Fiquei sabendo do caso do Michael Jackson com a Stasi e estou me desculpando

stasi mjGrafitti do Moonwalker num muro em Berlim (Foto: Kai Müller)

OK. O tempo urge, a vida me atropela e, às vezes, eu sou quem a atropela. Mas, no final, a gente acaba se dando bem. Entre uma ponta e outra, eu acabo sendo negligente com este verdadeiro rochedo de credibilidade e informação que é este blog. Negligente, sim, admito, mas omisso, omisso não.

Tanto é que cá estou para falar de algo deixei passar batido pelo Desova, mas não pela minha cabeça. O comentário é a respeito de uma notícia velha, mas, na boa, onde está o editor disto aqui pra falar que a pauta caducou? Cadê? Não tem. Então, vou fazer assim mesmo.

Pois bem… Sabe o que foi a Stasi? A Staatssicherheitsdienst? Era ao mesmo tempo a polícia política e o serviço secreto da antiga Alemanha Oriental. Sustentava o regime ditatorial socialista da DDR (República Democrática Alemã) e fazia a KGB e a Gestapo parecerem escoteiros adolescentes em eficácia e, sem metáforas, onipresença.

Sabe quem foi Michael Jackson? O rei do pop cuja morte recente encheu de lágrimas e melodrama os olhos dos súditos e de enfastio as bolsas escrotais dos insubordinados.

As duas instituições se cruzaram num momento curioso da história do século XX: durante um show em junho de 1988, realizado próximo ao muro de Berlim, do lado ocidental da cidade, pouco mais de um ano antes daquela merda cair.

Como era de praxe com a maioria dos visitantes estrangeiros, o homem do nariz de silicone (Nota: Tô chutando. Era silicone aquela porra?) foi “alvo” da Stasi. Mas com um diferencial: os robozinhos paranóicos da inteligência da DDR estavam de fato se cagando de medo do MJ.

A medorréia da Stasi perante o homem que tinha um carinho especial por criancinhas foi revelada  ao mundo pelo tablóide berlinense Bild. Neste lucrativo alvoroço editorial causado pela morte do homem que ficou branco, o Bild foi respirar poeira sobre os arquivos da Stasi e saiu de lá com uma história quente.

Em notas encontradas nos arquivos da Stasi, grifava-se: “os jovens farão o que puderem para assistir ao concerto na área do Portão de Brandenburg”. E ainda: “alguns jovens estão planejando (usar o momento) para provocar um confronto com a polícia”.

As anotações também davam conta dos passeios que o homem fez por lá. Uma delas descreve sua passagem pelo famoso Checkpoint Charlie, uma importante divisa no meio da cidade. Os agentes falam de três carros e de “vários homens e mulheres desconhecidos, entre eles, o cantor americano Michael Jackson. Acompanhando-o durante todo o tempo, estava uma mulher de cerca de 25 anos, 1,65m de altura, e dona de um constituição física esguia”.

Os arquivos mostram ainda que estava nos planos da Stasi um “método alternativo” de permitir que a rapaziada assistisse ao show: o evento seria exibido ao vivo numa tela de cinema, mas com dois segundos de atraso na transmissão, caso houvesse qualquer tipo de “provocação política” por parte do homem que se transformava em pantera no vídeo de “Black and White”.

stasi brandeburgPortão de Brandenburger visto do lado ocidental em 1988 (Foto:Frollein)

O plano não foi colocado em prática e, como o Estado temia, o bicho pegou. Aos gritos de “O muro precisa cair!”, confrontos violentos entre fãs berlinenses do lado oriental e policiais – muitos à paisana para se misturar à multidão – comeram solto. Com furgões da Stasi já prévia e estrategicamente posicionados nos arredores, centenas de prisões foram efetuadas.

A Stasi era foda –  de um jeito muito ruim, claro. Era eficiente porque era de fato um serviço de inteligência. Ela era atroz não tanto pela repressão física – que era obviamente brutal e que matou “oficialmente” 1082 pessoas -, mas pela capacidade de lançar seu desagradável olhar sobre praticamente todos os lugares onde poderia haver qualquer cheiro de subserviência.

Para isso, sua tentacular estrutura contava com, além de milhares de empregados da casa, os infames Inofizielle Mitarbeiter, colaboradores informais que escrotamente relatavam ao aparato o que faziam os parentes e amigos. Quando o Muro de Berlim caiu, em novembro de1989, a Stasi contava com com cerca de 97 mil funcionários e 173 mil informantes, de acordo com a jornalista australiana Anna Funder, autora de Stasilândia.

Numa população de 17 milhões, estima-se que, em cada seis cidadãos da DDR, um trabalhava para a Stasi – formalmente ou não. Para cada grupo de cinco pessoas, havia um par de olhos do Estado para vigiá-lo e, caso algum cidadão saísse da linha, pronto para espezinha-lo moral, social, emocional e fisicamente. (Só uma comparação: em seu auge, a KGB contava com um agente para cada 6 mil habitantes; a Gestapo, com um para cada 2 mil.) Se alguém aí associou essa escrotidão toda à já desgastada referência de 1984, de George Orwell, eu não posso discordar.

stasiBrasão da Stasi (Foto: Adam Lederer)

Eram mantidos tantos arquivos minuciosos sobre uma parcela tão larga da população – e sobre estrangeiros danosos ao regime – que, em 2008, a equipe do governo alemão responsável pela catalogação e pesquisas dos arquivos da Stasi tinha reunido mais 620 mil páginas de papelada.

Com todo esse aparato, a Stasi foi um dos principais pilares na sustentação de um regime stalinista fiho da puta de totalitário que durou mais de 40 anos. Se o excêntrico e excessivo Moonwalker irritou e causou problemas a esses putos e, mesmo que minimamente, insuflou o espírito já insatisfeito e rebelado dos jovens do lado leste alemão, já tá ótimo.

Se eu fosse o biógrafo oficial dele, terminaria o livro aí, em junho de 1988. Até esse ponto, ele já tinha desenvolvido uma linguagem universal incontestável – que pode ser percebida na música dos discos Off The Wall, Thriller, Bad – e cometido um ato que diz muito sobre o poder agregador e, em certas ocasiões como essa, amotinador da música. Não precisava mais ir muito além disso – e realmente não foi, convenhamos.

Mas, enfim… Bom… Caralho, Michael. Você mandou bem, bicho. Foi mal pelas piadinhas de mau gosto ao longo dos anos. Mas é que… Bom, você sabe.

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