“O Sepultura teve muita sorte, era pra gente estar morto” – 2.ª parte da entrevista com Jairo Guedz

Sepultura, 1986: estação perfeita para fazer pose de mal na porta de igreja

Sepultura, 1986: estação perfeita para fazer pose de mau na porta de igreja

Passar fome enquanto gravam o segundo disco do Sepultura, Morbid Visions, arrombar lanchonete para fugir do frio no meio de uma turnê no interior paulista entre diversas outras roubadas. Esses são alguns assuntos desta segunda parte da entrevista com Jairo Guedz. Ele também fala sobre o crescimento da cena metal mineira durante os anos 80, conta quando deixou o Sepultura e assumiu a guitarra do The Mist e como foi a coisa anos 90 adentro.

Fotos: Vania Gui e acervo de Silvio Gomes

Leia a primeira parte da entrevista com Jairo Guedz.

O segundo disco do Sepultura, o Morbid Visions, foi gravado com mais recursos que o Bestial Devastation. Como foi isso?
Tinha mais grana pra fazer e tudo. Era uma dificuldade porque a gente foi pra São Paulo, morar em Alphaville, com o João (N.: João Eduardo de Faria Filho, dono da Cogumelo Records) dando suporte. A gente pegava um ônibus do Alphaville até Osasco, aí pegava um metrô até não sei aonde e depois pegava mais um ônibus do centro de São Paulo até o estúdio, que é ali nos hospitais, no Hospital das Clínicas e vice e versa.  Existe até hoje e é um estúdio muito bom.  Então, a gente só tinha essa estrutura, de fazer isso. Ficamos na casa da tia do Paulo, irmã da mãe do Paulo, que já tinha uma grana legal, morava numa casa legal em Alphaville.
Foi muito legal porque era a casa ao lado do Roberto Leal. O cara do “bate o pé, bate o pé, bate o pé” e a gente querendo ver as filhas do Roberto Leal. Fazia uma zona, porque eram os metaleiros de um lado e só rico do outro. O tempo que a gente andava no Alphaville tinha um carro de polícia junto com a gente. Não paravam nem nada, mas ficavam andando. Sempre sendo observados e tudo, mas a gente nem ligava pra isso também.
Essa correria para o Alphaville era todo dia e a gente começou a ficar sem dinheiro. Porque o João não deu nenhum estrutura financeira pra gente, só bancava o disco. Depois de dois dias, três dias a gente não tinha dinheiro. O Max ligou para o João em Belo Horizonte e falou assim: “você pode pegar um avião, um ônibus, o que for e vir pra cá porque nós não temos dinheiro pra comer. A gente só tá comendo em Alphaville de noite. A gente sai de lá sem café da manhã porque  nós saímos às seis horas, pegamos o primeiro ônibus para chegar no estúdio às oito”. Então, o João foi pra lá e ficou acho que uma semana.

Jairo e Max, Sepultura, 1985

Jairo e Max, Sepultura, 1985

E aí ele foi pra lá e ele saía do hotel dele e comprava todos os dias McDonald’s. Eu não lembro se era McDonald’s, mas era uma franquia de sanduíche. Ele comprava os sanduíches e levava pra gente no estúdio. Às 11 horas, ele estava lá no estúdio com o rango, que era o primeiro rango que a gente fazia. Ele levava dois sanduíches pra cada um, duas cocas-colas e a gente passava o dia lá. Dez horas da noite, a gente ia embora, comia no Alphaville. No outro dia, meio dia a gente sabia que o sanduíche estava lá. A gente não tinha noção de nada, o Igor sentava no piano de cauda do estúdio, botava o sanduíche e a coca-cola e o cara ficava louco, falava “velho, sai daí, cara”! O estúdio era foda, foda mesmo. Tinha salinhas separadas, um grande estúdio… Não na mixroom, não, na outra sala de gravação, tinha umas paredes abertas, você via tudo que estava lá dentro, só umas paredes dividindo. Tinha três baterias diferentes, um piano de cauda, uns teclados.

morbid visions

Morbid Visions: dieta à base de junk food e fanfarronice

Mas a gente tinha dois problemas, primeiro que a gente não sabia o que cobrar das pessoas. A gente levava um disco e falava que era mais ou menos aquilo ali que a gente queria. E outro era que a gente já era mal visto. O Sepultura virou sinônimo de moleque maluco, de problema. A gente só fazia barulho, nunca causamos problema pra ninguém, mas o pessoal já vinha com má vontade em todos os estúdios, todas as casas de show. Então, a gente tinha esses dois problemas, um era a nossa falta de informação, outro era a nossa falta de ação por causa do preconceito. Depois isso virou a moeda, na época do Schizophrenia, que já foi um disco mais bem gravado.

