“Todo respeito ao poder de cura dos Stooges!” – Entrevista com Mike Watt

Se você tem aproveitado mal o seu tempo, provavelmente leu na Bizz do mês de abril (N.: de 2007) a minha resenha do último álbum dos Stooges, The Weirdness, e sabe de que o disco não saiu lá bem essas coisas. Não é caso de chorar. Contudo, depois das apresentações impressionantes realizadas desde o retorno do grupo, em 2003 – e quem viu a passagem da banda pelo Brasil em 2005 não me deixa mentir sozinho -, mal dá para acreditar no desperdício de uma formidável convergência de forças criativas. Conseguiram reunir num mesmo disco o ex-Minutemen Mike Watt, o saxofonista Steve Mackay (que participou das gravações do Funhouse), o lendário produtor Steve Albini (gravou o álbum em seu Electrical Audio e o mixou no Abbey Road), além de Iggy Pop e os velhos parceiros de guerra Ron e Scott Asheton. Ainda assim, o máximo que alcançaram foi um disco de produção coxambra, recheado de músicas imemoráveis e letras pubescentes.

Fotos: Maggie Osterberg, Derzsi Elekes Andor, Sara Slater, Flavia FF e Angels Gate Cultural Center   Maggie Osterberg

Vi que parte da crítica, com medo de riscar o mármore da sala de uma vaca sagrada, apelou para uma relativização simplória: “é 2007, não 1970!”. Ou seja: “vamos nivelar por baixo”.  Segundo o próprio Iggy, em entrevista para o New York Times, ele passou a gravação inteira enchendo a cabeça de Watt, dizendo: “play dull, play dull, play dull, play dull, play dull, play dull, play dull” (“toque de maneira estúpida”). Isto, somado ao fato de que o baixo tipicamente brilhante do senhor Watt está inaudível nas faixas de The Weirdness, só faz aumentar a minha vontade de ouvir da boca do baixista o que ele, do fundo de seu coração, achou do resultado do disco. (Bem que eu tentei, mas enquanto o seu produtor é solícito e simpático, a assessora da banda – dona da palavra final sobre qualquer entrevista – me ignorou solenemente por meses)

O que eu sei é que antes do disco sair Watt era só alegria. Em 2005, coisa de um mês antes da apresentação dos Stooges no Brasil, no festival Claro Que É Rock, ele estava tão empolgado em fazer parte de uma banda tão histórica que até responsabilizava os Stooges por parte da cura de uma infecção quase fatal que o agarrou pelas bolas. Literalmente. Ou melhor, quase. A morte relou mais ao sul, no períneo. E foi nessa feita que o baixista me explicou as condições clínicas sob as quais se deu a volta da ala geriátrica mais barulhenta de Detroit (na verdade, é Ann Arbor, mas Detroit dá mais efeito) e a relação desse retorno com a sua saúde.

p.s.: Tá perdidão? Não sabe quem é Mike Watt? O c.v. resumido do homem: membro de inúmeras bandas (Firehose, Dos, Porno For Pyros etc.), foi com o Minutemen que Watt fez história nos anos 80, fundindo punk rock, free jazz, funk e idéias da esquerda radical. Durante a moralista era Reagan, Mike Watt foi cúmplice do Black Flag e do selo SST na fundação de alicerces para a música independente americana. Gravou com J. Mascis, Sonic Youth, Saccharine Trust, The Black Gang, Juliana Hatfield e até Kelly Clarkson.

Derzsi Elekes Andor

Já esteve no Brasil antes? O que você espera do público brasileiro e do país em geral?

Nunca estive no Brasil antes, seja para visitar ou tocar. Na verdade, eu só consigo conhecer lugares onde toco porque sou filho de um marinheiro e nunca tive muito dinheiro. Tenho muita sorte de “trabalhar com o baixo” e conseguir ver o que eu vejo. São 25 anos de turnês e eu ainda amo isso.

Como você acabou se juntando aos Stooges?

Bem, eu tive uma doença que quase me matou em 2000 e para me fortalecer enquanto eu me curava eu formei alguma bandas covers dos Stooges. Com Peter Distefano e Stephen Perkins, do Porno for Pyros, na costa oeste, e J. Masics e Murph, do Dinosaur Jr., na costa leste. Depois de alguns shows, J. Mascis me pediu para acompanhá-lo na turnê do J. Mascis and The Fog e ajudá-lo a conservar sua voz. Eu cantaria alguns covers dos Stooges durante o set. Quando passamos por Ann Harbor, Michigan, J. sugeriu que eu ligasse para Ron Asheton, convidando-o para tocar algumas músicas do Stooges conosco. Eu tinha trabalhado com ele numa música para trilha do filme Velvet Goldmine e ele tinha me visto tocar com o Firehose, no final dos anos 80. J. gostou tanto do Ron tocando com a gente que o convidou para fazer mais alguns shows em Nova Iorque e na Inglaterra.

