Fiquei sabendo do caso do Michael Jackson com a Stasi e estou me desculpando

Posted 04/09/2009 by Sávio Vilela
Categories: Resmungando sobre o relevante

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stasi mjGrafitti do Moonwalker num muro em Berlim (Foto: Kai Müller)

OK. O tempo urge, a vida me atropela e, às vezes, eu sou quem a atropela. Mas, no final, a gente acaba se dando bem. (Nota do repórter com mau gosto: isso ficou bonito, diz aí.) Entre uma ponta e outra, eu acabo sendo negligente com este verdadeiro rochedo de credibilidade e informação que é o meu brógue. Negligente, sim, admito, mas omisso, omisso não. Omisso jamais!

Tanto é que cá estou para falar de algo deixei passar batido pelo DESOVA, mas não pela minha cabeça. O comentário é a respeito de uma notícia velha, mas, na boa, onde está o editor disto aqui pra falar que a pauta caducou? Cadê? Não tem. Então, vou fazer assim mesmo.

Pois bem… Sabe o que foi a Stasi? A Staatssicherheitsdienst? Era ao mesmo tempo a polícia política e o serviço secreto da antiga Alemanha Oriental. Sustentava o regime ditatorial socialista da DDR (República Democrática Alemã) e fazia a KGB e a Gestapo parecerem escoteiros adolescentes em eficácia e, sem metáforas, onipresença.

Sabe quem foi Michael Jackson? (Esta você sabe, mas vou falar assim mesmo porque eu curti a frase que escrevi pra ele:) O rei do pop cuja morte recente encheu de lágrimas e melodrama os olhos dos súditos e de enfastio as bolsas escrotais dos insubordinados.

As duas instituições se cruzaram num momento curioso da história do século XX: durante um show em junho de 1988, realizado próximo ao muro de Berlim, do lado ocidental da cidade, pouco mais de um ano antes daquela merda cair.

Como era de praxe com a maioria dos visitantes estrangeiros, o homem do nariz de silicone (Nota: Tô chutando. Era silicone aquela porra?) foi “alvo” da Stasi. Mas com um diferencial: os robozinhos paranóicos da inteligência da DDR estavam de fato se cagando de medo do MJ.

A medorréia da Stasi perante o homem que tinha um carinho especial por criancinhas foi revelada  ao mundo pelo tablóide berlinense Bild. Neste lucrativo alvoroço editorial causado pela morte do homem que ficou branco, o Bild foi respirar poeira sobre os arquivos da Stasi e saiu de lá com uma história quente.

Em notas encontradas nos arquivos da Stasi, grifava-se: “os jovens farão o que puderem para assistir ao concerto na área do Portão de Brandenburg”. E ainda: “alguns jovens estão planejando (usar o momento) para provocar um confronto com a polícia”.

As anotações também davam conta dos rolezinhos que o homem que perguntava “quem é mau?” fez por lá. Uma delas descreve sua passagem pelo famoso Checkpoint Charlie, uma importante divisa no meio da cidade. Os agentes falam de três carros e de “vários homens e mulheres desconhecidos, entre eles, o cantor americano Michael Jackson. Acompanhando-o durante todo o tempo, estava uma mulher de cerca de 25 anos, 1,65m de altura, e dona de um constituição física esguia”.

Os arquivos mostram ainda que estava nos planos da Stasi um “método alternativo” de permitir que a rapaziada assistisse ao show: o evento seria exibido ao vivo numa tela de cinema, mas com dois segundos de atraso na transmissão, caso houvesse qualquer tipo de “provocação política” por parte do homem que se transformava em pantera em “Black and White”.

stasi brandeburgPortão de Brandenburger visto do lado ocidental em 1988 (Foto:Frollein)

O plano não foi colocado em prática e, como o Estado temia, o bicho pegou. Aos gritos de “O muro precisa cair!”, confrontos violentos entre fãs berlinenses do lado oriental e policiais – muitos à paisana para se misturar à multidão – comeram solto. Com furgões da Stasi já prévia e estrategicamente posicionados nos arredores, centenas de prisões foram efetuadas.

A Stasi era foda -  de um jeito muito ruim, claro. Era eficiente porque era de fato um serviço de inteligência. Ela era atroz não tanto pela repressão física – que era obviamente brutal e que matou “oficialmente” 1082 pessoas -, mas pela capacidade de lançar seu desagradável olhar sobre praticamente todos os lugares onde poderia haver qualquer tipo de subserviência.

