“Caguei de medo ao ver carros gigantes vendidos a bilhões de dólares pela TV” – entrevista com o rei da punk art Gary Panter

DSCN2750___foto_Glenio_Campregher

foto: Glenio Campregher

Durante o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de 2005, realizado em Belo Horizonte, eu me encontrei com “o rei da punk art” Gary Panter. Convidado pelo maior evento de quadrinhos na América Latina, lá estava ele flanando meio sem rumo pela Casa do Conde. Apesar da “realeza” e da evidente cara de que não era daqui, ele seria pouco notado se não fosse pelo porte espigado que equilibrava um par de óculos a uns 1,90m do chão. De fala comedida e educada, queria saber se a agenda que eu carregava era um caderno de desenhos (um scrapbook). “Os trabalhos de pessoas que não sabem desenhar são os que mais me atraem. Talvez isso explique o meu traço primitivo”, diria mais tarde.

O coroamento, ainda que realizado meio a contragosto (“Foi apenas um rótulo reproduzido de alguma revista”, fez questão de pontuar), era um dos motivos de ele estar ali. Nascido em Oklahoma e criado no Texas,o ilustrador, pintor, quadrinista e designer (e músico bissexto) tornou-se inicialmente conhecido por seu trabalho nas páginas da Slash, primeira publicação punk de Los Angeles, nos cartazes e capas de discos das bandas da região.

Mais tarde, seu traço errático e tenso lhe renderia, além do título de pioneiro da arte punk, renome e trabalhos rentáveis e premiados – como a criação do surreal cenário da popular série de TV infanto-juvenil Pee-wee’s Playhouse, que colocou três Emmy’s em sua estante (“Foi ao acaso. Ganhei os prêmios, mas não tenho certeza se meu trabalho era bom”, observou). Ao longo dos anos, o homem ainda acumulou a autoria de capas de álbuns de Frank Zappa, Red Hot Chilli Peppers e outros

Como quadrinista, seu trabalho mais conhecido é Jimbo, o punk que nas revistas RAW e Slash era visto vivendo as agruras de um mundo pós-guerra nuclear. O visual do personagem influenciou um dos amigos de Panter, Matt Groening, a criar Bart Simpson.

13_jimbo2_comic_

Por conta de sua naturalidade em traçar uma área cinzenta (embora cheia de cores) entre o “lixo” produzido pela cultura pop e a arte erudita (“Gosto do Gaguinho, tirinhas de jornais, Picasso, Pop Art inglês, Godzilla…”), geralmente é atribuído a Panter o mérito de tornar os quadrinhos uma forma viável de arte. E para onde quer que ele vá, colocam ao seu lado uma placa avisando: “o artista gráfico mais influente de sua geração”.

Se é que isso importa (e o leitor, ao terminar de ler esta frase, vai presumivelmente responder: “Não, não importa!”), de uma ótica meramente artística, tenho lá minhas ressalvas em relação ao trabalho do soberano da arte punk. Admito que considero bem qualquer nota uns 70% das obras que eu conheço do homem. E, se atualmente sofremos visualmente com muita porcaria feita por gente sem talento, é em parte culpa dele.

Gary Panter, além de ser uma grande influência, é um pouco advogado silencioso dessa coisa contemporânea naif/pop/toy art, que insiste em dar pincéis para gente fazer trabalhinhos de escola e lambrecagens em geral malandramente renderem cifras polpudas. Não é todo mundo dessa turma que padece desse atavismo artístico, claro. E o que difere um artista como o Panter de boa parte de seus pares e de quase toda sua prole é que, entre filtros emotivos e estéticos, existe da sua parte uma intenção bem burilada de expressar muito com bem pouco. Algo bastante diferente de não expressar quase nada com o pouco que deus lhe deu.

mongo

É difícil, contudo, não admirar quem carrega um desprezo sábio por convenções, alguém que ajudou a promover uma ruptura visual agressiva em tempos caretas e protocolares como eram o final dos ano 70 e o início dos anos 80. Além disso, Panter mereçe atenção por ter composto uma força criativa que fundou as bases da estética punk americana. E… Por outro lado… Se não fosse por Santos Dumont, talvez nunca teríamos a bomba de Hiroshima e Nagasaki, certo? Err…