Calhou dos membros Sonic Youth serem convidados para fazer a curadoria do festival All Tomorrow’s Parties de 2002, na UCLA ,em Los Angeles. E Thurston Moore sugeriu que Ron, J. e eu formássemos uma banda com irmão de Ron, Scott, na bateria, para tocarmos somente músicas do Stooges. Topamos na hora. E tenho que te falar: aquilo foi selvagem! Depois do ATP, fizemos alguns shows na Europa no verão e no inverno daquele ano, sob o nome de Asheton, Asheton, Mascis and Watt. Então, no outono de 2002, rolou um desses shows de premiação chamado “The Shortlist” e eu fui convidado para tocar baixo numa banda com dois caras do The Hives na guitarra, Pete Yorn na bateria, e Iggy, que era do júri do Shortlist, como o frontman. Nós tocamos três músicas com ele. Até aquele momento eu tinha tocado com todos os três Stooges vivos.

Uns meses depois, Iggy chamou Ron e Scott para participar da gravação de quatro músicas para o seu álbum Skull Rings. No ínicio da primavera de 2003, eu estava em turnê com o Secondmen em Tallahassee, Flórida, quando eu recebi uma chamada de Iggy dizendo que Ron havia me apontado como o “homem do baixo”. O primeiro show foi em Coachella, Califórnia, 27 de abril de 2003. Fizemos mais de 50 desde então. Tem vários deles lembrados em diários de turnê no meu site. Como você pode ver, nada foi planejado, foi um monte de acidentes e coincidências que fizeram essa reunião acontecer. De certa forma, você pode culpar a doença que quase me matou! Todo o respeito ao poder de cura da música dos Stooges!

Sara Slater

E como que foi essa história de você ter quase morrido? Foi grave assim?

Puta merda, foi um rolê no inferno! Isso foi em 2000, eu estava com 42 anos, ou seja, novo demais pra morrer. Tive uma febre que durou 38 dias! Tudo por causa de um abscesso que foi mal diagnosticado. Os médicos acharam que era um ferimento besta causado pelo selim da minha bicicleta. Mas a coisa deveria ter sido drenada naquele momento, então só foi ficando cada vez pior! O abscesso cresceu a ponto de explodir de dentro pra fora. Com isso, eu mal conseguia produzir glóbulos vermelhos porque meu corpo estava produzindo somente glóbulos brancos, tentando lutar contra a infecção. O negócio explodiu e dali sairam quase quatro litros de pus! O médico olhou pra aquilo e disse que eu não tinha muito tempo. Se não fosse pelo pessoal do L.A. County Hospital, cara, eu tinha virado história! Inclusive, foi sobre esse caso todo meu último disco, Secondman’s Middle Stand.

Considerando os Stooges e o MC5 como a primeira geração do punk americano, a cena de NY como a segunda e o Minutemen e toda a cena californiana (de LA, Orange County e San Francisco); a terceira, como é tocar com essas pessoas que devem ter tido uma imensa influência sobre você?

O Minutemen não era parte da cena de Orange County e San Francisco, embora nós tocávamos com frequência com as bandas de lá. Nós éramos mais influenciados pelo o que estava acontecendo no final dos 70 em Hollywood – essa cena era muito influenciada pelos Stooges, muito mesmo. Para mim, é completamente enlouquecedor estar próximo ao que chamo de “fonte direta” – não é de segunda ou terceira (ou mesmo quarta) mão como a maioria das influências. Estou aprendendo com os professores originais. É até difícil para eu achar as palavras certas do quanto isso significa para mim.

Recentemente, eu entrevistei o artista Gary Panter aqui no Brasil. Ele disse que a primeira geração de punks californianos era boa pra valer, mas então, bem no final dos anos 70, o hardcore surgiu e partir daí a coisa toda ficou cada vez maior. E pior. Na opinião dele, nesse ponto a música perdeu espaço para os músculos, você concorda?

Eu gosto bastante do trabalho de Gary (Jimbo, por exemplo). Ele está certo, as coisas ficam menos convincentes quando elas são co-optadas, mas isso é um problema tão velho quanto a humanidade. Lembre-se que Pat Boone vendeu mais com sua versão de “Tutti Fruiti” que a original de Little Richard e isso foi há mais de 50 anos! Eu sou otimista e acredito que onde quer que seja há uma chance, você pode ter alguém fazendo coisas boas mesmo se tem um monte de merda inundando o lugar.