Para isso, sua tentacular estrutura contava com, além de milhares de “empregados da casa”, os infames Inofizielle Mitarbeiter, colaboradores informais que escrotamente relatavam ao aparato o que faziam os parentes e amigos. Quando o Muro de Berlim caiu, em novembro de1989, a Stasi contava com com cerca de 97 mil funcionários e 173 mil informantes, de acordo com a jornalista australiana Anna Funder, autora de Stasilândia (livro pra lá de recomendável e que conta com um posfácio excelente escrito por William Waack, aquele mesmo da TV Grobo).

Numa população de 17 milhões, estima-se que em cada seis cidadãos da DDR um trabalhava para a Stasi – formalmente ou não. Para cada grupo de cinco pessoas, havia um par de olhos do Estado para vigiá-lo e, caso algum cidadão saísse da linha, pronto para espezinha-lo moral, social, emocional e fisicamente. (Só uma comparação: em seu auge, a KGB contava com um agente para cada 6 mil habitantes; a Gestapo, com um para cada 2 mil.) Se alguém aí associou essa escrotidão toda à já desgastada referência de 1984, de George Orwell, eu não posso discordar.

stasiBrasão da Stasi (Foto: Adam Lederer)

Eram mantidos tantos arquivos minuciosos sobre uma parcela tão larga da população – e sobre estrangeiros danosos ao regime – que, em 2008, a equipe do governo alemão responsável pela catalogação e pesquisas dos arquivos da Stasi tinha reunido mais 620 mil páginas de papelada.

Com todo esse aparato, a Stasi foi um dos principais pilares na sustentação de um regime stalinista fidaputa de totalitário que durou mais de 40 anos. Se o excêntrico e excessivo Moonwalker irritou e causou problemas a esses putos e, mesmo que minimamente, insuflou o espírito já insatisfeito e rebelado dos jovens do lado leste alemão, já tá ótimo.

Se eu fosse o biógrafo oficial dele, terminaria o livro aí, em junho de 1988. Até esse ponto, ele já tinha desenvolvido uma linguagem universal incontestável – que pode ser percebida na música dos discos Off The Wall, Thriller, Bad – e cometido um ato que diz muito sobre o poder agregador e, em certas ocasiões como essa, amotinador da música. Não precisava mais ir muito além disso – e realmente não foi, convenhamos.

Mas, enfim… Bom… Caralho, Michael. Você mandou bem, bicho. Foi mal pelas piadinhas de mau gosto ao longo dos anos. Mas é que… Bom, você sabe.

Quando a Cidade faz gente cretina se meter com poesia

Posted 12/08/2009 by Sávio Vilela
Categories: Enrolação

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sao pauloFoto: Luiz Henrique Assunção

Se você acessou este blog hoje, dia 12 de agosto de 2009, meus pêsames. Sabe o que tem logo ali embaixo? Um poema. Vou te dar meia xícara de razão se você pensou: “Cacete… Que coisa manja-rola…” Inacreditável, diz aí. Isto aqui é uma palhaçada mesmo. Mas, bem, taí, é o primeiro da minha vida inteira. Nem sei é bom, mas deu vontade de mostrar para quem quiser ver.

São Paulo em agosto de 2009

A última vez que nos encontramos você bateu forte

Uma, duas, três, quatro…

Perdi as contas de quantas vezes foram

Mas agradeço por cada ensinamento

Você me embranqueceu os cabelos

Me deu rugas e olheiras

Consumiu meus músculos

Tirou meu sossego

Mas colocou um homem no lugar de um quase menino quase homem

Você me espezinhou, me encurralou, me fez ir de um lado ao outro

Mas sempre me respeitou

Assim como sempre te respeitei

Você endureceu meu coração para que ele se tornasse mais terno

Sei do seu concreto e da sua crueza

Mas meu espírito aqui corre mais livre

Você é meu koan favorito

Bom te ver de novo.

A Internet é foda (dos dois jeitos)

Posted 03/08/2009 by Sávio Vilela
Categories: Jabá, Resmungando sobre o relevante

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Larry Lawn Chair Walters

Mea-culpa: admito que dedico uma parcela do meu tempo para sacanear a Internet. Chamando-a de um Jackson Pollock de cocô sobre o mapa-múndi. Tirando sarro de twitters, bloggers e de quem os acompanha. Usando os clichês desnecessários e solenes do telejornalismo brasileiro para ironizar a web (e o telejornalismo brasileiro, claro)… Mas a verdade mesmo é que a minha relação com ela é muito boa e frutífera.

