“Não tínhamos noção de nada, queríamos era fazer, na paixão pura”, entrevista com o ex-Sepultura Jairo Guedz

Jairo Guedz em pose desbravadora com o resto do Sepultura ao fundo, 1986

Jairo Guedz em pose desbravadora com o resto do Sepultura ao fundo, 1986

Quando comecei a apurar e pesquisar sobre o metal de BH para a reportagem que sairia na Bizz, a primeira pessoa com quem falei foi o Jairo Guedz. Um camarada bem simpático, alto, dono de uma voz gravona. São deles as guitarras dos mais mais antigos clássicos do Sepultura, como “Troops of Doom” e “Necromancer”, quando ele era o Jairo Tormentor. Também tocou baixo durante a curtíssima existência do Guerrilha, o projeto punk dos Cavalera, Jairo e Silvio Gomes.

O guitarrista fez parte da banda de 1984 até 1987, pouco antes do Sepultura começar a gravar seu terceiro disco, Schizophrenia. Quando saiu da banda foi substituído por Andreas Kisser. No fim dos anos 80, Jairo Guedz passou a tocar no The Mist e mais tarde, no fim dos anos 90, tornou-se baixista do Eminence.

Em dezembro de 2005, bati um papo bom com o Jairo num boteco de uma quadra de futebol, no bairro Sagrada Família, BH. A conversa rendeu mais de duas horas e aqui será divida em duas partes (talvez três). Nesta primeira parte, Jairo fala das primeiras memórias metaleiras, o jeito inusitado que conheceu Max e Iggor Cavalera, as tretas e as dificuldades dos primeiros anos de metal em BH, do show com o Venom e Exciter, entre outras coisas.

Fotos: Acervo de Silvio Gomes

Jairo e uma bela camiseta do Corrosion of Conformity, 1985

Jairo e uma bela camiseta do Corrosion of Conformity, 1985

Qual é a sua primeira memória relacionada ao heavy metal?
Com o metal, foi em Belo Horizonte. Mas eu nasci em outra cidade, em João Monlevade. Em 1980, quando eu vim pra cá, minhas irmãs mais velhas me aplicaram em Pink Floyd, Led Zeppelin, Supertramp, essas coisas assim. Coisas dos anos 70. Eu gostava, era o que tinha em casa.
Mas comecei a me aproximar do metal mesmo por causa do meu irmão de criação, o Pepeu, Rogerinho, tocou no Easy Rider, já foi guitarrista do Chakal, do Elétrika também… Ele começou a me aplicar em Kiss, ele tinha coleção… Ele é mais novo que eu, mas nasceu no Rio e tinha mais acesso à informação. Eu era do interior, mais bobinho. Isso foi em 1980 mais ou menos, eu tinha 12 anos. Em 1983, eu comecei a frequentar a Savassi, comecei a ir ao Sabor & Arte, na época, no Outro Lado da Moeda… Aí tocava Kamikaze, tocava Bêbados e Sóbrios, que era a banda do João Guimarães. Eram bandas cover, tocavam mais hard rock, som de pub e essas coisas. Numa dessas idas em 83, eu encontrei o Max e o Iggor lá num show dessas bandas. Naquela época, só eu e meu irmão que bebia e fumava. Naquela época ninguém bebia, os caras não podiam nem ver uma cerveja ou um cigarro que já se horrorizavam: “você tá louco? Você fuma? Cigarro?” Todo mundo era molecão, todo mundo muito medroso. O Igor e o Max eram muito novos, eles são bem mais novos que eu… Eu tinha 15 e era uma diferença muito grande, eu já fumava, eu já estava namorando sério. Eu casei com 16 anos, então eu acho que eu era o bad boy da época, mas sempre fui muito responsável.
Bom, mas o Max e o Igor estavam em um bar e eu estava no outro, nunca tinha visto os caras, mas eu sabia da existência de uma banda do Santa Tereza que era o Sepultura. Eles já tinham esse nome, só que eles não levavam nada a sério, não tinham nem música. Era uma coisa horrorosa, ninguém tocava absolutamente nada. Era o Paulo, o Max, o Igor e o Wagner do Sarcófago. O Wagner cantava e o Max era o guitarrista. Foi quando eu, numa dessas idas à Savassi, fiquei sabendo que estava rolando um show lá no Sabor & Arte. Por coincidência, sem eu e meu irmão sabermos, o Max e o Igor tinham brigado com uns playboys lá. Mexeram com uns playboys menorzinhos, de uns 12 anos, e os meninos falaram: “vou chamar meu irmão, que meu irmão é grandão e vai acabar com vocês!”