Argumentações cretinas  à parte, o que interessa é que eu, que na época ainda era um semi vagabundo que preferia acumular discos e informações sobre a história do punk mundial a trabalhar (parênteses Você S/A: caros futuros empregadores, hoje eu prefiro trabalhar, beleza?), estava debilmente extasiado de ter ali na minha frente, papeando comigo, alguém que viu o florescer da primeira geração do punk californiano. Um depositário de um monte de histórias que eu só tinha lido e ouvido falar e de outras que eu nunca soube. Num papinho de boteco Gary Panter me contou historietas sobre o Germs, o X, a Slash, o Whiskey A-go-go, o Troubadour, o Black Flag…

GaryPanter

Do ponto de vista jornalístico, o encontro foi bem legal. Para um apreciador do punk rock, o negócio foi sensacional. Mais do que isso, as rugas e o cabelo grisalho iniciaram um processo interessante na minha vida. Dali em diante, fui sendo convencido de que eu contava o tempo de uma maneira errada.

No entanto, encontros como esses com o Gary Panter – e mais tarde com Tom Zé, Hermeto Pascoal, Eduardo Coutinho, Milton Santos, entre outros, e com anciões malucos que nunca tiveram visibilidade – quebraram minhas concepções juvenis pedestres. Perdi o medo de envelhecer e me tornar um decrépito bunda mole. Vi com os olhos e os ouvidos que velhos podiam ser irresignados. Depois disso, contar o tempo ficou mais interessante.

DSCN2734___foto_Glenio_Campregherfoto: Glenio Campregher

No dia seguinte ao primeiro encontro, ele falou para uma platéia variada sobre sua carreira e suas experiências. Panter narrou a um quorum de adultos, crianças e velhos uma viagem de ácido que teve em 1972 e que mudou o rumo de seu trabalho. “Caguei nas calças de medo quando vi carros gigantes sendo vendidos a 5 bilhões de dólares pela TV. Achei que minha alma estava vendida para a TV”, disse tranquilamente sobre a bad trip.

Contou ainda sobre o encontro com um dos seus maiores ídolos e influências, o quadrinista Jack Kirby. “Eu o adoro. Ele foi muito gente fina comigo quando o visitei na década de 70. Respondeu todas minhas perguntas idiotas”. Queixou-se um pouco do mercado: “quando os editores de arte me dizem: `Queremos algo bem louco! Go crazy!`, eu tenho que imaginar o que eles realmente querem. Porque se eu fizer algo realmente louco, eles não publicam.” E respondendo à pergunta de alguém do público, explicou porque continuava fazendo quadrinhos apesar de se dar bem em áreas mais “maduras” e rentáveis das artes visuais: “Não sei. Vai ver eu sou apenas estúpido.”

Feito isso, o velho se dispôs a distribuir desenhos e aturar a tietagem de gente que mal sabia que ele era. Aí, eu o Arthur Dantas, o chamamos para um papo. Taí:

(Parte desta entrevista foi publicada segunda edição da revista +SOMA, mas essa é a versão não editada e com direito à contextualizão que você acabou de ler.)

3035944345_40f15281e4_b

Há quem o compare ou associe a Jean-Michel Basquiat. Você concorda com isso?

Sabe, eu sou mais velho que Basquiat. É muito louco dizer isso, mas meu trabalho apareceu em 1977, e isso foi uma influência sobre Basquiat e todos esses caras. Um pouco ao menos.

Então você acha que você influenciou Basquiat?

Sim.

Você sabe se ele teve algum tipo de contato com o seu trabalho?

Meus trabalhos saíram na Slash. Ela estava em todo lugar. Mas eu não ligo pra isso. Talvez seja verdade, talvez não. Eu nunca o encontrei, mas eu nunca fui influenciado por Basquiat. Em 1974, eu estava fazendo pinturas como Basquiat e eu pensei: “Hmmm… Eu não quero fazer isso. Farei outra coisa”. Eu pensei que alguém acabaria fazendo isso. E Basquiat acabou fazendo.

raw

Ontem você estava falando sobre o show mais maluco que você já viu. Foi num ring de luta-livre…

Ah, um show de punk de rock…

Eu gostaria de saber sobre a sua experiência com essas pessoas naquele tempo. Quando você foi para Los Angeles?