Uma época em que você já estava fora da banda.
Eu compus as músicas junto com o Max, o Igor e o Paulo. Eu compus 95% e o Andreas compôs duas músicas. O Andreas trouxe uma música dele, que ele fez com o Sepultura, mas ele já tinha uma ideia da outra banda dele. Ele era mais Iron Maiden, ele tocava numa banda que eu esqueci o nome, era uma coisa meio egípcia (N.: Esfinge), bem Powerslave, em Santo André. Ele veio com essa música e uma outra que ele toca no violão no Schizophrenia, acho que é a “Inquisition Symphony”. Todas as outras musicas eram minhas com os caras, mas no tesão de ser músico eu não registrei nada, nem pedi para os caras colocarem o meu nome. Se perguntar para os caras, eles falam “o Jairo fez”, mas era tudo informal.

Sepultura, 1987: o restaurante do Bolão é logo ali

Sepultura, 1987: o restaurante do Bolão é logo ali

Voltando ao Morbid Visions. Como foi depois de gravado e lançado?
Entrou em playlist de rádio e tudo, foi primeiro lugar em algumas. Nessa época, quando a gente lançou o disco, a gente começou a viajar muito pra o Rio e São Paulo que eram os polos. Uma vez, um repórter me perguntou sobre Brasília, porque nessa época em Brasília tinha Paralamas, Legião, a época importante do Capital… Era a época que o pop também estava nascendo, vindo do punk, mas a gente nunca cruzou com ninguém, não tinha relação. É a mesma coisa de te perguntar hoje sobre algo que está acontecendo na China, eu vi no Jornal Nacional, mas não me atingiu e não mudou minha vida. A gente não tinha essa noção, não procurava saber disso, vivia o metal 24 horas.
Mas, enfim, as coisas foram acontecendo, o mercado foi se abrindo e foi surgindo vinil, o Combat Video, que nos incentivou a fazer muita coisa, porque era Exodus, Slayer e Venom… Foi o primeiro vídeo ao vivo que a gente viu. Nós vimos na Woodstock. Na Cogumelo não tinha nem vídeo na época. Aí a gente viu como as eram as bandas visualmente: jaqueta de couro e não sei o quê, a gente já gostava… A gente não pode afirmar que a gente seguiu alguma coisa ou que alguém seguiu a gente, a coisa parece uma frequência e nós éramos umas antenas que estavam abertas para a aquela frequência, a gente já queria aquilo. Vimos aquilo e falamos: “existe, beleza, vamos nessa”.  Então a gente começou a fazer isso, contatar bandas e viajar por causa disso.
E o Max sempre do lado hardcore, sempre pegando as bandas hardcore. Muito dessa conexão que a gente fez com o hardcore veio do João Gordo, do Ratos. Mas tinha uma coisa que depois que eu cresci, que eu virei adulto mesmo eu comecei a sacar, tinha uma coisa que era inerente à nossa personalidade, que era aquela coisa dos mais fracos, sabe? De a gente gostar dos mais fracos, dos mais oprimidos, então quando falavam pra gente de uma banda de uma cidadezinha da Finlândia ou da Indonésia, se tivesse uma bandinha da África, a gente ia adorar e falar “que isso cara, África é pior do que aqui”. A gente não tinha noção de nada, estrutura nenhuma, gostava dos mais fracos.