Maquilagem borrada em um dos primeiros show do Sepultura, 85

Maquilagem borrada em um dos primeiros show do Sepultura, 85

Metal depression, 1986

Metal depression, 1986

Logo depois disso, nessa noite, eu cheguei no lugar. E eu sempre tive cabelo curto, então os meninos falaram “chegou o playboy, nós estamos fodidos.” A primeira pessoa que eu cheguei foi no Igor, ele estava de costas com uma jaqueta de couro e com um colete jeans, que a gente usava muito isso nos anos 80, bem thrash e um patch do Voivod nas costas. Eu cheguei, olhei e falei: “E aí, você que é o Igor?”. Eu já conhecia pelo nome… Ele olhou e falou assim: “Não cara, sou eu não, sou eu não.” Aí veio um pessoal e falou: ”ele é o Igor, sim”, achando que eu ia brigar com ele. Falei “Meu nome é Jairo, toco também numa banda e eu sei que vocês são lá do Santa Tereza, do Sepultura. Eu queria saber como que é o ensaio de vocês e tal, rola de eu ver?” Foi o meu primeiro contato com o Sepultura mesmo.
Isso foi numa sexta, no sábado eu fui no ensaio, no domingo eu estava na banda. Eu fui no sábado, eles falaram “toca um música aí pra mim, o que que você toca?”, eu mostrei umas coisas que eu fazia… Algumas coisas eu gravei com o Sepultura, “Troops of Doom”, “Necromancer”… Eu já tinha essas coisas na cabeça. A primeira banda que eu tive antes do Sepultura, era cover de Mercyful Fate, tinha um vocalista que cantava música lírica e tudo, fazia o falsetão mesmo e cantava bem pra caramba…

Tinha nome a banda?
Chamava Mantas. O pessoal falava “e o mantas e cobertores, como é que tá?” Era o nome de um demônio, tipo o Mantas guitarrista do Venom, inclusive. Então, a partir daí eu fui no ensaio dos caras e na outra semana eles me chamaram. Eu tinha 16 anos e eles 12, 13. Então eu tocava melhor. Além disso, eu tocava violão desde criança. Nessa época, eu já pensava em ser profissional mesmo, já estava discutindo com a minha família a possibilidade de ser profissional.

E você passou a viajar para São Paulo com os Cavalera para comprar discos?
Sim, a partir de 84. Íamos na Woodstock comprar discos. Era o ponto brasileiro de metal. No Vale do Anhangabaú, debaixo do Viaduto do Chá. Hoje tem umas camisarias e tudo, mas nessa época era uma loja gigante, tinha patch, tinha os vinis todos que a gente queria, fitas de vídeo, o cara trazia pirataria pra caramba… Tinha Azul Limão, tinha as bandas da época né? Isso foi quando nasceu o Dorsal Atlântica, Minotauro, um monte de bandas.

Juvetude metaleira: Bibika, Jairo e Max, 1985

Juventude metaleira em Santa Tereza: Bibika, Jairo e Max, 1985


Já tinha a Cogumelo nessa mesma época?