A coisa é que eu mal me levo a sério, então, por uma extensão natural, eu não tenho como levar muito a sério as coisas que são muito presentes no meu dia-a-dia.

E, sabe, a vida, como dizem nos livros de auto-ajuda, é um contínuo aprendizado. “O mundo judia, mas também ensina”, como eu costumava ouvir quando criança nos churrascos familiares no Sul de Minas regados à cachaça e música sertaneja.

Tenho aprendido na marra que quando você analisa em demasia ou pensa demais sobre algo cuja boa parte da graça está na sua espontaneidade e autonomia inerentes, a coisa passa a emanar uma aura muito pesada e sisuda. Sendo que o negócio todo é fluído, pulsante, vibrante, dinâmico…

Por meio de uma representação criada na sua cabeça, você sabota algo vívido. Nada bom isso. Por isso, eu vou continuar falando merda da rede mundial de computadores, a INTERNET, ainda que eu a ame. De um jeito filtrado, obviamente, mas eu a amo.

Posto isso, aí vai: putz, caralho! Fiz duas descobertas sensacionais na web – para o retardatário aqui – nesses últimos dias! Uma é o media player freeware VLC. Outra é o MVGroup.

O VLC é simplesmente o melhor media player – para vídeos, principalmente – que eu já tive a oportunidade de usar. Seguindo fielmente seu próprio slogan (“O canivete suíço dos video players”), o software executa com perfeição todos os arquivos de áudio e vídeo que você conhece e não conhece. E melhor: é realmente distribuído de graça e não tem nenhuma marca engordurada dos dedos sujos do Bill Gates ou do Steve Jobs. Vou usar da psicologia infantil: não baixem!

Já o regimento virtual de 150 mil membros MVGroup é o Pirate Bay dos documentários de alta qualidade. Enquanto a imensa maioria dos provedores de conteúdos para torrents dedica tempo, esforço e discos rígidos a terabytes de filmes pornôs e blockbusters hollywoodianos, o MVGroup usa a tecnologia Peer-2-Peer para disseminar informação. (Nota para a mente multifocal do leitor: Opa, opa… Não desvie o foco. Também concordo que pornografia e blockbusters são bons às vezes. Beleza? Então acaba de ler o texto.)

Apesar da pirataria, durante seus quase sete anos de vida o MVGroup só saiu do ar uma vez por motivos jurídicos. Em 2008, um caolho e canhestro processo lhe rendeu um breve recesso em suas atividades. Cê vê, os caras são tão bem intencionados que nem os hômi tem coragem de encostar neles. Inscreva-se aqui para baixar os arquivos.

Leonard Cohen de novo: por que ele voltou a Boogie Street

Posted 28/07/2009 by Sávio Vilela
Categories: Entrevista

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leonar cohenFoto: Michael Foley

Leonard Cohen é um dos grandes artistas do nosso tempo. Ele já escorregou muito no quiabo – principalmente nos anos 80 -, mas isso não lhe tira o mérito do que ele fez e tem feito de irretocável na música e na literatura. Como é comum dessas pessoas que são meio que quase semi-olimpianas, o sujeito carrega uma aura mística e isso encanta e intriga quem se interessa por seu trabalho.

Eu estava intrigado com sua experiência num mosteiro Rinzai, uma escola rígida do Zen-Budismo. Encucava-me o fato do boêmio e vaidoso “ladies’ man” ter se enclausurado e se submetido por cinco anos à disciplina puxada do Mount Baldy Zen Center , localizado numa região montanhosa da Califórnia (EUA), e ainda sair de lá como um monge.

Durante uma época, Leonard Cohen atribuiu ao amor sua disposição para enfrentar a rotina de Mount Baldy. Isso significa um cotidiano exaustivo que tem início pela madrugada e atravessa o dia com longas práticas de zazen (a meditação realizada sentado) orientadas pelos monges superiores à base de leves golpes de varas de bambu ao sinal de qualquer impostura. Um dia-a-dia às voltas com enevoados koans (enigmas zen-budistas) e… Errr… Eventuais pequenos flagelos quando necessários, como a construção de cômodos sob a neve e o frio do inverno rigoroso nas montanhas californianas.

mt baldy

Vista do Monte Baldy (Foto: Doc Searls)

Ao deixar o mosteiro em 1999, três anos após ter sido ordenado monge, Cohen se dizia um judeu ainda e explicou melhor o amor que o levou a encarar a austeridade e a disciplina rígida do treinamento rinzai. Sua passagem por Mount Baldy foi um pretexto para passar algum tempo próximo do velho e envelhecido amigo Joshu Sasaki Roshi, mestre zen, fundador e responsável pelo mosteiro montanhês. Por cinco anos, Leonard Cohen foi assistente e cozinheiro de Roshi. O mestre tem hoje 102 anos e um monte poemas sobre ele podem ser lidos em Book of Longing, o último livro de Cohen.