Foi em 1976. Bem, eu fui para Los Angeles e era um tempo produtivo para a música. Eu gostava de ouvir Brian Eno, Sparks, Todd Rundgren, Roxy Music… E eu estava à procura do que estava rolando e eu achei a Slash magazine em um jornal. Então, fui até o escritório deles, levei meus quadrinhos e eles gostaram. Eles falaram “OK, você pode fazer uma página todo mês”. Isso foi no final de 1977.

Então a razão de você ter ido a Los Angeles foi a Slash?

Não, eu só vi a Slash por acaso. Eu fui pra L.A. porque eu não conseguia trabalho no Texas. Eu estava trabalhando como porteiro, trabalhei numa gráfica… Eu não podia ir muito além disso. Então eu pensei que se eu pudesse ir para Nova Iorque ou para Califórnia… Mas antes eu tenho uma pequena história sobre Nova Iorque. Eu fui uma vez para lá em 1973. Eu estava pensando me mudar para a cidade, mas era muito caro. Procurando nos jornais, eu achei um apartamento por US$3000,00. Fui com um amigo e batemos na porta de um apartamento no Village. Duas garotas atenderam à porta. Carecas, sem cabelo algum, cobertas de tatuagens azuis. Gostamos do apartamento. “Esse apartamento parece legal”, pesamos. Elas disseram: “Não, não é nesse quarto. É lá atrás”.Fomos para o quarto dos fundos, abrimos a porta, e no meio do quarto havia uma jaula imensa com um gorila dentro e merda por todos os lados: no teto, nas paredes, nas janelas… Elas disseram: “O gorila não está feliz. Estamos nos livrando dele e vamos alugar este quarto”. Aí pensamos: “Talvez seja melhor não nos mudarmos para Nova Iorque”. Então me mudei para Los Angeles. (risos)

O que eram essas garotas?!

Eu perguntei às pessoas sobre elas. Ninguém tinha as visto ou ouvido sobre elas. Eu esqueci que isso tinha acontecido. É tão estranho eu me esquecer disso… Muitos anos depois um amigo meu chegou e disse: “Você lembra quando…”, aí eu me lembrei. É estranho porque elas eram punks de uma certa maneira e mais tarde eu me envolveria com toda essa coisa. Então eu fui para LA, você sabe, por aventura. E aí eu vi a revista (Slash) e pensei “ou isso é bem louco, fascista ou qualquer outra coisa, ou interessante”. E eles eram todos gente boa, a maioria deles vinha de escolas de arte. A primeira geração de punks californianos era principalmente composta estudantes de arte na casa dos 20 e poucos anos.

O editor, Claude Bessy, ele tinha uma banda…

Catholic Discipline. Ele tinha essa banda. Ele morreu há poucos anos. Ele era o editor, escrevia metade da revista ele mesmo. Era uma pessoa maravilhosa. Mudou-se para Barcelona. Ele também trabalhou com os Virgin Prunes, dos quais eu gosto bastante.

Virgin Prunes…

Um banda irlandesa. Dois caras que ficavam super bêbados e iam “uuaaaooorrrrghbleerrrghggagaaaah”! Algo assim. Eles eram meio gays. Totalmente loucos. Eu adoro… Enfim. A primeira geração dos punks de Los Angeles era formada por estudantes de arte, talvez em seus 25, 26 anos. Uns dois anos depois a garotada das praias apareceu. Caras loucos e musculosos que arrastavam pessoas atrás de carros, subiam e pulavam dos sinais de trânsito. A coisa toda só foi ficando cada vez maior.

Germs_poster

Você acha que a música tem alguma influência sobre seus desenhos, sua pinturas, sobre seu trabalho artístico em geral?

Sim, tem alguma influência. Mas música punk como Ramones (faz barulho de metralhadora). Eu não curto muito punk rock…

Eu quero dizer música em geral, a música que você gosta.

Sim, eu escuto muita música estranha, noise music, art music. Minha coleção de discos é muito estranha. Agora, eu não posso conhecer tudo…

Você gravou alguma coisa com os Residents?

