Bancando o hippie cabotino para falar de hardcore

gritos de ódio bh 1998

Foto: (Fotógrafo, reclame sua autoria porque eu não sei de quem é!)

Tá caótico. Hospitalar e logisticamente. Mas não abandonei isto aqui, não, e preciso corrigir uma negligência minha. Deixei de chamar a atenção de quem lê este blog para um trabalho de pesquisa admirável.

O historiador (e punk) Marcelo Fonseca tem passado os últimos tempos coletando horas e horas de entrevistas. A missão dele é preencher lacunas historiográficas e deixar registrado o que – ao que parece – só foi visto por quem esteve lá: o punk hardcore nacional concebido na década de 90. Um dos frutos dessa empreitada, um projeto de mestrado, virá em forma de documentário. O filme vai levar o nome provisório de Hardcore 90 – Uma História Oral. O progresso de sua produção pode ser visto aqui, onde estão disponíveis diversos trechos de vídeos com os entrevistados.

Uma contextualização: passadas as décadas de 70 e 80, o punk e, por consequência, o hardcore foram esfacelados ou dissolvidos na cultura pop dos anos 90, que celebrava a música e o comportamento “independentes” cujo credor era, de novo, o punk hardcore. Esta seria a versão oficial contada por qualquer grande meio de comunicação.

Mas a coisa é que, como é característico de movimentos sociais ou de expressão artística, o punk hardcore, como uma subcultura independente, seguiu seu curso. No Brasil, não foi diferente. E exceto por alguma matéria ou outra sobre os “Straight-edgers, os vegetarianos radicais!”, tudo se deu ao longo dos anos 90 distante dos olhares curiosos da mídia corporativa.

No mesmo ritmo como funcionou globalmente, o punk hardcore brasileiro ganhou contornos políticos e sociais – e uma aura de samizdat – mais rigorosos e práticos (ao seu próprio modo, claro). Enquanto a música se diversificava estilisticamente – e, honestamente, gerava pouquíssimas composições dignas de nota -, uma gama imensa de assuntos, temas e métodos eram inseridos na pauta dos punks nacionais: liberação animal, vegetarianismo, comunismo, anarquismo, feminismo, ocupações urbanas, abstenção de vícios, ativismo radical político e social de toda estirpe.

Aí o cínico festivo vai apelar ao clichê: “foi aí que o punk perdeu toda a graça e diversão”. Nada disso, chapa. Podíamos ser um pouco neuróticos, levemente neurastênicos e, às vezes, übber politicamente corretos, mas nos divertíamos muito. Diria de um jeito meio selvagem até. Tente procurar no Youtube algum vídeo de qualquer show dessa época e você vai conferir que não estou mentindo.

Duro ter que usar de um cabotinismo digno de um hippie decrépito (“Eu vivi os anos 60, meu filho!”), mas eu estava lá com os meus amigos e sei que essa história não ganhou dimensões anabolizadas por causa da distância mental provocada pelo correr do tempo.

E me lembro bem de que numa época em que a Internet ainda engatinhava e num país de proporções continentais, jovens desajustados de alguma maneira ou de outra usavam os Correios para formar uma imensa rede de comunicação e suporte verdadeiramente confiável. Mais do que isso: praticavam livremente – com sucesso ou não – o que e como eles achavam que deveria ser na música, na mídia e nas relações humanas e com o resto do mundo.

Tudo isso, no mínimo, alterou concepções e microcosmos sociais e forjou longas amizades. Tomara que o Marcelo conte isso bem contado. Pelas pílulas que podem ser assistidas no blog, acho que vai, sim.

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5 pensamentos sobre “Bancando o hippie cabotino para falar de hardcore

  1. Você anda defendendo seus temas aqui de um jeito meio passional que dá gosto de ver. Seria a influência da influenza que está te dando essa dimensão trágica?

  2. Essa foto é do Gritos de ódio tocando em BH: a prova é o Renato de dread no canto esquerdo. Atrás do guitarra, usando boné verde, ou é você ou o Fred ou o Gaba! 😀

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