O Zen é uma experiência estritamente pessoal e não está submetida ao cartesianismo neurótico do pensamento ocidental. É natural que as motivações de seus praticantes pareçam “ilógicas”. Mas… Ainda assim… Intuitivamente, a coisa não se fechava na minha cabeça.

O que me desembaralhou os pensamentos foram três coisa ditas por Cohen em entrevista à TV sueca, em 2001, quando estava lançando o disco Ten New Songs. Usando um terno bem cortado, cabelos raspados e fumando Marlboro, o velho abriu o jogo:

“Uma das qualidades deste tipo de vida [a guiada pela lógica zen] é reconhecer que você falha.”

“Em Mount Baldy (…) descobri que eu não tinha aptidão religiosa.”

“Roshi é um médico (…) Ele cura a ilusão de que você está doente. E ele foi bem sucedido no meu caso. Ele me curou da ilusão de que eu precisava de seus ensinamentos.”

Joshu_Sasaki_RoshiMestre Roshi em cerimônia em Mount Baldy (Foto: Angelica Sarkisyan)


Pronto. Por conta de uma entrevista na qual esbarrei na madrugada de hoje, me livrei de mais uma obsessão que tirava – de leve – meu sossego. A transcrição dela por ser vista aqui. Não consegui achar o vídeo na web. Se algum de vocês encontrar, vou agradecer.

Para os que cagam pra espiritualidade, a conversa também é muito boa. Ele fala, entre outras coisas, de cães, do humor no seu trabalho, sua fama de mulherengo etc. A jornalista Stina Lundberg Dabrowski conseguiu do homem uma entrevista leve e muito bem conduzida. Não era para ser menos que isso, visto que a sueca acumula uma experiência larga em argüir há décadas chefes de estado, escritores, artistas e figuras públicas em geral. Só não reparem no layout horroroso do negócio. Lembra a época de páginas da Geocities (1995?).

Talvez esta música, de 2001, não fale exatamente de experiência de Leonard Cohen no Mount Baldy Zen Center. Mas certamente são suas impressões pessoais sobre o que ele parece ter aprendido lá, a naturalidade plácida, quase fisiológica, do fracasso:

A thousand kisses deep

The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it’s done –
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it’s real,
A Thousand Kisses Deep.

I’m turning tricks, I’m getting fixed,
I’m back on Boogie Street.
You lose your grip, and then you slip
Into the Masterpiece.
And maybe I had miles to drive,
And promises to keep:
You ditch it all to stay alive,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

Confined to sex, we pressed against
The limits of the sea:
I saw there were no oceans left
For scavengers like me.
I made it to the forward deck.
I blessed our remnant fleet –
And then consented to be wrecked,
A Thousand Kisses Deep.

I’m turning tricks, I’m getting fixed,
I’m back on Boogie Street.
I guess they won’t exchange the gifts
That you were meant to keep.
And quiet is the thought of you,
The file on you complete,
Except what we forgot to do,
A Thousand Kisses Deep.


leonar cohen2

Foto: Michael Foley

Leonard Cohen é um dos grandes artistas do nosso tempo. Ele já escorregou muito no quiabo – principalmente nos anos 80 -, mas isso não lhe tira o mérito do que ele fez e tem feito de irretocável na música e na literatura. Como é comum dessas pessoas que são meio que quase semi-olimpianas, o sujeito carrega uma aura mística e isso encanta e intriga quem se interessa por seu trabalho.

Eu estava intrigado com sua experiência num mosteiro Rinzai, uma escola rígida do Zen-Budismo. Encucava-me o fato do boêmio e vaidoso “ladies’ man” ter se enclausurado e se submetido por cinco anos à disciplina puxada do Mount Baldy Zen Center (mbzc.org), localizado numa região montanhosa da Califórnia (EUA), e ainda sair de lá como um monge.