Sim, eu fiz um single com The Residents. Eles foram os produtores. Os Residents eram na verdade dois caras, Hardy Fox e Homer Flynn. Eles eram um pouco mais velhos que eu. Eu tenho 54, provavelmente eles devem ter uns 57 ou 58 anos agora. Eles chegaram em San Francisco para ver as bandas psicodélicas em 1970 ou 1969. Mas toda a coisa psicodélica não estava mais rolando nessa época. Mas eles decidiram a formar uma banda psciodélica durante 10 anos para ver o que dava.

Quando você gravou com The Residents? Nos anos 80?

Sim, 1981, 1982… Eu troquei pinturas por sessões de gravação, por engenheiros de som e tal. Eu não sei se é bom. Mas eu gosto de fazer música. Eu toco guitarra todo dia. Tenho duas guitarras elétricas e um violão de cordas de aço. Aí eu desenho, toco um pouco de guitarra, desenho, toco mais um pouco…

Você já teve uma banda? Ou você só colabora nos discos de outras pessoas, ou apenas faz seu trabalho sozinho?

Sabe, eu fui criado com base em preceitos religiosos que proibiam a dança, instrumentos musicais… Então, eu sou um pouco retardado musicalmente. Geralmente quando faço meus discos eu gravo faixa por faixa, ou tenho a ajuda de alguns amigos. Nunca tive uma banda. Não acho que consigo ter uma. Quero dizer, seria um sonho ter uma. Eu sonho em tocar com Frank Zappa durante todo o tempo. Espero apenas poder gravar mais, isso seria suficiente. Meus álbuns são um monte de canções, um monte de canções anti-cristãs. Eu acho meio estúpido, mas é o que eu faço. Espero não fazer música, eu só espero poder fazer mais barulho.

Você acha que o histórico moralista pelo qual você atravessou teve alguma influência na sua música, no seu trabalho? Como se fosse uma reação a esses padrões morais?

Sim. Mas não é muito divertido ser uma reação. É melhor ser autenticamente significativo. E é o que eu tento fazer, não ser apenas uma reação. É meio triste ser só uma reação.

Verdade. É muito limitado.

Sim, e se eu estou reagindo a isso significa que ainda estou sofrendo influência dessa igreja.

Os trabalhos dos anos 60 e 70, da geração da Zap, e dos anos 80, da RAW, são muito influentes nas belas artes e nas artes gráficas. Todas essas gerações de quadrinistas foram importantes para o mundo. Mas os quadrinhos hoje não têm tanta influência quanto tinham nas décadas de 70 e 60…

Atualmente, há várias pessoas trabalhando juntas em algumas coisas. Você sabe, os franceses, como o pessoal da Bazooka. Esses caras estão trabalhando em grupo para produzir publicações. Eu tenho visto mais disso ultimamente. Há também mais garotas hoje em dia. Quando eu começei a lecionar quadrinhos não havia menina alguma nas salas, agora é quase que meio a meio. Isso é ótimo. Tem alguns grupos que trabalham juntos como o Fort Thunder. São uns caras de Rhode Island que têm bandas, fazem camisas, roupas e cartazes. Todo esse tipo de coisa. Eu não estou interessado no tipo de quadrinhos que são influentes atualmente, todo verão um filme baseado em HQ aparece. Então, ainda há uma influência forte. Eu acho que os anos 60 eram muito loucos, as pessoas estavam sempre procurando pelo o que havia de novo, pelo que viria depois e depois e depois e depois… E aí vieram os anos 70: nada. Mas logo em seguida veio o punk e de novo as pessoas foram atrás do viria depois e depois e depois e depois e depois… Bem, tem que haver uma pausa nisso tudo. Tem que haver um período de pausa. Talvez vocês poderiam ser “the next thing”. (risos)

essa

Você disse lá atrás que a cultura japonesa não estabelece uma distinção tão clara entre belas artes, alta cultura e arte trash, cultura pop. Você acha que o fato dos mangás e animes estarem se tornando cada vez mais populares e mainstream muda o jeito que o mundo vê a separação entre belas artes e arte trash? Outra pergunta, você acha que você está mais próximo do mundo japonês devido de que eles não fazem tanta distinção dos tipos diferentes de arte?