Já, na Augusto de Lima, mas não era gravadora, existia ainda só como loja. A Cogumelo passou a ser gravadora depois que a Woodstock começou também a lançar como gravadora. Além disso, quem trazia muito disco para BH era o Tibau, que é o irmão do Cláudio da Overdose, o Ricardo, que sempre foi empresário da Overdose. O Overdose já existia nessa época, eu já tinha visto show dos caras também lá no Colégio Santo Antônio.
O Ricardo tinha grana, ele era de uma família muito rica, o pai dele era um anestesista famoso, então ele importava muita coisa, ele já tinha ido para os Estados Unidos, Disneylândia… Então, ele trouxe coleções inteiras do Kiss, Judas Priest, Queen também eles gostavam muito. E começou a trazer coisas mais metal como Metallica e Slayer

Mas mesmo assim o que saia daqui era bem mais extremo…
Era muito mais extremo. Eu vou te falar com toda a sinceridade. Eu viajo pra caramba todo ano, viajo por 11, 12 países todo ano e as pessoas me falam que o Sepultura e o Sarcófago foram as duas bandas que começaram aquela coisa da bateria metranca mesmo. Porque as bandas que a gente achava pesado, na época que eu era do Sepultura – Possessed, Slayer, Venom – hoje a gente escuta e é rock n’ roll. E a gente já fazia barulho, barulho barulho mesmo, a gente queria cada vez mais rápido e mais agressivo.

E você tinha contato com o Napalm Death na época?
Não, a gente tinha contato com o Possessed, tinha muito pouca informação. A banda mais extrema que a gente gostava, eu e o Igor, era Voivoid. Era podrão. E depois eles começaram a fazer umas coisas diferentes, meio alternativo, sei lá. E a gente não entendia, mas achava legal, falava: “cara, esses caras são muito loucos”. Eu e o Igor temos um gosto muito parecido, mas ele foi evoluindo pro lado industrial, começou a gostar de Ministry em 1988… O Paulo (Xisto) sempre foi heavy metal, Iron Maiden… Quase tudo era no esquema de fita cassete. Era cheio de esquemas “você me dá uma grana, eu gravo pra você a fita”. Eu escutava fita direto, a gente nem escutava vinil.

jairo guerrilha

Jairo, Baixo, Broken Bones, Guerrilha, 1985

Voltando à banda…
Pois é, em determinado momento eu fui morar na casa do Max. Moravámos eu, o Max e o Igor juntos. E o Paulo morava ali na Pouso Alegre, a dois quarteirões era a casa deles. Eu larguei minha mãe em casa, minhas irmãs e fui pra casa deles. Eles fizeram um quarto lá pra mim, tinha um quarto vazio e beleza, eu fui morar lá. A coisa começou a se desenvolver de tal modo que a irmã mais nova deles, que estava se tornando adolescente na época, mulherzinha e tudo, sumiu da casa. Eu nem sei o que fizeram com a menina. A Dona Vânia (Cavalera, mãe de Max e Iggor) falou: “você vai pra casa da tia Vilma (sei lá, não me lembro) e vai ficar lá com ela porque ela tem filhas também da sua idade. Aqui em casa vai ser só eu e os meninos”. Era uma zona… Em 1983 ainda, a gente chamava o João Gordo pra vir pra cá, vinha Ratos de Porão, vinha Dorsal Atlântica, vinha todo mundo ficar na casa, fazer churrasco, o pessoal fumava maconha… A menina ia virar uma puta com 15 anos. Então acabou que ela sumiu, nunca mais eu vi a menina.

Bandas brasileiras que vieram antes de vocês como Dorsal Atlântica, do Rio de Janeiro, e Stress, de Belém, vocês ouviam isso na época?
Não, Stress eu nunca gostei, ouvi na época e tudo, mas a gente não agradava, não. O Dorsal a gente gostava. Era mais pesado. E o Carlos Vândalo sempre foi uma pessoa muito influenciadora, ele era mais velho, ele dominava a palavra, ele tinha a manha das coisas, muito inteligente, ele estudava filosofia… Então, ele era um metaleiro diferente, o Max adorava ele: “esse cara é muito foda”. Já o João Gordo era o que sempre foi, era um escracho mesmo igual ele é hoje.