Durante uma época, Leonard Cohen atribuiu ao amor sua disposição para enfrentar a rotina de Mount Baldy. Isso significa um cotidiano exaustivo que tem início pela madrugada e atravessa o dia com longas práticas de zazen (a meditação realizada sentado) orientadas pelos monges superiores à base de leves golpes de varas de bambu ao sinal de qualquer impostura. Um dia-a-dia às voltas com enevoados koans (enigmas zen-budistas) e… Errr… Eventuais pequenos flagelos quando necessários, como a construção de cômodos sob a neve e o frio do inverno rigoroso nas montanhas californianas.

Foto das montanhas de Baldy

Ao deixar o mosteiro em 1999, três anos após ter sido ordenado monge, Cohen se dizia um judeu ainda e explicou melhor o amor que o levou a encarar a austeridade e disciplina rígida do treinamento rinzai. Sua passagem por Mount Baldy foi um pretexto para passar algum tempo próximo do velho e envelhecido amigo Joshu Sasaki Roshi, mestre zen, fundador e responsável pelo mosteiro montanhês. Por cinco anos, Leonard Cohen foi assistente e cozinheiro de Roshi. O mestre tem hoje 102 anos e um monte poemas sobre ele podem ser lidos em Book of Longing, o último livro de Cohen.

O Zen é uma experiência estritamente pessoal e não está submetida ao cartesianismo neurótico do pensamento ocidental. É natural que as motivações de seus praticantes pareçam “ilógicas”. Mas…

Ainda assim… Intuitivamente, a coisa não se fechava na minha cabeça.

O que me desembaralhou os pensamentos foram três coisa ditas por Cohen em entrevista à TV sueca, em 2001, quando estava lançando o disco Ten New Song. Usando um terno bem cortado, cabelos raspados e fumando Marlboro, o velho abriu o jogo:

“Uma das qualidades deste tipo de vida [a guiada pela lógica zen] é reconhecer que você falha.”

“Em Mount Baldy (…) descobri que eu não tinha aptidão religiosa.”

“Roshi é um médico (…) Ele cura a ilusão de que você está doente. E ele foi bem sucedido no meu caso. Ele me curou da ilusão de que eu precisava de seus ensinamentos.”

Pronto. Por conta de uma entrevista na qual esbarrei na madrugada de hoje, me livrei de mais uma obsessão que tirava – de leve – meu sossego. A transcrição dela por ser vista aqui (link: (http://www.webheights.net/speakingcohen/sl2001.htm). Não consegui achar o vídeo na web. Se algum de vocês encontrar, ficarei muito grato.

Para os que cagam pra espiritualidade, a conversa também é muito boa. Ele fala, entre outras coisas, de

cães, do humor no seu trabalho, sua fama de mulherengo etc. A jornalista Stina Lundberg Dabrowski conseguiu do homem uma entrevista leve e mesmo assim muito bem conduzida. Não era para ser menos, visto que a sueca acumula uma experiência larga em argüir há décadas chefes de estado, escritores, artistas e figuras públicas em geral. Só não reparem no layout horroroso do negócio. Lembra a época de páginas da Geocities (1995?).

Talvez esta música não fale exatamente sua experiência em Mount Baldy Zen Center. Mas certamente são suas impressões pessoais sobre o que ele parece ter aprendido lá, a naturalidade plácida, quase fisiológica, do fracasso:

A thousand kisses deep

The ponies run, the girls are young,

The odds are there to beat.

You win a while, and then it’s done –

Your little winning streak.

And summoned now to deal

With your invincible defeat,

You live your life as if it’s real,

A Thousand Kisses Deep.

I’m turning tricks, I’m getting fixed,

I’m back on Boogie Street.

You lose your grip, and then you slip

Into the Masterpiece.

And maybe I had miles to drive,

And promises to keep:

You ditch it all to stay alive,

A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,

The wretched and the meek,

We gather up our hearts and go,

A Thousand Kisses Deep.

Confined to sex, we pressed against

The limits of the sea:

I saw there were no oceans left

For scavengers like me.

I made it to the forward deck.

I blessed our remnant fleet –

And then consented to be wrecked,

A Thousand Kisses Deep.

I’m turning tricks, I’m getting fixed,

I’m back on Boogie Street.

I guess they won’t exchange the gifts

That you were meant to keep.

And quiet is the thought of you,

The file on you complete,

Except what we forgot to do,

A Thousand Kisses Deep.