Esta é uma pergunta difícil. Eu não entendo totalmente o sistema japonês. Eu sou fã de arte japonesa. Se eu disse isso foi algum tipo de má tradução. Eu estava dizendo que a “arte inferior” japonesa me levou a estudar o Japão em geral e tentar entender sua história e todos os outros tipos de arte japonesa. Eu apenas disse que a “arte baixa” pode levá-lo a outros lugares. Para mim, a distinção é sobre idéias. Eu penso que existe um pensamento coletivo, uma mente única – como Jack Kirby costuma dizer – pela qual passam a alta arte, a arte baixa e qualquer outra coisa que transmita a mensagem às pessoas. Então, eu não estabeleço muito uma distinção. Minha única distinção é para arte pessoal e arte comercial. Quando faço arte comercial não sou quem manda, sou apenas um servo. Tento fazer um bom trabalho, mas não é a mesma coisa quando sento no meu quarto pensando… Um amigo meu mora em Paris, e ele me dá alguns bons conselhos de vez em quando. Ele disse:”Faça a arte que só você pode fazer”. E eu: “Ah, OK. Que tipo de arte que só eu e ninguém mais consegue fazer?” Sobre a distinção entre arte erudita (high art) e arte popular (low art)… Em relação à arte erudita, seria excelente se alguém me desse muito dinheiro para pintar. Mas eu amo pintar quadros, de qualquer forma. E outra, eu ganho dinheiro fazendo as coisas estranhas que faço, eu posso desenhar as coisas que desenho em meus livros. A influência do Japão… O mangá tem sido bastante influente. Garotos e garotas nos EUA são tão influenciados que estão fazendo mangás americanos. Onde está o mercado? Não estou bem certo se há. Mas eles estão publicando as coisas deles. E isso muda as percepções das coisas.

Você acha que com a cultura japonesa se tornando mais mainstream o jeito que as pessoas vêem arte muda?

Eu acho que o Japão foi muito influente nas artes. Meu trabalho é muito influenciado pelo Japão. Acho que a razão pela qual me tornei popular no Japão é que os japoneses estão sempre procurando por algo interessante no mundo inteiro. Eles gostariam de achar alguém interessado neles também.

Você acha que o governo do Baby Bush influenciará a arte, especialmente aquela feita nos EUA? A população mundial costumava ver EUA como um tipo de modelo de liberdades individuais. E agora parece que o país está caminhando de volta aos anos 50. A arte será influenciada por isso?

A arte eu não sei. Arte influenciada pela política nunca é forte o bastante enquanto arte. Arte política não é tão excitante para mim quanto é arte em geral. Após os anos 60, os Estados Unidos enfrentaram um choque de realidade. Durante a década de 60, estávamos cada vez mais avançando no tempo e de repente: “Oh, não! Temos que voltar!” Desde a década de 70 os EUA estão regredindo. George Bush… Eu sou do Texas, eu o considero um total idiota. Um ladrão, um cristão fingido. Ele é o tipo de cristão que não é muito esperto, do tipo que leva a bíblia ao pé da letra: o mundo foi criado em sete dias, Eva nasceu da costela de adão, esse tipo de coisa. Para ele não é sobre metáforas, é apenas sobre obedecer as “leis de deus”. Ele fala com deus, ou sei lá o quê. E os americanos de menor nível cultural podem se identificar com isso, porque eles também têm medo do futuro. Eu tenho medo de fundamentalismo cristão, de pessoas que pensam que deus ama apenas elas. Isso é perigoso. Bush criou algo para poder reagir contra, toda essa história de guerra santa e fundamentalismo islâmico. Mas o que ele fez foi só colocar mais dinheiro no seu bolso e no dos seus amigos. Toda essa história é uma bobagem, se há uma ameaça nós não estamos em segurança. Olhe para Nova Orleans, por exemplo. Não há ninguém em segurança, isso não existe lá. E nós também não estamos mais seguros por causa de Bush. Não seria tão difícil destruir Nova Iorque. Quer dizer, quão difícil seria isso? Se toda semana 20 caras seqüestrassem um avião, todo mundo deixaria Nova Iorque. Mas não é o que acontece. Isso só mostra que a religião mulçumana não é composta só por loucos extremistas. É exatamente como a igreja na qual fui criado. É a mesma coisa. Gente doida que quer deus ame-os mais. Eu acho que os islâmicos extremistas estão sendo usados por alguns para fins políticos. Isso tem a ver com o quanto EUA lucra nos países árabes, e com o fato de que os jovens no Oriente Médio não têm trabalho, perspectivas, nada. Outro problema é que a mídia americana está em todo lugar. Se eu fosse um religioso doido que só rezasse, rezasse e rezasse e tomasse conhecimento da música rap, por exemplo, ficaria louco. Todo esse “mexa gostoso seu traseiro” e tudo o mais que vem dos EUA, todas essas coisas estúpidas. E a América nesse ponto não está se dando conta do que está acontecendo. Enquanto a comida continuar chegando ao McDonald’s ele não têm que pensar nem se preocupar com nada. Mas se alguém destruir o McDonald’s ou sabotar o fornecimento de comida, aí ele começaram a se preocupar. Mas eles não conseguirão pensar racionalmente e reagirão de um bilhão de formas perigosíssimas. Mas então, a arte… é assim: se você está trazendo os anos 50 de volta, então os anos 60 chegarão uma hora. Essa é a parte boa. E eu acho que de certa forma isso está acontecendo. Mas meus alunos não são lá muito comovidos, apaixonados, eles estão pensando em suas carreiras. Não é o mesmo espírito dos anos 60. É outro contexto. A tecnologia é bem diferente daquela da década de 60. Os anos 60 foram do jeito que foram, em parte, por causa da televisão. Esta é a minha resposta longa. Acho que algo de interessante pode surgir disso, mas arte política…