Flavia FF

Eu li uma entrevista em que você dizia que se o Minutemen existisse hoje, vocês provavelmente ficariam mais putos com outras bandas do que com o ambiente político. Eu concordo que tem uma avalanche bandinhas pé-de-cachorro aprecendo por aí, mas mesmo assim elas são piores que o governo de Baby Bush, terrorismo religioso e de Estado e essa merda toda?

O clima político dos dias de hoje é tão ruim quanto os da época do Minutemen. Eu não odiaria mais as bandas atuais do que essa política internacional bizarra, e acho que D. Boon pensaria da mesma forma. Tem algumas boas bandas por aí hoje em dia. Eu acho que nós sempre ficávamos na expectativa de achar bandas que nos deixasse pirados com sua música. Eu sou assim até hoje. E eu ainda sou tão desconfiado a respeito de políticos que tentam sufocar uma cena criativa quanto de alguém que parece tirar sua música de uma máquina.

O álbum Secondman’s Middle Stand é o mais novo lançamento, certo? Há alguma coisa saindo do forno por agora?

Você está certo, depois de toca-lo 104 vezes ao vivo, eu coloquei o disco pra dormir. Estou tirando uma nova remessa de sons com o meu novo trio, Mike Watt and The Missingmen. Estou usando músicas bem curtas, como nos velhos tempos! Também tenho um álbum quase pronto com a minha banda mais antiga, o Dos. Essa sou eu e Kira (ex-baixista do Black Flag), ambos tocando baixo. Esse vai ser nosso quarto disco. Temos esse grupo há 20 anos e são só dois baixos e nada mais! Bem viajante. Eu também acabo de iniciar algumas jams com Money Mark Nashita(tecladista do Beastie Boys) numa coisa chamada Los Punkinhedz, que é bem divertido. Também, é claro, tem o Banyan, que é a banda de Steve Perkins (ex-Porno for Pyros, ex-Jane’s Addcition) onde toco quando Nels Cline não pode. Eu ainda faço umas jams de música dos Stooges com um espírito à John Coltrane com Perk and Peter também (o nome é Hellride). Entrarei em turnê com Mike Watt and The Missingmen (Tom Watson na guitarra e Raul Morales na bateria) esta primavera e então gravaremos um álbum.

Flavia FF 2

O que tem ouvido ultimamente? Tem alguma banda nova que te agrada?

Eu amo John Coltrane e o escuto todo dia. Ele me deixa acesso! Já das bandas novas eu gosto bastante de Sistas in The PIt, Estel e El May. Das já não tão novas eu gosto de Cat Power e, é claro, Sonic Youth. Tem muitas bandas recentes que eu gosto, sério.

Você ainda louva o Blue Oyster Cult?

Bom, eu e D. Boon amávamos seus primeiros quatro discos. Nós meio que desencanamos depois disso (isso era nos anos 70!), mas eu me tornei amigo do baixista e baterista naquele tempo, Albert e Joe Bouchard. Todo respeito a eles. Eu toco “The Red and The Black” (n: do disco Tyranny and Mutation, também gravada pelo Minutemen) desde os 13 anos (farei 48 em 20 de dezembro)!

A última: você continua acordando cedo para remar seu caiaque ou pedalar sua bicicleta?

Sim, eu fico acordado até mais tarde só para os shows. Eu remo meu caiaque aqui na enseada (San Pedro é parte da enseada de Los Angeles) nas terças, quintas e sábados e pedalo nas manhãs restantes. Eu adoro, ajuda a me manter são (um pouco mais ao menos).

Angels Gate Cultural Institute

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Um pensamento sobre ““Todo respeito ao poder de cura dos Stooges!” – Entrevista com Mike Watt

  1. incrível entrevista, sávio.
    gostaria de usar uns trechos e linká-la no meu blog.
    se me der a permissão, claro.

    aliás, eu entrevistei o steve albini por lá, para uma matéria sobre o fugazi, e logo sairá outra entrevista minha com ele. ficaria feliz se você desse uma passada por lá hora dessas: http://esquizoativo.wordpress.com/

    teu blog todo é uma beleza, parabéns. a entrevista com o albini também é incrível, eu já tinha lido em algum outro lugar por aí (zona punk, talvez?). e a carta dele é engraçada, ele foi educado em não dizer que odiou tocar no brasil dessa vez (especialmente por causa de londrina, que foi uma merda de show, hehe)

    grande abraço.

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