Carlos Vândalo (à direita) e o Dorsal Atlântica

Carlos Vândalo (à direita) e o Dorsal Atlântica

Como vocês conheceram ele?
Nessas idas a São Paulo. A gente ia pra Woodstock e ficava uma semana em São Paulo, sem noção de nada… Ele vivia correndo dos carecas e dos punks. A gente já correu várias vezes, mas ele era procurado pelos dois lados. Ele não agradava nem gregos nem troianos e gostava de Metal. E aí a gente saía com esse pessoal lá. Em 84, 85, nasceu o Necromancia, que era uma banda com quem a gente viajava muito pro interior de São Paulo. Geralmente, as turnês em São Paulo eram no interior inteiro, a gente fazia de trem, era Sepultura, Necromancia, Dorsal, um monte de banda… Isso sem disco ainda. Porque é um movimento mesmo, quando ele nasceu ali, sem ter internet, sem contatar as pessoas… Bastava você ser metal para virar amigo. Coisa de vampiro mesmo, um vampiro conhece o outro e salva o outro ali da luz do sol. Então eles viam: “olha, você não é playboy, então nós vamos andar juntos”.

E era tudo uma molecada nessa época, imagino…
É, molecada, você não tem noção. A gente passou fome, muita fome mesmo, de roubar pão em padaria no interior de São Paulo. Porque não tinha estrutura nenhuma, não tinha nada de cachê, ninguém nem sabia o que significava a palavra cachê.

Mas antes disso vocês fizeram shows aqui em BH.
Fizemos. O primeiro show do Sepultura aqui foi no Bar Roliche, era um bar que tinha aqui. Eu não era da banda ainda. O segundo show foi no Ideal, no Santa Tereza, que hoje é um clube de dança de salão ali atrás do Varandão, perto do Bolão, naquele quarteirão. O terceiro show foi no Oásis Clube, que é um clube mesmo, de piscina e de quadra de esportes. Foi o primeiro show do Sepultura já com uma ideia de se profissionalizar, cara pintada de branco, spike pra tudo que é lado, pintado de branco com umas manchas pretas igual ao que a gente achava legal na época.
É uma evolução do Alice Cooper, do Kiss mesmo, a gente já estava levando mais a sério a coisa. Quando eu entrei na banda, eu sempre fui muito pra frente nessas coisas de trabalhar sério e tudo, constituí família muito cedo, casei duas vezes já, estou casado com a minha segunda esposa há 18 anos, fui casado com uma prostituta um ano e meio, antes da minha esposa, quando eu tinha 16 anos eu casei com ela, com 17 e meio e separei, com 18 eu…

Jairo e Bibika saindo do buraco da Guerrilha, 1985

Jairo e Bibika saindo do buraco da Guerrilha, 1985

Ela era mais velha que você?
Era, eu tinha 17 e ela tinha 24. Era desgarrado da minha família. A minha mãe sempre foi maluca, frequentou Santo Daime, maluca. Meu pai sempre foi super careta. Minha mãe já morreu e meu pai é vivo ainda, mora ali do lado do Servtur. Ele sempre foi careta. Mas como eu não fui criado com ele, porque quando ele se separou da minha mãe eu tinha 10 anos, então eu devia mais satisfação à minha mãe. Minha mãe sempre respeitou muito isso e o mundo era outro. Eu ir pra São Paulo com 15 anos tocar num show de metal, ela tinha uma preocupação mínima. Meu filho hoje que tem 17 anos pra ele ir tomar uma cerveja na esquina, minha preocupação é enorme… Então, o mundo era outro, a gente não ouvia falar em nada de violência, de crime, ninguém matava ninguém… O negócio era a porradaria em São Paulo. Era o que mais impressionava o Sepultura na época, a porrada em São Paulo. “Os carecas e os punks, nós somos cabeludos, nós estamos fodidos”. Uma vez eu fiquei sabendo que cortaram o cabelo de um cara lá na faca, estava com uma camisa do Iron Maiden…

Mas aqui em Belo Horizonte não tinha nada disso né?
Não, não. Depois no final dos anos 80 chegou a ter uns carecas na Alípio de Melo e eu conhecia todos, nunca tive problema com nenhum. Mas em São Paulo era um problema sério.