Eu me lembro quando uma certa banda americana veio tocar aqui. Eles estavam muito preocupados em se desculpar por serem americanos…

E eles se desculparam?

Sim, o que você acha disso? Acho meio estúpido. Porque você sabe…

Bem, isso é um pouquinho de consciência. Mas eles poderiam ser um pouco mais conscientes. Eu acho que a América deveria se desculpar por um monte de coisas. Mas antes o que os americanos deveriam fazer é ajeitar sua própria bagunça e ler um monte de livros. Desligar a TV ajudaria também.

Na real, o povo americano são meramente pessoas. Eles não estão dando ordens.

Verdade. Mas nós somos adultos muito mimados, e gordos… e todas aquelas outras coisas. Mas há algo de interessante na arte, um underground interessante – quer dizer, não está no underground, mas na Internet. Sei lá, pessoas são formigas. Formigas podem fazer coisas interessantes também…

agora essa

Seu trabalho sempre se relacionou ao progresso tecnológico e ao jeito que isso domina as pessoas. Mas e agora? O que dizer do progresso tecnológico de agora?

Tecnologia tem ótima características, mas você tem que fazer isto também (mostra o desenho feito à caneta no papel). Porque caso a tecnologia parar de funcionar, você ainda pode fazer isso. Eu falo com meus alunos que eles são viciados em Photoshop. “Desenhe essa linha”. “Não, eu farei isso no Photoshop.” Você tem que desenhar, sabe, porque se o computador parar de funcionar… Como em Nova Orleans: sem tecnologia alguma. E o que você faz? “Oh, não! Não sabemos o que fazer! A tecnologia parou!” Para mim as formas mais genuinamente humanas são muito importantes. Se você está progredindo tecnologicamente você tem preservar as velhas coisas importantes. E você tem que progredir com seu espírito, seja lá o que for isso.

Qual foi sua última publicação? “Jimbo in Purgatory”? Tem algo guardado que está para ser lançado?

Depois de “Jimbo in Purgatory”, veio uma réplica de um caderno de rascunhos meu. Saiu pela editora canadense Drawn and Quarterly. O nome é “Satiroplastic”.

Parece que os críticos acharam “Jimbo in Purgatory” incrivelmente hermético, apesar de o considerarem um ótimo trabalho de arte e design. Tem gente falando que o livro é um amontoado de citações e referências a temas que vão da cultura pop à filosofia, o que torna o livro quase ilegível. O que você me diz disso?

