mundial de computadores, a Internet, pode nos proporcionar. É carne de segunda, mas o tempero até que é bonzinho.

Monks 2a

Futuro negro

A grosseria e o barulho dos Monks, que se recusavam em harmonizar com o púrpura.

album-black-monk-time

The Monks – Black Monk Time, Polydor (1966)

Começava o prolífico ano de 1966. O ácido já polinizava o rock anglo-saxão. À medida que as tecnologias fonográficas avançavam e a lisergia era absorvida, a música pop era construída cada vez mais em camadas multicoloridas.

Na germânica Hamburgo, surgia a antítese de tudo isso, The Monks, uma formidável deformidade da música sessentista. Enquanto roqueiros do mundo todo se preocupavam com arranjos complexos e ensolarados, cinco soldados americanos entediados, usando preto e corte de cabelo franciscano, optavam por uma barulheira crassa e dissonante.

Lançado pela Polydor graças ao lobby de um jovem produtor alemão, Black Monk Time, o primeiro e último disco dos monges, jogava um balde de tinta preta no technicolor psicodélico. Não havia nuances, apenas uma desafiadora truculência sônica governada quase exclusivamente por estruturas rítmicas.

Numa época tão submetida a demandas melódicas (pense em Revolver, dos Beatles, e no Pet Sounds, dos Beach Boys), o que eles faziam era falta de educação. Batidas tribais e marciais e um banjo elétrico tocado percussivamente davam as coordenadas para voz, baixo, guitarra e órgão escreverem, sob uma névoa de fuzz e microfonia, uma declaração de desdenho às normas de condutas harmônicas.

As letras eram tão agressivas e mínimas quantos os arranjos. Como na anti-bélica “Complication”: “Gente morre por você, gente mata por você”. Ou na peculiar canção de amor “I Hate You”: “Eu te odeio com paixão, gata, mas me ligue”.

Como pouca resignação não enche os bolsos de ninguém, o disco foi um previsível fracasso. Levaram algumas décadas para que os Monks fossem compreendidos e incluídos na lista de favoritos de gente como Jack White e Mark E. Smith, do The Fall.

Mais:

http://www.the-monks.com/

http://www.playloud.org/themonks.html

Iggy Pop criando porco – uma resenha babaca e auto-reverente

Posted 26/06/2009 by Sávio Vilela
Categories: Resenha

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iggy-pop-preliminaires-2009

Há dois anos, eu sugeri a Iggy Pop que talvez fosse melhor ele criar porco. Parece que ele atendeu à sugestão e montou um chiqueiro na França. Les porcs de monsieur Pop podem ser ouvidos roncando em Preliminaires, o novo álbum mezzo manja-rola do, como falam bonito na TV, o-homem-o-mito-o-ícone-a-lenda.

(É sacanagem esse lance aí dos porcos. Não acho Preliminaires tão porcaria assim, foi só para fazer auto-referência mesmo.)

Na extinta Bizz, em março de 2007, eu pestanejava sobre The Weirdness, o disco que coroou o retorno dos Stooges. Aquilo era uma patacoada para a qual não tinha como não torcer o nariz. Não dava para, em 2007, ouvir o ilustríssimo senhor James Osterberg berrando, sobre guitarras com pretensões de repetir uma “Raw Power”, que sua “idéia de diversão é matar todo mundo”. Quê? Somos o que agora? Palhaços? Não, peraí, não é assim, não…

Fosse eu a mãe do Iggy Pop, falaria: “Ô, Iggy,que bom, meu filho. Que bom que você parou com essa coisa de rock”. Quer dizer, parar, não parou. Há em Preliminaires umas faixas aqui e ali que acenam para distorções e compassos mais aceleradinhos. Mas não é aquele rompante todo que ficaria feio para um sessentão que leva uma vida mansa numa mansão em Miami. A obra aqui está mais condizente com um senhor de 62 anos praticante de Tai Chi Chuan e bebericador de bordeaux.

Nada contra velhos fazendo rock. Pelo contrário, sou completamente desfavorável a essa romantização da juventude e à incompatibilidade protocolar da “maturidade” com o gênero. Mas o Iggy já não tem mais energia vital para dar à música que o tinhoso inventou. No festival Claro Q É Rock, no Brasil em novembro de 2005, o público boquiaberto balbuciou “óóós” por conta de um mise-en-scène ensaiado. Em todo show daquela turnê, Iggy chamou religiosamente a platéia para subir ao palco.

No final dos anos 60 e início dos 70, as pessoas esbaforiam “óóós” – e se horrorizavam às vezes – ao presenciar coisas completamente malucas e imprevistas que ele fazia no palco. Não tinha truque de direção de palco. Tá entendendo? O sujeito já foi mais que condecorado pelos serviços prestados ao rock – merecidamente, claro – , mas tinha que passar a criar porco mesmo.

Antes de Premilinaires sair, ele já dizia à imprensa que estava cansado de “trogloditas fazendo barulho com guitarras”. Aí o que ele fez? Detentor de uma energia sexual meio exibicionista, tomou o caminho natural para um homem de 62 anos que ainda quer exalar sensualidade sem parecer com o Nei Matogrosso ou o Clovis Bornay ou, ainda pior, sem ter que bater asinhas feito o Mick Jagger. Seguiu os passos tomados por gente como Serge Gainsbourg e Leonard Cohen: o exercício daquela languidez decadente que, trabalhando sobre uma área cinzenta, ainda exerce charme.