A Rock Brigade ela já existia na época. Você tinha acesso à ela?
A gente tinha um acesso. Era em xerox a revista, né? A gente tinha algum acesso à revista, fizeram uma reportagem nossa… Eles pegavam as coisas mastigadas, pegavam as coisas prontas que eles viam em revistas de fora e tudo… Mas acaba que a gente lia mais fanzine de pessoas com que a gente se comunicava por carta, o pessoal de fora, do exterior. Com o tempo começou a chegar carta na casa do Max, eu olhava: “Indonésia, que porra é essa?” . Aí o cara escrevia: “um amigo meu me mandou uma fita de vocês e nós achamos foda, piramos, e estou te mandando inclusive uns fanzines aqui da Indonésia.” Chegava fanzine alemão, italiano, grego… Bem parecido com o esquema hardcore…

Sepultura juvenil sendo selvagem na noite belo-horizontina

Sepultura juvenil sendo selvagem na noite belo-horizontina

Jairo Tormentor, 1985

Jairo Tormentor, 1985

E como era a questão de instrumentos?
O Igor pegou na bateria a primeira vez quando ele estava dentro do estúdio pra gravar o Bestial Devastation. A gente fazia música na casa do Igor com o violão, eu e o Max, o Igor tocando nas almofadas. Ele botava no sofá e tocava as almofadas e ele ficava com a baqueta no couro do sofá embaixo e fazia o bumbo dele. Coisa simples assim, virada nem fodendo. Prato nem existia. Então ele pegou uma bateria toscassa e começou a botar prato quebrado que sobrava do ensaio dos outros… O Marquinho que era o bateirista da GP trio, uma banda famosa na década de 70 aqui do Santa Tereza, famosa no Brasil inteiro, tocava por Minas Gerais, São Paulo… Banda de baile, tocava no carnaval e tudo. O Marquinho tá com 60 e poucos anos hoje. O Marquinho ensinou ao Igor muita coisa, ele ia no ensaio porque ele era vizinho do Paulo (Xisto). Ele chegava lá careca já, barrigudo, de óculos, quase com netos já… “Eu to ouvindo essa barulheira no meu quintal lá, o que tá me incomodando não é o barulho, é esse menino aqui ó, você tá fazendo tul tul tul tá, não é assim não, é assim ó”. e aí ensinava pra ele: “pega na baqueta assim”. Deu uns pratos velhos pra ele, deu uma caixa pra ele que não usava mais, então o Igor foi montando a bateria assim. Mas uma bateria de verdade ele pegou no estúdio do João Guimarães.

Tem uma peça de bateria faltando na gravação do Bestial Devastation?
Eu acho que é o som, cara. No meio da virada dá umas falhas. Eu acho que o microfone caiu e a gente continuou. A gente não tinha noção de nada, a gente estava na doida mesmo. Vamos fazer, vamos fazer, na paixão pura. A gente ouvia muita coisa e tudo, não era falta de referência, mas era falta de… Talvez uma falta de inteligência nossa na época mesmo, de saber aproveitar o que tinha. Às vezes tinha muita coisa, mas não sabia como fazer… Então muitas vezes aconteciam coisas que hoje a gente vê e pensa “porra, devia ter”…

Devem dar muita risada também.
Muito, que vergonha também. A gente foi pro norte de Minas, fomos gravar em São Paulo… Então já foi uma coisa inédita, primeira banda como aquela a ir gravar em São Paulo e aí a gente entrou no estúdio, o pessoal do Titãs estava saindo, acho que eles tinham acabado de gravar Cabeça Dinossauro. [Risos].