Eu construí o livro de maneira tão metódica e processual que o fez parecer um mosaico repleto de pequenos ladrilhos, então, sim, é difícil tirar um sentido literal dali. O leitor em geral pode simplesmente aproveitar as sensações que tem lendo o livro e também usar a notas de rodapé como uma lista de leitura. Muitos dos livros aos quais fiz referências serão inspiradores para quadrinistas e cartunistas e também para amantes de literatura. É pessoal e experimental. Espero que o próximo livro do Jimbo seja mais leve e menos purgativo.

capa1

Como calhou de você desenhar as capas dos discos de Frank Zappa, Red Hot Chilli Peppers, Screamers… Isso foi um trabalho pessoal ou comercial para você? Ou ambos?

Eu venero Frank Zappa. Eu sempre quis fazer as capas dos discos do Zappa. Eu levei meu portifólio para as gravadoras e um dia eu recebi uma ligação: “Você quer fazer a capa para um disco do Frank Zappa?” “Sim!” Mas eu descobri depois que eram para discos não autorizados pelo Zappa. Frank Zappa processou a Warner Bros. por esses discos. Mais tarde, fiquei sabendo que ele gostou das capas. Então, isso foi muito bom para mim, mas eu nunca estive com Frank Zappa. The Screamers, eu conhecia os Screamers. Os Chilli Peppers, eu os conhecia também. Mas tudo aconteceu por intermédio de gravadoras. Foi um diretor de arte que me ligou. Mas eles (as gravadoras) chegaram até a mim por causa de todo o trabalho que fiz de graça: flyers para shows de bandas, pequenas ilustrações…

Você também faz um trabalho que você chama de “shows de luz”. Como funcionam? São similares de alguma forma às performances de luz que acompanhavam bandas psicodélicas nos anos 60?

O show de luz é uma performance ao vivo não-computadorizada, e é um desenvolvimento das “luzes líquidas” e as luzes refratadas dos anos 60. Usamos projetores suspensos e outras fontes de luz e interagimos com a luz por meios de grandes stencils, rodas de cor e espelhos flexíveis. A inovação é que nós também usamos vídeo-projetores como fonte de luz, coisa que não existia na década de 60. É uma colaboração com Joshua White, que fazia os mais famosos shows de luz dos anos 60 no Filmore East, em Nova Iorque. Ele é muito gente boa e tem monte de idéias parecidas com as minhas. Nós já nos apresentamos com Alan Licht, Bardo Pond, Plate Tektonics, Yo La Tengo, Balloon Knot…

O que você tem escutado ultimamente?

Escutado? Eu escuto Nurse with Wound, música psicodélica da década de 60, pós-punk como Magazine, Gang of Four e todo esse tipo de coisa. Eu ainda acompanho música experimental. As pessoas também me mandam um monte de cds. Fora isso, eu tenho uma coleção esquisita de vinil. Coisas que eu acumulo nos últimos 40 anos, tenho ali todos os discos da minha época de escola e faculdade.

Pop Group?

Pop Group? Ah, sim, eu gosto de Pop Group. É muito bom. Enfim, todo tipo de coisa.

Punk rock gay…

Punk rock gay? Ah, é! Os Virgin Prunes! Relançaram os discos dos Virgin Prunes. No meu blog eu faço listas do que tenho ouvido. Muita gente me envia música também. Eu ouço bastante esse tipo de coisa.

08_gary_panter

Você diz no livro “We’ve Got the Neutron Bomb” que o logo do The Screamers adquiriu vida própria. Como é para um artista quando seu trabalho rompe certos limites e passa a ser um tipo de propriedade pública?

Bom, é bem legal. Meio que por isso tem gente bacana no Brasil, Noruega e Indonésia que acompanha meu trabalho. É bem legal. Os Screamers detêm os direitos autorais do logo, só me resta o piratear também.

GaryPanter_01menos

foto: divulgação

Mais:

http://www.garypanter.com/

http://www.slashmag.com/

http://www.readyourselfraw.com/

Anúncios

2 pensamentos sobre ““Caguei de medo ao ver carros gigantes vendidos a bilhões de dólares pela TV” – entrevista com o rei da punk art Gary Panter

  1. onde já se viu historiador só ler as figuras!!

    animalesco o post por completis.
    devia ser temporário, pra não cair no hype.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s