Iggy Pop criando porco – uma resenha babaca e auto-reverente

iggy-pop-preliminaires-2009

Há dois anos, eu sugeri a Iggy Pop que talvez fosse melhor ele criar porco. Parece que ele atendeu à sugestão e montou um chiqueiro na França. Les porcs de monsieur Pop podem ser ouvidos roncando em Preliminaires, o novo álbum mezzo manja-rola do, como falam bonito na TV, o-homem-o-mito-o-ícone-a-lenda.

(Nota para o leitor prematuramente indignado: É sacanagem esse lance aí dos porcos. Não acho Preliminaires tão porcaria assim, foi só para fazer auto-referência mesmo.)

Na extinta Bizz, em março de 2007, eu pestanejava sobre The Weirdness, o disco que coroou o retorno dos Stooges. Aquilo era uma patacoada para a qual não tinha como não torcer o nariz. Não dava para, em 2007, ouvir o ilustríssimo senhor James Osterberg berrando, sobre guitarras com pretensões de repetir uma “Raw Power”, que sua “idéia de diversão é matar todo mundo”. Quê? Somos o que agora? Palhaços? Não, peraí, não é assim, não…

Fosse eu a mãe do Iggy Pop, falaria: “Ô, Iggy,que bom, meu filho. Que bom que você parou com essa coisa de rock”. Quer dizer, parar, não parou. Há em Preliminaires umas faixas aqui e ali que acenam para distorções e compassos mais aceleradinhos. Mas não é aquele rompante todo que ficaria feio para um sessentão que leva uma vida mansa numa mansão em Miami. A obra aqui está mais condizente com um senhor de 62 anos praticante de Tai Chi Chuan e bebericador de bordeaux.

Nada contra velhos fazendo rock. Pelo contrário, sou completamente desfavorável a essa romantização da juventude e à incompatibilidade protocolar da “maturidade” com o gênero. Mas o Iggy já não tem mais energia vital para dar à música que o tinhoso inventou. No festival Claro Q É Rock, no Brasil em novembro de 2005, o público boquiaberto balbuciou “óóós” por conta de um mise-en-scène ensaiado. Em todo show daquela turnê, Iggy chamou religiosamente a platéia para subir ao palco.

No final dos anos 60 e início dos 70, as pessoas esbaforiam “óóós” – e se horrorizavam às vezes – ao presenciar coisas completamente malucas e imprevistas que ele fazia no palco. Não tinha truque de direção de palco. Tá entendendo? O sujeito já foi mais que condecorado pelos serviços prestados ao rock – merecidamente, claro – , mas tinha que passar a criar porco mesmo.

Antes de Premilinaires sair, ele já dizia à imprensa que estava cansado de “trogloditas fazendo barulho com guitarras”. Aí o que ele fez? Detentor de uma energia sexual meio exibicionista, tomou o caminho natural para um homem de 62 anos que ainda quer exalar sensualidade sem parecer com o Nei Matogrosso ou o Clovis Bornay ou, ainda pior, sem ter que bater asinhas feito o Mick Jagger. Seguiu os passos tomados por gente como Serge Gainsbourg e Leonard Cohen: o exercício daquela languidez decadente que, trabalhando sobre uma área cinzenta, ainda exerce charme.

Com uma cama instrumental composta para crooners dados a canastrices à Humphrey Bogart, Iggy quer você se sinta num cabaré. O vocal barítono, o ambiente à meia-luz, os arranjos de gosto duvidoso de cordas e órgãos elétricos, a fumaça dos cigarros… Os ternos bem cortados, um par de canções em francês para lembrar , oh!, os aromas dos cafés de Nice… Ah! “Insensatez”! Bossa-nova, Tom Jobim… Um clima mais noir para o som que as ondas trouxeram de Ipanema… Por que não?

Visualizou aí? Fino, né? Só que é o seguinte: o Leonard Cohen pode ser mestre, mas não é perfeito. A pior fase de sua carreira se deu nas últimas décadas, exatamente quando apelou para arranjos canastrões (adendo: o último disco, Live in London, é bom de verdade). E, pô, o Serge Gainsbourg já nasceu canastrão e ainda tinha um trunfo: a língua nativa francesa (OK, o Cohen nasceu em Montreal, mas sua primeira língua é o inglês), cuja malemolência superior à do inglês permitia que ele se equilibrasse serenamente sobre uma linha tênue entre a elegância e a canastrice patética. Ou seja, o “caminho natural” não funcionou para o anglófono Iggy Pop. Ficou meio feio, Iggy. Mal aê.

Mas numa boa? Ele tem razão de estar cansado de rock. Por estar preso a um formato em que ele não sabe mais criar, foi forçado a traçar a trilha entediante do óbvio e do esperado. Nenhum artista com vontade legítima de se expressar aguentaria uma camisa de força dessas. Aí, antes um cantor mediano de cabaret que um roqueiro pau mole e incompetente. (Nota mental do repórter: Zooei, zooei o cara fodão!)

Há dois anos, eu sugeri ao Iggy Pop que talvez fosse melhor ele criar porco. Parece que ele atendeu à sugestão e montou um chiqueiro na França. Les porcs di mounsier Iggy podem ser ouvidos roncando em Preliminaires, o novo álbum mezzo manja-rola do, como falam bonito na TV, o-homem-o-mito-o-ícone-a-lenda.