Com uma cama instrumental composta para crooners dados a canastrices à Humphrey Bogart, Iggy quer você se sinta num cabaré. O vocal barítono, o ambiente à meia-luz, os arranjos de gosto duvidoso de cordas e órgãos elétricos, a fumaça dos cigarros… Os ternos bem cortados, um par de canções em francês para lembrar , oh!, os aromas dos cafés de Nice… Ah! “Insensatez”! Bossa-nova, Tom Jobim… Um clima mais noir para o som que as ondas trouxeram de Ipanema… Por que não?

Visualizou aí? Fino, né? Só que é o seguinte: o Leonard Cohen pode ser mestre, mas não é perfeito. A pior fase de sua carreira se deu nas últimas décadas, exatamente quando apelou para arranjos canastrões (adendo: o último disco, Live in London, é bom de verdade). E, pô, o Serge Gainsbourg já nasceu canastrão e ainda tinha um trunfo: a língua nativa francesa (OK, o Cohen nasceu em Montreal, mas sua primeira língua é o inglês), cuja malemolência superior à do inglês permitia que ele se equilibrasse serenamente sobre uma linha tênue entre a elegância e a canastrice patética. Ou seja, o “caminho natural” não funcionou para o anglófono Iggy Pop. Ficou meio feio, Iggy. Mal aê.

Mas numa boa? Ele tem razão de estar cansado de rock. Por estar preso a um formato em que ele não sabe mais criar, foi forçado a traçar a trilha entediante do óbvio e do esperado. Nenhum artista com vontade legítima de se expressar aguentaria uma camisa de força dessas. Aí, antes um cantor mediano de cabaret que um roqueiro pau mole e incompetente. (Nota mental do repórter: Zooei, zooei o cara fodão!)

Há dois anos, eu sugeri ao Iggy Pop que talvez fosse melhor ele criar porco. Parece que ele atendeu à sugestão e montou um chiqueiro na França. Les porcs di mounsier Iggy podem ser ouvidos roncando em Preliminaires, o novo álbum mezzo manja-rola do, como falam bonito na TV, o-homem-o-mito-o-ícone-a-lenda.

(É sacanagem esse lance aí dos porcos. Não acho Preliminaires o tão porcaria assim, foi só para fazer auto-referência mesmo.)

Na extinta Bizz, em março de 2007, eu pestaneja sobre The Weirdness, o disco que coroou o retorno dos Stooges. Aquilo era uma patacoada que não tinha como não torcer o nariz. Não dava para, em 2007, ouvir o ilustríssimo senhor James Osterberg berrando sobre guitarras com pretensões de repetir uma “Raw Power” que sua “idéia de diversão é matar todo mundo”. Quê? Somos o que agora? Palhaços? Não, peraí, não é assim, não…

Fosse eu a mãe do Iggy Pop, falaria: “Ô, Iggy,que bom, meu filho. Que bom que você parou com essa coisa de rock”. Quer dizer, parar, não parou. Há em Preliminaires umas faixas aqui e ali que acenam para distorções e compassos mais aceleradinhos. Mas não é aquele rompante todo que que ficaria feio para um sessentão que leva uma vida mansa numa mansão em Miami. A obra aqui está mais condizente com um senhor de 62 anos praticante de Tai Chi Chuan e bebericador de bordeaux.

Nada contra velhos fazendo rock. Pelo contrário, sou completamente contra essa romantização da juventude e a incompatibilidade protocolar da “maturidade” com o gênero. Mas o Iggy já não tem mais energia vital para dar à música que o tinhoso inventou. No festival Claro Q É Rock, no Brasil em novembro de 2005, o público boquiaberto balbuciou “óóós” por conta de um mise-en-scène de palco. Em todo show daquela turnê, Iggy chamou religiosamente a platéia para subir ao palco.

No final dos 60 e início dos 70, as pessoas esbaforiam “óóós” – e se horrorizavam às vezes – ao presenciar coisas completamente malucas e imprevistas que ele fazia no palco. Não tinha tática de direção de palco. Tá entendendo? O sujeito já foi mais que condecorado pelos serviços prestados ao rock – e merecidamente, claro – , mas tinha que passar a criar porco mesmo.

Antes de Premilinaires sair, ele já estava falando para imprensa que estava cansado de “trogloditas fazendo barulho com guitarras”. Aí o que ele fez? Detentor de uma energia sexual meio exibicionista, tomou o caminho natural para um homem de 62 anos que ainda quer exalar sexualidade sem parecer com o Nei Matogrosso ou o Clovis Bornay ou, ainda pior, sem ter que bater asinhas como o Mick Jagger. Seguiu os passos tomados por gente como Serge Gainsbourg e Leonard Cohen: o exercício daquela languidez decadente que, trabalhando sobre uma área cinzenta, ainda exerce charme.

Com uma cama instrumental composta para crooners dado a canastrices à Humphrey Bogart, Iggy quer você sinta-se num cabaré. O vocal barítono, o ambiente à meia-luz, os arranjos de gosto duvidoso de cordas e órgãos elétricos, a fumaça dos cigarros… Os ternos bem cortados, um par de canções em francês para lembrar os, oh!, aromas dos cafés de Nice… Ah! “Insensatez”! Bossa-nova, Tom Jobim… Um clima mais noir para o som que as ondas trouxeram de Ipanema, por que não?

