Leonard Cohen de novo: por que ele voltou a Boogie Street

leonar cohenFoto: Michael Foley

Leonard Cohen é um dos grandes artistas do nosso tempo. Ele já escorregou muito no quiabo – principalmente nos anos 80 -, mas isso não lhe tira o mérito do que ele fez e tem feito de irretocável na música e na literatura. Como é comum dessas pessoas que são meio que quase semi-olimpianas, o sujeito carrega uma aura mística e isso encanta e intriga quem se interessa por seu trabalho.

Eu estava intrigado com sua experiência num mosteiro Rinzai, uma escola rígida do Zen-Budismo. Encucava-me o fato do boêmio e vaidoso “ladies’ man” ter se enclausurado e se submetido por cinco anos à disciplina puxada do Mount Baldy Zen Center , localizado numa região montanhosa da Califórnia (EUA), e ainda sair de lá como um monge.

Durante uma época, Leonard Cohen atribuiu ao amor sua disposição para enfrentar a rotina de Mount Baldy. Isso significa um cotidiano exaustivo que tem início pela madrugada e atravessa o dia com longas práticas de zazen (a meditação realizada sentado) orientadas pelos monges superiores à base de leves golpes de varas de bambu ao sinal de qualquer impostura. Um dia-a-dia às voltas com enevoados koans (enigmas zen-budistas) e… Errr… Eventuais pequenos flagelos quando necessários, como a construção de cômodos sob a neve e o frio do inverno rigoroso nas montanhas californianas.

mt baldy

Vista do Monte Baldy (Foto: Doc Searls)

Ao deixar o mosteiro em 1999, três anos após ter sido ordenado monge, Cohen se dizia um judeu ainda e explicou melhor o amor que o levou a encarar a austeridade e a disciplina rígida do treinamento rinzai. Sua passagem por Mount Baldy foi um pretexto para passar algum tempo próximo do velho e envelhecido amigo Joshu Sasaki Roshi, mestre zen, fundador e responsável pelo mosteiro montanhês. Por cinco anos, Leonard Cohen foi assistente e cozinheiro de Roshi. O mestre tem hoje 102 anos e um monte poemas sobre ele podem ser lidos em Book of Longing, o último livro de Cohen.

O Zen é uma experiência estritamente pessoal e não está submetida ao cartesianismo neurótico do pensamento ocidental. É natural que as motivações de seus praticantes pareçam “ilógicas”. Mas… Ainda assim… Intuitivamente, a coisa não se fechava na minha cabeça.

O que me desembaralhou os pensamentos foram três coisa ditas por Cohen em entrevista à TV sueca, em 2001, quando estava lançando o disco Ten New Songs. Usando um terno bem cortado, cabelos raspados e fumando Marlboro, o velho abriu o jogo:

“Uma das qualidades deste tipo de vida [a guiada pela lógica zen] é reconhecer que você falha.”

“Em Mount Baldy (…) descobri que eu não tinha aptidão religiosa.”

“Roshi é um médico (…) Ele cura a ilusão de que você está doente. E ele foi bem sucedido no meu caso. Ele me curou da ilusão de que eu precisava de seus ensinamentos.”

Joshu_Sasaki_RoshiMestre Roshi em cerimônia em Mount Baldy (Foto: Angelica Sarkisyan)


Pronto. Por conta de uma entrevista na qual esbarrei na madrugada de hoje, me livrei de mais uma obsessão que tirava – de leve – meu sossego. A transcrição dela por ser vista aqui. Não consegui achar o vídeo na web. Se algum de vocês encontrar, vou agradecer.

Para os que cagam pra espiritualidade, a conversa também é muito boa. Ele fala, entre outras coisas, de cães, do humor no seu trabalho, sua fama de mulherengo etc. A jornalista Stina Lundberg Dabrowski conseguiu do homem uma entrevista leve e muito bem conduzida. Não era para ser menos que isso, visto que a sueca acumula uma experiência larga em argüir há décadas chefes de estado, escritores, artistas e figuras públicas em geral. Só não reparem no layout horroroso do negócio. Lembra a época de páginas da Geocities (1995?).

Talvez esta música, de 2001, não fale exatamente de experiência de Leonard Cohen no Mount Baldy Zen Center. Mas certamente são suas impressões pessoais sobre o que ele parece ter aprendido lá, a naturalidade plácida, quase fisiológica, do fracasso:

A thousand kisses deep

The ponies run, the girls are young,
The odds are there to beat.
You win a while, and then it’s done –
Your little winning streak.
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it’s real,
A Thousand Kisses Deep.

I’m turning tricks, I’m getting fixed,
I’m back on Boogie Street.
You lose your grip, and then you slip
Into the Masterpiece.
And maybe I had miles to drive,
And promises to keep:
You ditch it all to stay alive,
A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,
The wretched and the meek,
We gather up our hearts and go,
A Thousand Kisses Deep.

Confined to sex, we pressed against
The limits of the sea:
I saw there were no oceans left
For scavengers like me.
I made it to the forward deck.
I blessed our remnant fleet –
And then consented to be wrecked,
A Thousand Kisses Deep.

I’m turning tricks, I’m getting fixed,
I’m back on Boogie Street.
I guess they won’t exchange the gifts
That you were meant to keep.
And quiet is the thought of you,
The file on you complete,
Except what we forgot to do,
A Thousand Kisses Deep.


leonar cohen2

Foto: Michael Foley

Leonard Cohen é um dos grandes artistas do nosso tempo. Ele já escorregou muito no quiabo – principalmente nos anos 80 -, mas isso não lhe tira o mérito do que ele fez e tem feito de irretocável na música e na literatura. Como é comum dessas pessoas que são meio que quase semi-olimpianas, o sujeito carrega uma aura mística e isso encanta e intriga quem se interessa por seu trabalho.