Paulo Xisto e Jairo Guedz: nessa época, a coisa era feia

Paulo Xisto e Jairo Guedz: nessa época, a coisa era feia

Então eu acho que tinha muito dessa coisa, veio com isso de ser pobre e a depois a gente foi sacando que já existiam squats na Europa e que os caras viviam nos squats. A gente achava o máximo. Então, a gente acabou transformando a nossa casa em um squat, morava todo mundo. O cara vinha pra cá e ficava seis meses se ele quisesse, o Carlos Vândalo ficava um mês morando. Não tinha esse negócio de juntar a grana pra comprar as coisas, eu ia lá e comprava uma coisa, o Carlos ia e comprava, o João comprava um pão com salame… Eu me lembro que eu passei um ano na casa do Max, com a Vânia (N.: Vânia Cavalera, mãe de Max e Igor) lá, tranquila. Ela sempre foi assim: “vocês  vão dar certo e já estão dando certo”. Eu lembro que eu já trabalhava na implantação da Açominas, em Ouro Branco, e estudava no Colégio Roma à noite, eu queria me formar porque eu queria fazer música. Cheguei a ter aula de violão clássico com alguns caras do conservatório de Congonhas que vinham pra cá uma vez por semana. Então, quando eu acordava de manhã e abria a geladeira só tinha cerveja e uma vodca no congelador. Aí eu fazia café, a turma ainda estava dormindo depois de mamar todas, apagados às 11 horas da manhã. Eu já estava voltando do serviço, aí eu fazia almoço, sempre assim. O Igor e o Max não sabiam – pra ser sincero, o Igor não sabe até hoje – fritar um ovo. Eu já era interessado em culinária, eu queria cozinhar pra mim, não tinha mãe nem pai pra fazer isso pra mim.
O Igor sempre foi assim: “faz um omelete pra nós aí, cara”. E o Max sempre foi: “pega o dinheiro lá e compra”. Eu comecei a acordar de manhã cedo e ver que não tinha rango, tinha cerveja. Virou casa de bêbado. O João Gordo está ali entornado, fumando maconha, com uma goteira caindo na boca dele, dormindo na mesa. Ele vinha pra cá e dormia em cima da mesa, gostava, tinha uma goteira que ficava sempre em cima dele. Eu tinha essa neura, por isso que eu tive filho cedo, de ter pão na mesa, ter café, um presunto, o que der. Então, eu saia e comprava, gastava meu dinheiro todo e com bebida também, eu bebia muito nessa época. O Max e o Igor não encostavam em bebida, acho que até mesmo pela mãe deles que estava ali. Muito cigarro, eu fumava muito e sempre fumei, eles não fumavam. Então, eu acho que foi surgindo daí, a gente começou a ter muito contato com o João e com Ratos,  com as bandas hardcore menorzinhas e começou a gostar das bandas gringas também.

Bolinho banger: Sepultura '86

Bolinho banger: Sepultura ’86

Sepultura em tempos de turnês magras

Sepultura em tempos de turnês magras

E a partir daí, dessa época do Morbid Visions, começamos a entender certas coisas. “Jairo, você precisa de uma guitarra legal…” Até então tocava com guitarras emprestadas, era Golden e Gianini. Usava umas porcarias tipo Sonic… Eu e o Max chegamos a ter duas Finch, que não existe mais e a gente achava o máximo, era igual a do Metallica. Mas eram dois paus de arame, não tinha nada e a gente usava, dava microfonia e tudo. A gente tinha os melhores amplificadores do Brasil na época eu acho, eu tinha um Palmer com oito auto falantes, o Max tinha um e o Paulo tinha um Dual Vox de oito também, então a gente achava lindo. Era barulheira mesmo.
Eu costumo dizer isso sempre e reafirmo: eu nunca vi uma banda ter tanta sorte como o Sepultura, porque era pra gente estar morto. Nós já fizemos coisas que a gente não acredita e não faria nunca hoje. Se tivesse tido um pouco de inteligência na época, a gente não fazia.