Visualizou aí? Fino, né? Só que é o seguinte: o Leonard Cohen pode ser mestre, mas não é perfeito. A pior fase de sua carreira se deu nas últimas décadas, exatamente quando apelou para arranjos canastrões (adendo: o último disco, Live in London, é bom de verdade). E, pô, o Serge Gainsbourg já nasceu canastrão e ainda tinha um trunfo: a língua nativa francesa (OK, o Cohen nasceu em Montreal, mas sua primeira língua é o inglês), cuja malemolência superior à do inglês permitia que ele se equilibrasse serenamente sobre uma linha tênue entre a elegância e a canastrice patética. Ou seja, o “caminho natural” não funcionou para o anglófono Iggy Pop. Ficou meio feio, Iggy. Mal aê.

Mas numa boa? Ele tem razão de estar cansado de rock. Por estar preso a um formato em que ele não sabe mais criar, foi forçado a traçar a linha do óbvio e do esperado. Nenhum artista com vontade legítima de se expressar aguentaria uma camisa de força dessas. Aí, antes um cantor mediano de cabaret que um roqueiro pau mole e incompetente.

Moonwalking no céu

Posted 25/06/2009 by Sávio Vilela
Categories: Enrolação

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Parem as máquinas! Acaba de chegar um informe de um correspondente divino, relatando que Michael já está querendo saber por onde anda o menino Jesus.

“Caguei de medo ao ver carros gigantes vendidos a bilhões de dólares pela TV” – entrevista com o rei da punk art Gary Panter

Posted 24/06/2009 by Sávio Vilela
Categories: Entrevista

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foto: Glenio Campregher

Momento sério. Parou com o deboche. Desde que eu retomei o blog foi só avacalhação. Passou dos limites. Não dá pra ser assim. Seriedade, seriedade…

(silêncio solene)

Bom… (pigarro) Em outubro de 2005, durante o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), realizado naquela metrópole fervilhante e cosmopolita das alterosas que me serviu de berço, Belo Horizonte, eu me encontrei com “o rei da punk art” Gary Panter. Convidado pelo maior evento do gênero na América Latina, lá estava ele flanando meio sem rumo pela Casa do Conde. Apesar da “realeza” e da evidente cara de que não era daqui, ele seria pouco notado se não fosse pelo porte espigado que equilibrava um par de óculos a uns 1,90m do chão. De fala comedida e educada, queria saber se a agenda que eu carregava era um caderno de desenhos (um scrapbook, como a rapaziada que entende costuma falar). “Os trabalhos de pessoas que não sabem desenhar são os que mais me atraem. Talvez isso explique o meu traço primitivo”, diria mais tarde (Valeu, truta!).

O coroamento, ainda que realizado meio a contragosto (”Foi apenas um rótulo reproduzido de alguma revista”, fez questão de pontuar), era um dos motivos de ele estar ali. Nascido em Oklahoma e criado no Texas,o ilustrador, pintor, quadrinista e designer (e músico bissexto) tornou-se inicialmente conhecido por seu trabalho nas páginas da Slash, primeira publicação punk de Los Angeles, nos cartazes e capas de discos das bandas da região.

Mais tarde, seu traço errático e tenso lhe renderia, além do título de pioneiro da arte punk, renome e trabalhos rentáveis e premiados – como a criação do surreal cenário da popular série de TV infanto-juvenil Pee-wee’s Playhouse, que colocou três Emmy’s em sua estante (“Foi ao acaso. Ganhei os prêmios, mas não tenho certeza se meu trabalho era bom”, observou). Ao longo dos anos, o homem ainda acumulou a autoria de capas de álbuns de Frank Zappa, Red Hot Chilli Peppers e outros

Como quadrinista, seu trabalho mais conhecido é Jimbo, o punk que nas revistas RAW e Slash era visto vivendo as agruras de um mundo pós-guerra nuclear. O visual do personagem influenciou um dos amigos de Panter, Matt Groening, a criar Bart Simpson.

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Por conta de sua naturalidade em traçar uma área cinzenta (embora cheia de cores) entre o “lixo” produzido pela cultura pop e a arte erudita (“Gosto do Gaguinho, tirinhas de jornais, Picasso, Pop Art inglês, Godzilla…”), geralmente é atribuído a Panter o mérito de tornar os quadrinhos uma forma viável de arte. E para onde quer que ele vá, colocam ao seu lado uma placa avisando: “o artista gráfico mais influente de sua geração”.

Se é que isso importa (e o leitor, ao terminar de ler esta frase, vai presumivelmente responder: “Não, não importa!”), de uma ótica meramente artística, tenho lá minhas ressalvas em relação ao trabalho do soberano da arte punk. Admito que considero bem qualquer nota uns 70% das obras que eu conheço do homem. E se atualmente sofremos visualmente com muita porcaria feita por gente sem talento, é em parte culpa dele.

Gary Panter, além de ser uma grande influência, é um pouco advogado silencioso dessa coisa contemporânea naif/pop/toy art, que insiste em dar pincéis para orangotangos fazerem trabalhinhos de escola e lambrecagens em geral que malandramente rendem cifras polpudas. Não é todo mundo dessa turma que padece desse atavismo artístico, claro. E o que difere um artista como o Panter de boa parte de seus pares e de quase toda sua prole é que, entre filtros emotivos e estéticos, existe da sua parte uma intenção bem burilada de expressar muito com bem pouco. Algo bastante diferente de não expressar quase nada com o pouco que deus lhe deu. OK, mas se peidarem na ante-sala das artes das últimas décadas, pode apostar que vão apontar para, entre outros meliantes, Gary Panter.

