Alex Steinweiss, o sujeito que me fez comprar The Number of the Beast

Alex Steinweiss, o sujeito que me fez comprar The Number of the Beast
Aos 11 anos de idade comprei o disco The Number of the Beast, do conjunto musical inglês de heavy metal Iron Maiden. Assim como boa parte dos moleques que viveu os anos 80 ou 90, seguindo o caminho do espírito-de-porco pela rua e pela escola e inclinando-se em direção à música que o tinhoso inventou, o que me convenceu a levar aquele negócio para o meu católico lar foi a capa (link da imagem).
Em casa, coloquei a agulha sobre o vinil e o som que saiu dali não me entusiasmou tanto quanto aquela caveirona cabeluda, o Eddie, que manipulava o capeta feito uma marionete. Mais tarde, claro, desenvolvi um carinho quase caricato – mas não irônico – pela banda e até acoplei algumas citações ao meu léxico cotidiano (Leia-se: às merdas que eu falo no dia-a-dia). Mas isso não vem ao caso.
Minha historinha pessoal é o clichê dos clichês na cultura do rock, mas é o que eu tenho pra contar. No entanto, de clichês em clichês, o Iron Maiden tornou-se uma das maiores bandas do mundo e cometeu o excesso de adquirir seu próprio Boeing 757. Se eu acho isso bonito? Não, não acho nada bonito, mas é o que eu tenho pra contar.
“Beleza, qual é o ponto então?”, você pergunta – e se não perguntou, deveria. O ponto é que… Ou melhor, meu chute é que, dos mais de 70 milhões discos vendidos pelo Iron Maiden, uma parcela bem razoável dessas vendas foi realizada graças à sedução visual que suas capas exerceram sobre os corações e mentes de jovens como eu (era). Ainda que em tempos de MP3s uma capa não signifique o que já significou, Bruce Dickinson e companhia deveriam comprar pelo menos um jatinho de presente para Alex Steinweiss, o inventor das capas de discos.
Até 1940 os discos – que na época era discões que giravam a 78 rpm – eram embalados em papel pardo. Um negócio sem graça e sem mojo. A coisa mudou quando o designer Steinweiss, então um jovem diretor de arte da Columbia Records, convenceu seus patrões a relançarem Smash Song Hits, de Rodgers & Hart, estampada com uma ilustração chamativa ao invés do enfastioso embrulho marrom de sempre. Em poucos meses, as vendas do disco subiram quase 900% em comparação às da primeira prensagem.
Alex Steinweiss, com apenas 23 anos, mudou a indústria fonográfica, encheu de cores e linhas um metiê que não tinha tradição gráfica alguma e estabeleceu uma relação visual entre a música e seus apreciadores.
Com o aparecimento do LP de vinil, oito anos depois, Steinweiss atendeu ao pedido do presidente da Columbia para reformular sua invenção, consolidando de vez o que hoje entendemos por capa de disco. Se o visual de  Arca de Noé, de Vinícius de Moraes e companhia, te encantou e te fez lambrecar de cola o seu vinil, culpe Alex Steinweiss. Se as capas dos discos do Mayhem fez seu estômago embrulhar, culpe Steinweiss. Se algum disco do Ney Matogrosso te fez corar, culpe o velho.
Hoje com 92 anos e semi-aposentado desde 1973, o designer acumula a autoria de mais de 2500 capas, a maioria delas de discos de jazz, pop e música erudita. Uma boa seleção de seu trabalho pode ser apreciada no recém-lançado Alex Steinweiss, The Inventor of the Modern Album Cover. Um item luxuoso editado pela Taschen que, se você é um playboy em conflito (consciência de classe, culpa burguesa, essas coisas…) como eu, você gostaria de ter na sua estante.
Steinweiss acreditava que elementos visuais que remetiam à música e simbolismos culturais despertavam no público um interesse muito maior do que o retrato dos intérpretes. Para desenvolver essa “isca”, usava desavergonhadamente referências do Modernismo europeu (De Stijl e Bauhaus) e do Construtivismo russo, e levantava da prancheta com uma peça classuda, de cores chapadas e tipografia elegante.
Não sei como fecho este texto. Então vou continuar insistindo que pelo menos um aeromodelo bacana Steve Harris e o resto da sua turma deveria deixar na porta da casa do velhinho.

A culpa é desse velhinho (Fotos: Taschen/Divulgação)

Aos 11 anos de idade comprei o disco The Number of the Beast, do conjunto musical inglês de heavy metal Iron Maiden. Assim como boa parte dos moleques que viveu os anos 80 ou 90, seguindo o caminho do espírito-de-porco pela rua e pela escola e inclinando-se em direção à música que o tinhoso inventou, o que me convenceu a levar aquele negócio para o meu católico lar foi a capa.