(É sacanagem esse lance aí dos porcos. Não acho Preliminaires o tão porcaria assim, foi só para fazer auto-referência mesmo.)

Na extinta Bizz, em março de 2007, eu pestaneja sobre The Weirdness, o disco que coroou o retorno dos Stooges. Aquilo era uma patacoada que não tinha como não torcer o nariz. Não dava para, em 2007, ouvir o ilustríssimo senhor James Osterberg berrando sobre guitarras com pretensões de repetir uma “Raw Power” que sua “idéia de diversão é matar todo mundo”. Quê? Somos o que agora? Palhaços? Não, peraí, não é assim, não…

Fosse eu a mãe do Iggy Pop, falaria: “Ô, Iggy,que bom, meu filho. Que bom que você parou com essa coisa de rock”. Quer dizer, parar, não parou. Há em Preliminaires umas faixas aqui e ali que acenam para distorções e compassos mais aceleradinhos. Mas não é aquele rompante todo que que ficaria feio para um sessentão que leva uma vida mansa numa mansão em Miami. A obra aqui está mais condizente com um senhor de 62 anos praticante de Tai Chi Chuan e bebericador de bordeaux.

Nada contra velhos fazendo rock. Pelo contrário, sou completamente contra essa romantização da juventude e a incompatibilidade protocolar da “maturidade” com o gênero. Mas o Iggy já não tem mais energia vital para dar à música que o tinhoso inventou. No festival Claro Q É Rock, no Brasil em novembro de 2005, o público boquiaberto balbuciou “óóós” por conta de um mise-en-scène de palco. Em todo show daquela turnê, Iggy chamou religiosamente a platéia para subir ao palco.

No final dos 60 e início dos 70, as pessoas esbaforiam “óóós” – e se horrorizavam às vezes – ao presenciar coisas completamente malucas e imprevistas que ele fazia no palco. Não tinha tática de direção de palco. Tá entendendo? O sujeito já foi mais que condecorado pelos serviços prestados ao rock – e merecidamente, claro – , mas tinha que passar a criar porco mesmo.

Antes de Premilinaires sair, ele já estava falando para imprensa que estava cansado de “trogloditas fazendo barulho com guitarras”. Aí o que ele fez? Detentor de uma energia sexual meio exibicionista, tomou o caminho natural para um homem de 62 anos que ainda quer exalar sexualidade sem parecer com o Nei Matogrosso ou o Clovis Bornay ou, ainda pior, sem ter que bater asinhas como o Mick Jagger. Seguiu os passos tomados por gente como Serge Gainsbourg e Leonard Cohen: o exercício daquela languidez decadente que, trabalhando sobre uma área cinzenta, ainda exerce charme.

Com uma cama instrumental composta para crooners dado a canastrices à Humphrey Bogart, Iggy quer você sinta-se num cabaré. O vocal barítono, o ambiente à meia-luz, os arranjos de gosto duvidoso de cordas e órgãos elétricos, a fumaça dos cigarros… Os ternos bem cortados, um par de canções em francês para lembrar os, oh!, aromas dos cafés de Nice… Ah! “Insensatez”! Bossa-nova, Tom Jobim… Um clima mais noir para o som que as ondas trouxeram de Ipanema, por que não?

Visualizou aí? Fino, né? Só que é o seguinte: o Leonard Cohen pode ser mestre, mas não é perfeito. A pior fase de sua carreira se deu nas últimas décadas, exatamente quando apelou para arranjos canastrões (adendo: o último disco, Live in London, é bom de verdade). E, pô, o Serge Gainsbourg já nasceu canastrão e ainda tinha um trunfo: a língua nativa francesa (OK, o Cohen nasceu em Montreal, mas sua primeira língua é o inglês), cuja malemolência superior à do inglês permitia que ele se equilibrasse serenamente sobre uma linha tênue entre a elegância e a canastrice patética. Ou seja, o “caminho natural” não funcionou para o anglófono Iggy Pop. Ficou meio feio, Iggy. Mal aê.

Mas numa boa? Ele tem razão de estar cansado de rock. Por estar preso a um formato em que ele não sabe mais criar, foi forçado a traçar a linha do óbvio e do esperado. Nenhum artista com vontade legítima de se expressar aguentaria uma camisa de força dessas. Aí, antes um cantor mediano de cabaret que um roqueiro pau mole e incompetente.

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3 pensamentos sobre “Iggy Pop criando porco – uma resenha babaca e auto-reverente

  1. pô, savio a pior fase do Cohen é essas duas últimas décadas??? que isso meu fio! tá esquecendo que o I’m Your Man tá incluído nessa?

    na verdade, a partir de 85 (various positions) todos os albums tem esses arranjos de música de motel…

    se for isso mesmo vc só gosta dele até 79?

  2. Esse é o problema, não existe mais pau-molice! Não existe mais punheteiro, bronheiro ou impotente… pelo menos eles tinham do que reclamar, e usavam essa energia acumulada pra fazer música decente. Agora, qualquer um que segure um microfone arruma muié… aí já viu né… só música fodida…

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