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É difícil, contudo, não admirar quem carrega um desprezo sábio por convenções, alguém que ajudou a promover uma ruptura visual agressiva em tempos caretas e protocolares como eram o final dos ano 70 e o início dos anos 80. Além disso, Panter mereçe atenção – sobretudo para o paga-pau aqui – por ter composto uma força criativa que fundou as bases da estética punk americana. E… Por outro lado… Se não fosse por Santos Dumont, talvez nunca teríamos a bomba de Hiroshima e Nagasaki, certo? Err… Argumentações cretinas e estapafúrdias à parte, esse é um assunto que (por questões arbitrárias impostas pelo repórter) não interessa no momento.

O que interessa é que eu, que na época ainda era um semi-vagabundo que preferia acumular discos e informações sobre a história do punk mundial a trabalhar (parênteses Você S/A: caros futuros empregadores, hoje eu prefiro trabalhar, beleza?), estava debilmente extasiado de ter ali na minha frente, papeando comigo, alguém que viu o florescer da primeira geração do punk californiano. Um depositário empírico de um monte de histórias que eu só tinha lido e ouvido falar e de outras que eu nunca soube.

Enquanto eu me inclinava feito um feito um bufão, o coroa me contava historietas sobre o Germs, o X, a Slash, o Whiskey A-go-go, o Troubadour, o Black Flag… E eu sorria feito um cachorro que reencontrou o dono no final do dia.

GaryPanter

Do ponto de vista jornalístico, o encontro foi bem legal. Para um apreciador do punk, o negócio foi sensacional. Mais do que isso, as rugas e o cabelo escovinha grisalho que enquadravam aquela cabeça inquieta – cujos ouvidos suportavam gente insuportável como Merzbow e Destroy All Monsters – iniciaram um processo interessante na minha vida. Dali em diante, fui sendo convencido de que eu contava o tempo de uma maneira errada.

A coisa era que eu, até então um retardado mental por vocação, levava a sério aquela frase célebre de “My Generation”: “I hope I die before I get old“. É que se você é (des)educado por uma (sub)cultura radicalmente jovem como o rock, e mais ainda o punk hardcore, – e no meu caso, para piorar, criado relutantemente num ambiente mineiro católico -, você acaba crescendo com uma noção gravada no seu córtex cerebral de que velhos são o resultado de décadas de doutrinação judaico-cristã e capitalista, bastiões dos valores e da moral burguesa, retrógrados ferrenhos, uma gentinha desprezível… Enfim, um modelo a ser evitado custe o esforço que for. Se envelhecer significava isso, eu preferia me jogar do Viaduto das Almas antes de completar 30 anos.

No entanto, encontros como esses com o Gary Panter – e mais tarde com Tom Zé, Hermeto Pascoal, Eduardo Coutinho, Milton Santos, entre outros, e com anciões malucos que nunca tiveram visibilidade – me dobraram, me estapearam, me chamaram de “moleque presunçoso” e quebraram minhas concepções juvenis pedestres. Perdi o medo de envelhecer e me tornar um decrépito bunda-mole. Vi com os olhos e os ouvidos que velhos podiam ser irresignados. Depois disso, contar o tempo ficou mais interessante. Ficou provado que é possível planejar a vida sem desenhar um projeto medíocre para engrossar estatísticas demográficas

DSCN2734___foto_Glenio_Campregherfoto: Glenio Campregher

No dia seguinte ao primeiro encontro, ele falou para uma platéia variada sobre sua carreira e suas experiências. Com a tranquilidade de um bodisatva, Panter narrou a um quorum de adultos, crianças e velhos uma viagem de ácido que teve em 1972 e que mudou o rumo de seu trabalho. “Caguei nas calças de medo quando vi carros gigantes sendo vendidos a 5 bilhões de dólares pela TV. Achei que minha alma estava vendida para a TV”, disse sobre a bad trip.

Contou ainda sobre o encontro com um dos seus maiores ídolos e influências, o quadrinista Jack Kirby. “Eu o adoro. Ele foi muito gente fina comigo quando o visitei na década de 70. Respondeu todas minhas perguntas idiotas”. Queixou-se um pouco do mercado: “quando os editores de arte me dizem: `Queremos algo bem louco! Go crazy!`, eu tenho que imaginar o que eles realmente querem. Porque se eu fizer algo realmente louco, eles não publicam.” E Respondendo à pergunta de alguém do público, explicou porque continuava fazendo quadrinhos apesar de se dar bem em áreas mais “maduras” e rentáveis das artes visuais: “Não sei. Vai ver eu sou apenas estúpido.”

Feito isso, o velho se dispôs a distribuir desenhos e aturar a tietagem de gente que mal sabia que ele era. Aí, eu o Arthur Dantas, o chamamos para um papo. Taí:

(Parte desta entrevista foi publicada segunda edição da revista +SOMA, mas essa é a versão não editada e com direito à contextualizão cretina que você acabou de ler.)

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Há quem o compare ou associe a Jean-Michel Basquiat. Você concorda com isso?