Metal no busão: Sepultura e Bibika, 1985

Metal no busão: Sepultura e Bibika, 1985

Vamos falar do Bestial Devastation. Saiu em 1985, como foi a repercussão?
É, demorou um pouquinho, foi em 85. Como não tinha música pra caralho a gente fez um split com a Overdose Fui muito legal. A gente ficou impressionado porque nosso nome cresceu da noite para o dia, em um ano a gente viu que todo mundo já conhecia o Sepultura no Brasil. Recebia cartas de Manaus, coisas assim. E é muito louco porque não tinha internet nem nada, era carta, as coisas chegavam um mês depois. O Max era responsável por isso, fazer mala direta, mandar disco, mandar camiseta e tudo. As camisetas do Sepultura em 84 e 85, as camisas do pessoal do basquete, nós vendemos na época cem, cento e poucas camisas, todas eram pintadas à mão. Nem tela tinha. O Igor fazia. Ele passava noite e dia pintando e cada uma era um desenho diferente. Fazia uns machados sangrando com um crânio no meio, com as pontas no crânio assim. Aí pegava outra, fazia dois crânios de lado. Pegava umas capas de fazines de fora, copiava uns negócios e botava um machado, uma cruz de cabeça pra baixo, escrevia um logotipo do Sepultura em todos. Cada uma era de um jeito. Estava a fim de fazer mesmo e não vendia não. Eu falei “vendia”, mas a gente nunca vendeu, ele dava as camisas.

Tem uma história de que quando saiu o LP os fãs do Overdose riscavam o lado do Sepultura e vice-versa. É verdade?
É verdade. E é mais verdade ainda que nós compramos várias caixas e riscamos nós mesmos. O Overdose era banda de playboy pra gente. O Sepultura era muito pesado e o Overdose era muito mocinha, eles eram os farofas da época. Eles eram Judas, Kiss, Halloween, aquelas coisas e a gente já era Discharge, Exploited, Slayer, Possessed… Então a gente mesmo riscava, não queria nem ouvir. A gente ia pra turnê em São Paulo, levava as caixas de vinis e já vendia riscado.

Alguém já reclamou porque pegava o disco já riscado?
Não, ninguém nunca reclamou. A gente tocou na Heavy na primeira vez em São Paulo, primeiro show nosso, lançamento do Bestial e foi Overdose e Sepultura. Aí o pessoal do Overdose brigou com a gente. Eles viram na nossa caixa os discos… Esse foi nosso primeiro show grande, devia ter umas duas mil pessoas. Estava bem cheio.

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Guerrilha em performance na linha de trem

Você falou em Discharge e Exploited.
É que uma época a gente ouvia mais hardcore do que metal. Era natural porque a gente achava as bandas de hardcore mais podres do que as bandas de metal. O negócio era ser podrão, sabe? “Ah, o som da guitarra está muito bonitinho…” Tinha que ter som de barbeador. A gente gostava dessas bandas.

E você gostavam das bandas punks de São Paulo?
Tinha muita coisa legal que a gente gostava, mas tinha aquelas brigas de gangue, então não divulgava de jeito nenhum, não usava camisa… Se eu usasse uma camisa de Olho Seco na época eles me matavam na rua, sei lá.

Isso em São Paulo. Aqui não?
Sempre foi tranquilo, sem problema. Nossa briga aqui de sair na mão era com o Overdose, que a gente quebrava tudo. E o Bozó, do Overdose, até hoje é um dos melhores amigos meus e do Igor, porque o Bozó desenha muito, então era uma pessoa que a gente adorava. Começamos a apaziguar a coisa através do Bozó. Mas do Cláudio ninguém gostava, a gente não podia nem ver o Cláudio, era rico… A gente não gostava dele, ele não gostava da gente. Pra ele, a gente era os pobre podrão. Isso refletia socialmente, era uma coisa social mesmo, de separar as classes e tudo. Então, o Sepultura era a banda do povão mesmo e o Overdose ensaiava no São Bento, na casa do Cláudio gigante de quatro andares, tinha carro importado, tinha estúdio que já tinha uma mesinha de som. E a gente não tinha nada. A bateria do primeiro baterista do Overdose, o Helinho, era gigante, gigante…
Overdose seguiu mais a linha do metal melódico, Iron Maiden, Helloween, Saxon… Seguiram essa linha e botaram aquilo um pouco mais pesado, no início da carreira. A preocupação deles era tocar muito, todo mundo fazia aula, ser virtuoso e tudo. A gente não tinha o menor tesão em ser virtuoso, o Sepultura queria ser uma banda mais agressiva. A gente usava frases de outras bandas, frases do Motorhead na época, “Se seu pai e sua mãe não gostam, é porque é bom.” A gente usava isso na época, quanto menos seu pai gostar, melhor a gente tá sendo. A gente foi pra essa linha e o Max tinha uma influência hardcore muito grande e eu tinha uma influência de English Dogs, que era o meio do caminho, era melódico e era punk. Eu achava foda, até hoje eu acho os caras foda. Eu gostava muito disso e gostava de Plasmatics também, da Wendy e tudo, gostava muito.