Bancando o hippie cabotino para falar de hardcore

Posted 24/07/2009 by Sávio Vilela
Categories: Jabá

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gritos-de-odio-bh-1998

Foto: (Fotógrafo, reclame sua autoria porque eu não sei de quem é!)

Tá caótico. Hospitalar e logisticamente. Mas não abandonei isto aqui, não, e preciso corrigir uma negligência minha. Deixei de chamar a atenção de quem lê este blog para um trabalho de pesquisa admirável.

O historiador (e punk) Marcelo Fonseca tem passado os últimos tempos coletando horas e horas de entrevistas. A missão dele é preencher lacunas historiográficas e deixar registrado o que – ao que parece – só foi visto por quem esteve lá: o punk hardcore nacional concebido na década de 90. Um dos frutos dessa empreitada, um projeto de mestrado, virá em forma de documentário. O filme vai levar o nome provisório de Hardcore 90 – Uma História Oral. O progresso de sua produção pode ser visto aqui, onde estão disponíveis diversos trechos de vídeos com os entrevistados.

Uma contextualização: passadas as décadas de 70 e 80, o punk e, por consequência, o hardcore foram esfacelados ou dissolvidos na cultura pop dos anos 90, que celebrava a música e o comportamento “independentes” cujo credor era, de novo, o punk hardcore. Esta seria a versão oficial contada por qualquer grande meio de comunicação.

Mas a coisa é que, como é característico de movimentos sociais ou de expressão artística, o punk hardcore, como uma subcultura independente, seguiu seu curso. No Brasil, não foi diferente. E exceto por alguma matéria ou outra sobre os “Straight-edgers, os vegetarianos radicais!”, tudo se deu ao longo dos anos 90 distante dos olhares curiosos da mídia corporativa.

No mesmo ritmo como funcionou globalmente, o punk hardcore brasileiro ganhou contornos políticos e sociais – e uma aura de samizdat – mais rigorosos e práticos (ao seu próprio modo, claro). Enquanto a música se diversificava estilisticamente – e, honestamente, gerava pouquíssimas composições dignas de nota -, uma gama imensa de assuntos, temas e métodos eram inseridos na pauta dos punks nacionais: liberação animal, vegetarianismo, comunismo, anarquismo, feminismo, ocupações urbanas, abstenção de vícios, ativismo radical político e social de toda estirpe.

Aí o cínico festivo vai apelar ao clichê: “foi aí que o punk perdeu toda a graça e diversão”. Nada disso, chapa. Podíamos ser um pouco neuróticos, levemente neurastênicos e, às vezes, übber politicamente corretos, mas nos divertíamos muito. Diria de um jeito meio selvagem até. Tente procurar no Youtube algum vídeo de qualquer show dessa época e você vai conferir que não estou mentindo.

Duro ter que usar de um cabotinismo digno de um hippie decrépito (“Eu vivi os anos 60, meu filho!”), mas eu estava lá com os meus amigos e sei que essa história não ganhou dimensões anabolizadas por causa da distância mental provocada pelo correr do tempo.

E me lembro bem de que numa época em que a Internet ainda engatinhava e num país de proporções continentais, jovens desajustados de alguma maneira ou de outra usavam os Correios para formar uma imensa rede de comunicação e suporte verdadeiramente confiável. Mais do que isso: praticavam livremente – com sucesso ou não – o que e como eles achavam que deveria ser na música, na mídia e nas relações humanas e com o resto do mundo.

Tudo isso, no mínimo, alterou concepções e microcosmos sociais e forjou longas amizades. Tomara que o Marcelo conte isso bem contado. Pelas pílulas que podem ser assistidas no blog, acho que vai, sim.

Jabá #2

Posted 20/07/2009 by Sávio Vilela
Categories: Jabá

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Na manhã de hoje, um engravatado bateu à minha porta, portando uma maleta preta e um dos melhores argumentos que se pode ter neste mundo que aquele safado cretino do Adam Smith fez a humanidade acreditar que podia dar certo: cifras vultosas.

Então, rapaziada, seguinte, vou ser rápido e vou dizer num fôlego só para não ter tempo suficiente para entrar em crise de consciência…

Um, dois, três: quem aí que tiver uma banda ou for amigo ou primo de alguém que tenha uma banda e que queira crescer e aparecer e coisa e tal, acesse o site da Oi Novo Som, veja lá se vale mesmo a pena a coisa toda e tal e coisa e coisa e tal e se inscreva para participar do ES-QUE-MA.

(Pronto! Podem depositar a grana! Já passei meus dados bancários e o número do meu PIS.)