Sabe, eu sou mais velho que Basquiat. É muito louco dizer isso, mas meu trabalho apareceu em 1977, e isso foi uma influência sobre Basquiat e todos esses caras. Um pouco ao menos.

Então você acha que você influenciou Basquiat?

Sim.

Você sabe se ele teve algum tipo de contato com o seu trabalho?

Meus trabalhos saíram na Slash. Ela estava em todo lugar. Mas eu não ligo pra isso. Talvez seja verdade, talvez não. Eu nunca o encontrei, mas eu nunca fui influenciado por Basquiat. Em 1974, eu estava fazendo pinturas como Basquiat e eu pensei: “Hmmm… Eu não quero fazer isso. Farei outra coisa”. Eu pensei que alguém acabaria fazendo isso. E Basquiat acabou fazendo.

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Ontem você estava falando sobre o show mais maluco que você já viu. Foi num ring de luta-livre…

Ah, um show de punk de rock…

Eu gostaria de saber sobre a sua experiência com essas pessoas naquele tempo. Quando você foi para Los Angeles?

Foi em 1976. Bem, eu fui para Los Angeles e era um tempo produtivo para a música. Eu gostava de ouvir Brian Eno, Sparks, Todd Rundgren, Roxy Music… E eu estava à procura do que estava rolando e eu achei a Slash magazine em um jornal. Então, fui até o escritório deles, levei meus quadrinhos e eles gostaram. Eles falaram “OK, você pode fazer uma página todo mês”. Isso foi no final de 1977.

Então a razão de você ter ido a Los Angeles foi a Slash?

Não, eu só vi a Slash por acaso. Eu fui pra L.A. porque eu não conseguia trabalho no Texas. Eu estava trabalhando como porteiro, trabalhei numa gráfica… Eu não podia ir muito além disso. Então eu pensei que se eu pudesse ir para Nova Iorque ou para Califórnia… Mas antes eu tenho uma pequena história sobre Nova Iorque. Eu fui uma vez para lá em 1973. Eu estava pensando me mudar para a cidade, mas era muito caro. Procurando nos jornais, eu achei um apartamento por US$3000,00. Fui com um amigo e batemos na porta de um apartamento no Village. Duas garotas atenderam à porta. Carecas, sem cabelo algum, cobertas de tatuagens azuis. Gostamos do apartamento. “Esse apartamento parece legal”, pesamos. Elas disseram: “Não, não é nesse quarto. É lá atrás”.Fomos para o quarto dos fundos, abrimos a porta, e no meio do quarto havia uma jaula imensa com um gorila dentro e merda por todos os lados: no teto, nas paredes, nas janelas… Elas disseram: “O gorila não está feliz. Estamos nos livrando dele e vamos alugar este quarto”. Aí pensamos: “Talvez seja melhor não nos mudarmos para Nova Iorque”. Então me mudei para Los Angeles. (risos)

O que eram essas garotas?!

Eu perguntei às pessoas sobre elas. Ninguém tinha as visto ou ouvido sobre elas. Eu esqueci que isso tinha acontecido. É tão estranho eu me esquecer disso… Muitos anos depois um amigo meu chegou e disse: “Você lembra quando…”, aí eu me lembrei. É estranho porque elas eram punks de uma certa maneira e mais tarde eu me envolveria com toda essa coisa. Então eu fui para LA, você sabe, por aventura. E aí eu vi a revista (Slash) e pensei “ou isso é bem louco, fascista ou qualquer outra coisa, ou interessante”. E eles eram todos gente boa, a maioria deles vinha de escolas de arte. A primeira geração de punks californianos era principalmente composta estudantes de arte na casa dos 20 e poucos anos.

O editor, Claude Bessy, ele tinha uma banda…

Catholic Discipline. Ele tinha essa banda. Ele morreu há poucos anos. Ele era o editor, escrevia metade da revista ele mesmo. Era uma pessoa maravilhosa. Mudou-se para Barcelona. Ele também trabalhou com os Virgin Prunes, dos quais eu gosto bastante.

Virgin Prunes…

Um banda irlandesa. Dois caras que ficavam super bêbados e iam “uuaaaooorrrrghbleerrrghggagaaaah”! Algo assim. Eles eram meio gays. Totalmente loucos. Eu adoro… Enfim. A primeira geração dos punks de Los Angeles era formada por estudantes de arte, talvez em seus 25, 26 anos. Uns dois anos depois a garotada das praias apareceu. Caras loucos e musculosos que arrastavam pessoas atrás de carros, subiam e pulavam dos sinais de trânsito. A coisa toda só foi ficando cada vez maior.

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Você acha que a música tem alguma influência sobre seus desenhos, sua pinturas, sobre seu trabalho artístico em geral?

Sim, tem alguma influência. Mas música punk como Ramones (faz barulho de metralhadora). Eu não curto muito punk rock…

Eu quero dizer música em geral, a música que você gosta.

Sim, eu escuto muita música estranha, noise music, art music. Minha coleção de discos é muito estranha. Agora, eu não posso conhecer tudo…

Você gravou alguma coisa com os Residents?