Venom, Mineirinho, BH, 1986

Venom, Mineirinho, BH, 1986

Me conta do famoso do show do Venom e Exciter que o Sepultura abriu, em 1986.
Foi uma loucura. Colocaram no palco do Mineirinho o backline do Exciter, depois o Venom colocou o backline deles, com a bateria do Abaddon. Na a que vimos o palco, o espaço que tinha sobrado tinha o tamanho desta mesa (n.: mesa pequena de bar). Resultado: nós colocamos a bateria do Igor e eu não conseguia passar pro lado de lá e ninguém conseguia passar pro lado de cá. A bateria no meio, eu aqui e o Max e o Paulo ali. Eu não conseguia passar pro lado deles. A bateria do Venom tampou meu acesso ao palco. Eu tive que entrar de um lado do palco e o Max do outro. E a gente foi nessa, vamos fazer, pra gente era promoção. Foi o primeiro contato que a gente teve com bandas de fora, a gente ficou no hotel dos caras.

E como foi?
O Exciter não olhou para gente. Os caras não queriam papo, eram estrelas do rock. Nosso inglês era péssimo, só eu que falava e o Max, muito mal. Só que aconteceu um negócio louco, eu e o Paulo estávamos no bar, o Max e o Igor já tinham ido dormir. Eu e o Paulo ficamos no bar do Hotel Del Rey. Estávamos eu, o Chronos e Paulo e o Abaddon que era o batera no bar.
A gente estava fascinado, querendo absorver informação, só que os caras não soltavam. A gente tentava entrar no assunto e os caras blá… O Venom veio sem o Mantas, a banda veio com dois outros guitarristas. E o Abaddon e um outro guitarrista estavam sentados no sofá do scotch bar. Nós nem ligamos, a gente estava com o Chronos, era o que interessava. Aí o Paulo olhou e falou “Jairão, olha aquilo ali!”.Eu olhei e estava o Abaddon beijando na boca do guitarrista. O Paulo começou a horrorizar, falar “vamos sair daqui, os gringos são muito loucos!”. (risos) Então, a gente teve pouco contato com os caras. A partir daí que a gente começou a ter esse contato direto com as bandas de fora. Vinha uma banda a gente abria o show, o mercado começou a crescer e a gente começou a ficar mais inteligente.

Confira mais dos arquivos do metal mineiro na série Iron Minas aqui

Iggor e Jairo, 1985

Iggor e Jairo, 1985

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17 pensamentos sobre ““Não tínhamos noção de nada, queríamos era fazer, na paixão pura”, entrevista com o ex-Sepultura Jairo Guedz

  1. fui testemunha ocular e ativa em muitas destas historias contadas pelo jairao ! muitas vezes acordei cedo p ir buscar eles c amigos na rodviaria do tite aqui em sp e fui em todos os shows digo os 1 primeiros aqui em sp e interior que tempo bom

  2. Jairo Guedez, humilde e sincero, contou realmente como foi a cena. me lembro do Sepultura em Sampa na woodstock, na heavy e do show em americana

  3. Ótimos momentos do início da carreira tanto do Sepa, como da cena Mineira em geral lembrados por parte do nosso amigo Jairo. Estou esperando a próxima parte da matéria. Muito bom ler sobre o surgimento de uma cena Heavy Metal dentro do nosso país.