Eu estava intrigado com sua experiência num mosteiro Rinzai, uma escola rígida do Zen-Budismo. Encucava-me o fato do boêmio e vaidoso “ladies’ man” ter se enclausurado e se submetido por cinco anos à disciplina puxada do Mount Baldy Zen Center (mbzc.org), localizado numa região montanhosa da Califórnia (EUA), e ainda sair de lá como um monge.

Durante uma época, Leonard Cohen atribuiu ao amor sua disposição para enfrentar a rotina de Mount Baldy. Isso significa um cotidiano exaustivo que tem início pela madrugada e atravessa o dia com longas práticas de zazen (a meditação realizada sentado) orientadas pelos monges superiores à base de leves golpes de varas de bambu ao sinal de qualquer impostura. Um dia-a-dia às voltas com enevoados koans (enigmas zen-budistas) e… Errr… Eventuais pequenos flagelos quando necessários, como a construção de cômodos sob a neve e o frio do inverno rigoroso nas montanhas californianas.

Foto das montanhas de Baldy

Ao deixar o mosteiro em 1999, três anos após ter sido ordenado monge, Cohen se dizia um judeu ainda e explicou melhor o amor que o levou a encarar a austeridade e disciplina rígida do treinamento rinzai. Sua passagem por Mount Baldy foi um pretexto para passar algum tempo próximo do velho e envelhecido amigo Joshu Sasaki Roshi, mestre zen, fundador e responsável pelo mosteiro montanhês. Por cinco anos, Leonard Cohen foi assistente e cozinheiro de Roshi. O mestre tem hoje 102 anos e um monte poemas sobre ele podem ser lidos em Book of Longing, o último livro de Cohen.

O Zen é uma experiência estritamente pessoal e não está submetida ao cartesianismo neurótico do pensamento ocidental. É natural que as motivações de seus praticantes pareçam “ilógicas”. Mas…

Ainda assim… Intuitivamente, a coisa não se fechava na minha cabeça.

O que me desembaralhou os pensamentos foram três coisa ditas por Cohen em entrevista à TV sueca, em 2001, quando estava lançando o disco Ten New Song. Usando um terno bem cortado, cabelos raspados e fumando Marlboro, o velho abriu o jogo:

“Uma das qualidades deste tipo de vida [a guiada pela lógica zen] é reconhecer que você falha.”

“Em Mount Baldy (…) descobri que eu não tinha aptidão religiosa.”

“Roshi é um médico (…) Ele cura a ilusão de que você está doente. E ele foi bem sucedido no meu caso. Ele me curou da ilusão de que eu precisava de seus ensinamentos.”

Pronto. Por conta de uma entrevista na qual esbarrei na madrugada de hoje, me livrei de mais uma obsessão que tirava – de leve – meu sossego. A transcrição dela por ser vista aqui (link: (http://www.webheights.net/speakingcohen/sl2001.htm). Não consegui achar o vídeo na web. Se algum de vocês encontrar, ficarei muito grato.

Para os que cagam pra espiritualidade, a conversa também é muito boa. Ele fala, entre outras coisas, de

cães, do humor no seu trabalho, sua fama de mulherengo etc.A jornalista Stina Lundberg Dabrowski conseguiu do homem uma entrevista leve e mesmo assim muito bem conduzida. Não era para ser menos, visto que a sueca acumula uma experiência larga em argüir há décadas chefes de estado, escritores, artistas e figuras públicas em geral. Só não reparem no layout horroroso do negócio. Lembra a época de páginas da Geocities (1995?).

Talvez esta música não fale exatamente sua experiência em Mount Baldy Zen Center. Mas certamente são suas impressões pessoais sobre o que ele parece ter aprendido lá, a naturalidade plácida, quase fisiológica, do fracasso:

A thousand kisses deep

The ponies run, the girls are young,

The odds are there to beat.

You win a while, and then it’s done –

Your little winning streak.

And summoned now to deal

With your invincible defeat,

You live your life as if it’s real,

A Thousand Kisses Deep.

I’m turning tricks, I’m getting fixed,

I’m back on Boogie Street.

You lose your grip, and then you slip

Into the Masterpiece.

And maybe I had miles to drive,

And promises to keep:

You ditch it all to stay alive,

A Thousand Kisses Deep.

And sometimes when the night is slow,

The wretched and the meek,

We gather up our hearts and go,

A Thousand Kisses Deep.

Confined to sex, we pressed against

The limits of the sea:

I saw there were no oceans left

For scavengers like me.

I made it to the forward deck.

I blessed our remnant fleet –

And then consented to be wrecked,

A Thousand Kisses Deep.

I’m turning tricks, I’m getting fixed,

I’m back on Boogie Street.

I guess they won’t exchange the gifts

That you were meant to keep.

And quiet is the thought of you,

The file on you complete,

Except what we forgot to do,

A Thousand Kisses Deep.

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2 pensamentos sobre “Leonard Cohen de novo: por que ele voltou a Boogie Street

  1. valeu pela dica da entrevista! vou ler agora.

    e, pô, insisto na minha opinião de que o som dele não mudou muito de 80 pra cá.

    por isso não entendo como gostar do som que ele faz agora e achar que ele deu uma ‘escorregada’ na década de 80…

    abraços!

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