Sim, eu fiz um single com The Residents. Eles foram os produtores. Os Residents eram na verdade dois caras, Hardy Fox e Homer Flynn. Eles eram um pouco mais velhos que eu. Eu tenho 54, provavelmente eles devem ter uns 57 ou 58 anos agora. Eles chegaram em San Francisco para ver as bandas psicodélicas em 1970 ou 1969. Mas toda a coisa psicodélica não estava mais rolando nessa época. Mas eles decidiram a formar uma banda psciodélica durante 10 anos para ver o que dava.

Quando você gravou com The Residents? Nos anos 80?

Sim, 1981, 1982… Eu troquei pinturas por sessões de gravação, por engenheiros de som e tal. Eu não sei se é bom. Mas eu gosto de fazer música. Eu toco guitarra todo dia. Tenho duas guitarras elétricas e um violão de cordas de aço. Aí eu desenho, toco um pouco de guitarra, desenho, toco mais um pouco…

Você já teve uma banda? Ou você só colabora nos discos de outras pessoas, ou apenas faz seu trabalho sozinho?

Sabe, eu fui criado com base em preceitos religiosos que proibiam a dança, instrumentos musicais… Então, eu sou um pouco retardado musicalmente. Geralmente quando faço meus discos eu gravo faixa por faixa, ou tenho a ajuda de alguns amigos. Nunca tive uma banda. Não acho que consigo ter uma. Quero dizer, seria um sonho ter uma. Eu sonho em tocar com Frank Zappa durante todo o tempo. Espero apenas poder gravar mais, isso seria suficiente. Meus álbuns são um monte de canções, um monte de canções anti-cristãs. Eu acho meio estúpido, mas é o que eu faço. Espero não fazer música, eu só espero poder fazer mais barulho.

Você acha que o histórico moralista pelo qual você atravessou teve alguma influência na sua música, no seu trabalho? Como se fosse uma reação a esses padrões morais?

Sim. Mas não é muito divertido ser uma reação. É melhor ser autenticamente significativo. E é o que eu tento fazer, não ser apenas uma reação. É meio triste ser só uma reação.

Verdade. É muito limitado.

Sim, e se eu estou reagindo a isso significa que ainda estou sofrendo influência dessa igreja.

Os trabalhos dos anos 60 e 70, da geração da Zap, e dos anos 80, da RAW, são muito influentes nas belas artes e nas artes gráficas. Todas essas gerações de quadrinistas foram importantes para o mundo. Mas os quadrinhos hoje não têm tanta influência quanto tinham nas décadas de 70 e 60…

Atualmente, há várias pessoas trabalhando juntas em algumas coisas. Você sabe, os franceses, como o pessoal da Bazooka. Esses caras estão trabalhando em grupo para produzir publicações. Eu tenho visto mais disso ultimamente. Há também mais garotas hoje em dia. Quando eu começei a lecionar quadrinhos não havia menina alguma nas salas, agora é quase que meio a meio. Isso é ótimo. Tem alguns grupos que trabalham juntos como o Fort Thunder. São uns caras de Rhode Island que têm bandas, fazem camisas, roupas e cartazes. Todo esse tipo de coisa. Eu não estou interessado no tipo de quadrinhos que são influentes atualmente, todo verão um filme baseado em HQ aparece. Então, ainda há uma influência forte. Eu acho que os anos 60 eram muito loucos, as pessoas estavam sempre procurando pelo o que havia de novo, pelo que viria depois e depois e depois e depois… E aí vieram os anos 70: nada. Mas logo em seguida veio o punk e de novo as pessoas foram atrás do viria depois e depois e depois e depois e depois… Bem, tem que haver uma pausa nisso tudo. Tem que haver um período de pausa. Talvez vocês poderiam ser “the next thing”. (risos)

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Você disse lá atrás que a cultura japonesa não estabelece uma distinção tão clara entre belas artes, alta cultura e arte trash, cultura pop. Você acha que o fato dos mangás e animes estarem se tornando cada vez mais populares e mainstream muda o jeito que o mundo vê a separação entre belas artes e arte trash? Outra pergunta, você acha que você está mais próximo do mundo japonês devido de que eles não fazem tanta distinção dos tipos diferentes de arte?

Esta é uma pergunta difícil. Eu não entendo totalmente o sistema japonês. Eu sou fã de arte japonesa. Se eu disse isso foi algum tipo de má tradução. Eu estava dizendo que a “arte inferior” japonesa me levou a estudar o Japão em geral e tentar entender sua história e todos os outros tipos de arte japonesa. Eu apenas disse que a “arte baixa” pode levá-lo a outros lugares. Para mim, a distinção é sobre idéias. Eu penso que existe um pensamento coletivo, uma mente única – como Jack Kirby costuma dizer – pela qual passam a alta arte, a arte baixa e qualquer outra coisa que transmita a mensagem às pessoas. Então, eu não estabeleço muito uma distinção. Minha única distinção é para arte pessoal e arte comercial. Quando faço arte comercial não sou quem manda, sou apenas um servo. Tento fazer um bom trabalho, mas não é a mesma coisa quando sento no meu quarto pensando… Um amigo meu mora em Paris, e ele me dá alguns bons conselhos de vez em quando. Ele disse:”Faça a arte que só você pode fazer”. E eu: “Ah, OK. Que tipo de arte que só eu e ninguém mais consegue fazer?” Sobre a distinção entre arte erudita (high art) e arte popular (low art)… Em relação à arte erudita, seria excelente se alguém me desse muito dinheiro para pintar. Mas eu amo pintar quadros, de qualquer forma. E outra, eu ganho dinheiro fazendo as coisas estranhas que faço, eu posso desenhar as coisas que desenho em meus livros. A influência do Japão… O mangá tem sido bastante influente. Garotos e garotas nos EUA são tão influenciados que estão fazendo mangás americanos. Onde está o mercado? Não estou bem certo se há. Mas eles estão publicando as coisas deles. E isso muda as percepções das coisas.