  4. Também vivi aquele período e naquela época com a vinda do Kiss em 1983 ao Mineirinho a cidade passou por uma grande efervescência com o surgimento de dezenas de bandas como Sepultura, Overdose, Chakal e The Mist, e depois muitas outras de punk / hardcore e metal extremo como Sarcófago e Sex Trash. Toda essa movimentação da música extrema seguiu ferrenha por aqui no período que compreendeu entre os anos de 1985 até 1999 mais ou menos quando começaram a brotar bandas de nu metal e rapcore ou derivadas do metal industrial e do groove metal por todo lado, e deu-se inicío ao declínio da “cena belo horizontina”, todavia o metal seguiu forte. Aqui em Belo Horizonte era sensacional pra quem curtia metal. Punks e Headbangers mais extremos para um lado e os “boys” que eram fãs de heavy metal melódico para o outro. Em Belo Horizonte pouca gente curtia essa sonoridade mais bem acabada e elaborada, esse som mais bonitinho, mais característico de SP na época e era tido como som de “bicha” entre os mais entusiastas e devotados à podreira produzida na capital das alterosas. As lojas e galerias da cidade sempre lotadas. Ficávamos amigos dos logistas e frequentadores, e membors de algumas das bandas da cidade, algumas lojas eram points pro happy hour diário. Fáziamos encomendas de alguns discos e camisetas que levavam em média 6 meses pra chegar e dependendo do pedido e da capacidade de entrega do lojista, podia levar até mais tempo. Pagávamos pela cotação do dolar, não era barato pra quem colecionava, mas era coisa do outro mundo quando você conseguia botar a mão naquilo que havia encomendado. Tínhamos menos shows gringos que hoje em dia, então quando era anunciado show de alguma banda grande mais conhecida no meio metal, a cidade parava na fila pra garantir seu ingresso. Não existia internet. Eram as revistas e zines a maneira de se informar além do boca a boca e histórias dos caras que eram amigos dos caras das bandas pra que ficássemos sabendo de fatos, casos e histórias de bastidores. Falar com nossos ídolos então, era só por carta, ou ligando pro telefone da casa deles que em alguns casos deixavam como contato na contra-capa dos discos. Enfim nostalgia pura, mas que fazia existir uma magia em torno daqulo tudo que acontecia, e a música não era só um produto de consumo e nem uma marca para se ostentar numa camiseta, e sim um estilo de vida que trazia orgulho pra quem o levava. Belo Horizonte foi por muito tempo uma ilha da música extrema feita de forma primitiva e honesta, onde coexistiam vários outros estilos em harmonia, mas sobretudo o metal que até hoje sobrevive mais underground que naqueles tempos, com um pé sempre no passado é fato, mas eterno no coração de quem viveu aquele tempo. Parabéns pelo trabalho e muito obrigado por nos brindar e compartilhar a série Iron Minas. Valeu!

  5. Parabéns pela matéria. Ao ler o texto eu fui voltando ao passado e me lembrei da época da Woodstock e do pessoal todo reunido ali na frente, no Anhangabaú. Apesar da matéria ser do Metal de Minas, e eu sendo de São Paulo, do interior – Pompéia, me identifiquei com as viagens de ônibus com bandas, amigos, headbangers subindo a casa estação e quem não era amigo se tornava após o cumprimento. Antigamente todos os que ouviam Metal se uniam, se cumprimentavam. Bastava ver alguém com uma camiseta e mesmo sem conhecer se cumprimentava e ai o papo rolava e a amizade era sincera. Vinil, fita gravada e repassada de um para o outro… Incrível essa época. Pessoal de vinha já no trem com a galera de Iacri/SP, comandado pelo Fyth (Públio) um cara que trabalhava na FEPASA e com ele vinha gente de Tupã, Bastos, passava por Pompéia, Marília rumando para Bauru para algum festival.
    Melhores tempos da minha vida porque moldaram um coração de headbanger de verdade!!!!

  6. Que legal esta entrevista! Comecei a fazer parte desse submundo em 1985, mas já gostava de Kiss antes dessa época! Meu primeiro show foi o Slaughter Festival, em Americana – 09/1986… O Kichi (que comentou acima), assisti a banda dele e do meu camarada Fallador em 1987, também em Americana, no Noise Pub… A banda era o Desaster, que está novamente na ativa! Bons tempos, tenho saudades dessa época… Quem se interessar, visite meu canal de vídeos no youtube!

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