Em casa, coloquei a agulha sobre o vinil e o som que saiu dali não me entusiasmou tanto quanto aquela caveirona cabeluda, o Eddie, que manipulava o capeta feito uma marionete. Mais tarde, claro, desenvolvi um carinho quase caricato – mas não irônico – pela banda e até acoplei algumas citações ao meu léxico cotidiano (Leia-se: às merdas que eu falo no dia-a-dia). Mas isso não vem ao caso.

Minha historinha pessoal é o clichê dos clichês na cultura do rock, mas é o que eu tenho pra contar. No entanto, de clichês em clichês, o Iron Maiden tornou-se uma das maiores bandas do mundo e cometeu o excesso de adquirir seu próprio Boeing 757. Se eu acho isso bonito? Não, não acho nada bonito, mas é o que eu tenho pra contar.

“Beleza, qual é o ponto então?”, você pergunta – e se não perguntou, deveria. O ponto é que… Ou melhor, meu chute é que, dos mais de 70 milhões discos vendidos pelo Iron Maiden, uma parcela bem razoável dessas vendas foi realizada graças à sedução visual que suas capas exerceram sobre os corações e mentes de jovens como eu (era). Ainda que em tempos de MP3s uma capa não signifique o que já significou, Bruce Dickinson e companhia deveriam comprar pelo menos um jatinho de presente para Alex Steinweiss, o inventor das capas de discos.

Até 1940 os discos – que na época era discões que giravam a 78 RPM – eram embalados em papel pardo. Um negócio sem graça e sem mojo. A coisa mudou quando o designer Steinweiss, então um jovem diretor de arte da Columbia Records, convenceu seus patrões a relançarem Smash Song Hits, de Rodgers & Hart, estampada com uma ilustração chamativa ao invés do enfastioso embrulho marrom de sempre. Em poucos meses, as vendas do disco subiram quase 900% em comparação às da primeira prensagem.

Alex Steinweiss, com apenas 23 anos, mudou a indústria fonográfica, encheu de cores e linhas um metiê que não tinha tradição gráfica alguma e estabeleceu uma relação visual entre a música e seus apreciadores.

Com o aparecimento do LP de vinil, oito anos depois, Steinweiss atendeu ao pedido do presidente da Columbia para reformular sua invenção, consolidando de vez o que hoje entendemos por capa de disco. Se o visual de  Arca de Noé, de Vinícius de Moraes e companhia, te encantou e te fez lambrecar de cola o seu vinil, culpe Alex Steinweiss. Se as capas dos discos do Mayhem fez seu estômago embrulhar, culpe Steinweiss. Se algum disco do Ney Matogrosso te fez corar, culpe o velho.

Hoje com 92 anos e semi-aposentado desde 1973, o designer acumula a autoria de mais de 2500 capas, a maioria delas de discos de jazz, pop e música erudita. Uma boa seleção de seu trabalho pode ser apreciada no recém-lançado Alex Steinweiss, The Inventor of the Modern Album Cover. Um item luxuoso editado pela Taschen que, se você é um playboy em conflito (consciência de classe, culpa burguesa, essas coisas…) como eu, você gostaria de ter na sua estante.

Steinweiss acreditava que elementos visuais que remetiam à música e simbolismos culturais despertavam no público um interesse muito maior do que o retrato dos intérpretes. Para desenvolver essa “isca”, usava desavergonhadamente referências do Modernismo europeu (De Stijl e Bauhaus) e do Construtivismo russo, e levantava da prancheta com uma peça classuda, de cores chapadas e tipografia elegante.

Não sei como fecho este texto. Então vou continuar insistindo que pelo menos um aeromodelo bacana Steve Harris e o resto da sua turma deveriam deixar na porta da casa do velhinho.

Mais:

http://www.taschen.com/pages/en/catalogue/design/all/05039/facts.alex_steinweiss_the_inventor_of_the_modern_album_cover.htm

http://www.alexsteinweiss.com/

http://www.soundfountain.org/rem/remcovart.html

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Um pensamento sobre “Alex Steinweiss, o sujeito que me fez comprar The Number of the Beast

  1. Manjo nada de música, o que não me impede de apreciar a fluência do seu texto. Deveras bom.
    Abração!!

    Notas:
    1. Tô impressionado com a grossura da canela desse velhinho danado.E o sapato dele, de camurça, é uma desgraça quando chove.

    2. “A fluência é uma deformação ao longo do tempo de um material submetido a uma carga ou tensão constante.” Ressalvo: o que deforma altera, não necessariamente destrói.

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