Você acha que com a cultura japonesa se tornando mais mainstream o jeito que as pessoas vêem arte muda?

Eu acho que o Japão foi muito influente nas artes. Meu trabalho é muito influenciado pelo Japão. Acho que a razão pela qual me tornei popular no Japão é que os japoneses estão sempre procurando por algo interessante no mundo inteiro. Eles gostariam de achar alguém interessado neles também.

Você acha que o governo do Baby Bush influenciará a arte, especialmente aquela feita nos EUA? A população mundial costumava ver EUA como um tipo de modelo de liberdades individuais. E agora parece que o país está caminhando de volta aos anos 50. A arte será influenciada por isso?

A arte eu não sei. Arte influenciada pela política nunca é forte o bastante enquanto arte. Arte política não é tão excitante para mim quanto é arte em geral. Após os anos 60, os Estados Unidos enfrentaram um choque de realidade. Durante a década de 60, estávamos cada vez mais avançando no tempo e de repente: “Oh, não! Temos que voltar!” Desde a década de 70 os EUA estão regredindo. George Bush… Eu sou do Texas, eu o considero um total idiota. Um ladrão, um cristão fingido. Ele é o tipo de cristão que não é muito esperto, do tipo que leva a bíblia ao pé da letra: o mundo foi criado em sete dias, Eva nasceu da costela de adão, esse tipo de coisa. Para ele não é sobre metáforas, é apenas sobre obedecer as “leis de deus”. Ele fala com deus, ou sei lá o quê. E os americanos de menor nível cultural podem se identificar com isso, porque eles também têm medo do futuro. Eu tenho medo de fundamentalismo cristão, de pessoas que pensam que deus ama apenas elas. Isso é perigoso. Bush criou algo para poder reagir contra, toda essa história de guerra santa e fundamentalismo islâmico. Mas o que ele fez foi só colocar mais dinheiro no seu bolso e no dos seus amigos. Toda essa história é uma bobagem, se há uma ameaça nós não estamos em segurança. Olhe para Nova Orleans, por exemplo. Não há ninguém em segurança, isso não existe lá. E nós também não estamos mais seguros por causa de Bush. Não seria tão difícil destruir Nova Iorque. Quer dizer, quão difícil seria isso? Se toda semana 20 caras seqüestrassem um avião, todo mundo deixaria Nova Iorque. Mas não é o que acontece. Isso só mostra que a religião mulçumana não é composta só por loucos extremistas. É exatamente como a igreja na qual fui criado. É a mesma coisa. Gente doida que quer deus ame-os mais. Eu acho que os islâmicos extremistas estão sendo usados por alguns para fins políticos. Isso tem a ver com o quanto EUA lucra nos países árabes, e com o fato de que os jovens no Oriente Médio não têm trabalho, perspectivas, nada. Outro problema é que a mídia americana está em todo lugar. Se eu fosse um religioso doido que só rezasse, rezasse e rezasse e tomasse conhecimento da música rap, por exemplo, ficaria louco. Todo esse “mexa gostoso seu traseiro” e tudo o mais que vem dos EUA, todas essas coisas estúpidas. E a América nesse ponto não está se dando conta do que está acontecendo. Enquanto a comida continuar chegando ao McDonald’s ele não têm que pensar nem se preocupar com nada. Mas se alguém destruir o McDonald’s ou sabotar o fornecimento de comida, aí ele começaram a se preocupar. Mas eles não conseguirão pensar racionalmente e reagirão de um bilhão de formas perigosíssimas. Mas então, a arte… é assim: se você está trazendo os anos 50 de volta, então os anos 60 chegarão uma hora. Essa é a parte boa. E eu acho que de certa forma isso está acontecendo. Mas meus alunos não são lá muito comovidos, apaixonados, eles estão pensando em suas carreiras. Não é o mesmo espírito dos anos 60. É outro contexto. A tecnologia é bem diferente daquela da década de 60. Os anos 60 foram do jeito que foram, em parte, por causa da televisão. Esta é a minha resposta longa. Acho que algo de interessante pode surgir disso, mas arte política…

Eu me lembro quando uma certa banda americana veio tocar aqui. Eles estavam muito preocupados em se desculpar por serem americanos…

E eles se desculparam?

Sim, o que você acha disso? Acho meio estúpido. Porque você sabe…

Bem, isso é um pouquinho de consciência. Mas eles poderiam ser um pouco mais conscientes. Eu acho que a América deveria se desculpar por um monte de coisas. Mas antes o que os americanos deveriam fazer é ajeitar sua própria bagunça e ler um monte de livros. Desligar a TV ajudaria também.

Na real, o povo americano são meramente pessoas. Eles não estão dando ordens.

Verdade. Mas nós somos adultos muito mimados, e gordos… e todas aquelas outras coisas. Mas há algo de interessante na arte, um underground interessante – quer dizer, não está no underground, mas na Internet. Sei lá, pessoas são formigas. Formigas podem fazer coisas interessantes também…

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Seu trabalho sempre se relacionou ao progresso tecnológico e ao jeito que isso domina as pessoas. Mas e agora? O que dizer do progresso tecnológico de agora?

Tecnologia tem ótima características, mas você tem que fazer isto também (mostra o desenho feito à caneta no papel). Porque caso a tecnologia parar de funcionar, você ainda pode fazer isso. Eu falo com meus alunos que eles são viciados em Photoshop. “Desenhe essa linha”. “Não, eu farei isso no Photoshop.” Você tem que desenhar, sabe, porque se o computador parar de funcionar… Como em Nova Orleans: sem tecnologia alguma. E o que você faz? “Oh, não! Não sabemos o que fazer! A tecnologia parou!” Para mim as formas mais genuinamente humanas são muito importantes. Se você está progredindo tecnologicamente você tem preservar as velhas coisas importantes. E você tem que progredir com seu espírito, seja lá o que for isso.

Qual foi sua última publicação? “Jimbo in Purgatory”? Tem algo guardado que está para ser lançado?

Depois de “Jimbo in Purgatory”, veio uma réplica de um caderno de rascunhos meu. Saiu pela editora canadense Drawn and Quarterly. O nome é “Satiroplastic”.

Parece que os críticos acharam “Jimbo in Purgatory” incrivelmente hermético, apesar de o considerarem um ótimo trabalho de arte e design. Tem gente falando que o livro é um amontoado de citações e referências a temas que vão da cultura pop à filosofia, o que torna o livro quase ilegível. O que você me diz disso?

Eu construí o livro de maneira tão metódica e processual que o fez parecer um mosaico repleto de pequenos ladrilhos, então, sim, é difícil tirar um sentido literal dali. O leitor em geral pode simplesmente aproveitar as sensações que tem lendo o livro e também usar a notas de rodapé como uma lista de leitura. Muitos dos livros aos quais fiz referências serão inspiradores para quadrinistas e cartunistas e também para amantes de literatura. É pessoal e experimental. Espero que o próximo livro do Jimbo seja mais leve e menos purgativo.

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Como calhou de você desenhar as capas dos discos de Frank Zappa, Red Hot Chilli Peppers, Screamers… Isso foi um trabalho pessoal ou comercial para você? Ou ambos?

Eu venero Frank Zappa. Eu sempre quis fazer as capas dos discos do Zappa. Eu levei meu portifólio para as gravadoras e um dia eu recebi uma ligação: “Você quer fazer a capa para um disco do Frank Zappa?” “Sim!” Mas eu descobri depois que eram para discos não autorizados pelo Zappa. Frank Zappa processou a Warner Bros. por esses discos. Mais tarde, fiquei sabendo que ele gostou das capas. Então, isso foi muito bom para mim, mas eu nunca estive com Frank Zappa. The Screamers, eu conhecia os Screamers. Os Chilli Peppers, eu os conhecia também. Mas tudo aconteceu por intermédio de gravadoras. Foi um diretor de arte que me ligou. Mas eles (as gravadoras) chegaram até a mim por causa de todo o trabalho que fiz de graça: flyers para shows de bandas, pequenas ilustrações…

Você também faz um trabalho que você chama de “shows de luz”. Como funcionam? São similares de alguma forma às performances de luz que acompanhavam bandas psicodélicas nos anos 60?

O show de luz é uma performance ao vivo não-computadorizada, e é um desenvolvimento das “luzes líquidas” e as luzes refratadas dos anos 60. Usamos projetores suspensos e outras fontes de luz e interagimos com a luz por meios de grandes stencils, rodas de cor e espelhos flexíveis. A inovação é que nós também usamos vídeo-projetores como fonte de luz, coisa que não existia na década de 60. É uma colaboração com Joshua White, que fazia os mais famosos shows de luz dos anos 60 no Filmore East, em Nova Iorque. Ele é muito gente boa e tem monte de idéias parecidas com as minhas. Nós já nos apresentamos com Alan Licht, Bardo Pond, Plate Tektonics, Yo La Tengo, Balloon Knot…

O que você tem escutado ultimamente?

Escutado? Eu escuto Nurse with Wound, música psicodélica da década de 60, pós-punk como Magazine, Gang of Four e todo esse tipo de coisa. Eu ainda acompanho música experimental. As pessoas também me mandam um monte de cds. Fora isso, eu tenho uma coleção esquisita de vinil. Coisas que eu acumulo nos últimos 40 anos, tenho ali todos os discos da minha época de escola e faculdade.

Pop Group?

Pop Group? Ah, sim, eu gosto de Pop Group. É muito bom. Enfim, todo tipo de coisa.

Punk rock gay…

Punk rock gay? Ah, é! Os Virgin Prunes! Relançaram os discos dos Virgin Prunes. No meu blog eu faço listas do que tenho ouvido. Muita gente me envia música também. Eu ouço bastante esse tipo de coisa.

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Você diz no livro “We’ve Got the Neutron Bomb” que o logo do The Screamers adquiriu vida própria. Como é para um artista quando seu trabalho rompe certos limites e passa a ser um tipo de propriedade pública?

Bom, é bem legal. Meio que por isso tem gente bacana no Brasil, Noruega e Indonésia que acompanha meu trabalho. É bem legal. Os Screamers detêm os direitos autorais do logo, só me resta o piratear também.

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foto: divulgação

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