Como o quê?
Andar com cara bandido, achar que o cara era legal. Ir pra são Paulo na doida com guitarra nas costas e pedalzinho na mochila. A maior roubada foi uma turnê em Americana, Santa Isabel e Araraquara, no interior de São Paulo. Foi um showzasso. Nós fizemos de trem porque a gente não tinha dinheiro pra ônibus. Numa dessas viagens, em Santa Isabel, o Igor dormiu dentro de um freezer de tão frio que estava lá fora. Era julho, tinha neblina e muito frio. A gente arrombou uma lanchonete na cidade, um trailer que tinha uma lanchonete no fundo. Era de madrugada, depois do show, a gente quebrou os cadeados e entramos, pegamos as balas, chocolates… Antigamente se tivesse um tijolo de maconha, uma barra de ouro e uma caixinha de Yakult, a gente pegava a caixinha de Yakult. A gente comeu chocolate a noite inteira e o Igor dormiu no freezer. Depois na viagem de volta pra São Paulo, foram 4 horas de viagem, a gente invadiu um trem. A gente tinha dinheiro, ficamos na estação esperando o trem parar. Eu comprei um pão de sal pra cada um com o dinheiro que eu tinha, aí o trem parou. A hora que começou a andar a gente foi correndo e entramos. Quando nós entramos pela porta de trás do vagão, que tinha uma varandinha, vimos que estava estava lotado. Um povo sofrido, trabalhador, umas Dona Maria indo pra São Paulo, com uns sacos, uns fardos… Tinha duas poltronas vagas, o Max e o Paulo já sentaram e dormiram. Nós atravessamos e fomos para o outro vagão, que também estava lotado. O Igor e eu ficamos na junção, era uma varandinha de cada lado com aquele piso de metal igual de ônibus. A gente ficou ali. Eu tirei a jaqueta, cobri o Igor porque eu tinha essa mania mesmo de proteger mais os caras do que eu. Ele era molequinho, muito mais indefeso do que eu, não sabia nem cozinhar nem fazer porra nenhuma.
Aí o Igor dormiu e eu percebi que a mão dele caía entre as duas junções. O trem fazia uma curva, um buraco abria e a mão dele caía. Aí eu pegava a mão dele, tirava dali e colocava no corpo dele de novo. Eu comendo um pão e vigiando ali. Falei: “nossa, vou ficar a noite toda acordado”. Fiquei a noite inteira tirando a mão do Igor. Não tinha jeito, ele estava morto. Três, quatro shows sem dormir nem comer direito… Eu não ligava, não.

Max Cavalera em grande roubada, em Americana, 86

Max Cavalera em grande roubada, em Americana, 86

Então, sempre foi assim, eu presenciei o Igor perdendo a virgindade, a primeira mulher que ele arrumou na vida numa dessas turnês aí. Hoje a gente tem contato com ela, gente finíssima, é amiga do Igor. Ela é empresária lá em São Paulo, produtora, mexe com shows. Presenciei muita coisa interessante nessa época, foi quando a gente começou a perceber que quando a gente chegava em São Paulo e o pessoal já tratava a gente diferente. A gente ficava sumido um mês pelo interior e quando a gente voltava pra São Paulo neguinho já dava um respeito pra gente que a gente falava “que coisa esquisita”. A gente não tinha noção do tamanho que a gente era. Hoje em dia você consegue ter uma noção se o seu disco é bom pelo tanto que vendeu.
A partir dali começou a dar muita gente nos shows, enchia pra caramba. Esse show de Santa Isabel foi uma loucura, neguinho pulava o muro, deu confusão, deu polícia. Cabiam mil pessoas no ginásio, tinha duas mil e tantas. A gente começou a crescer e era engraçado isso. Porque o Carlos, que estava na turnê com a gente com o Dorsal Atlântica, era muito mais inteligente que a gente, ele era filósofo e escrevia muito bem as letras. E ele falava coisas que eram muito pesadas ao vivo, coisas que galera ia à loucura.
Aí a gente começou: “ô, Max, você tem que dar um jeito aí porque você tá só anunciando a música, tem que conquistar a galera, você é o frontman mesmo, tem que ser igual o Tom Araya. Ô, Max, cria alguma coisa aí senão o Carlos vai acabar com a gente”. Isso em um festival lá em Santa Isabel. Todas as bandas viajavam para o mesmo lugar, Necromancia, Dorsal, Ratos, um monte.
Aí o Max falou: “cara, preparei para o show de hoje um negócio foda”. O Max criou uma frase tipo “O inferno hoje é aqui e nós vamos quebrar tudo”. Beleza, a gente ia fechar o show e o Dorsal era a última banda a abrir pra gente. Quando a Dorsal subiu no palco a gente estava lá atrás assistindo o show. O Carlos entrou no palco todo cheio de spikes, os três caras de preto. O Carlos virou e falou: “Boa noite, Santa Isabel, nós somos o Dorsal Atlântica, pau no cu de deus!”. A hora que ele falou isso eu vi na cara do Max a decepção, não tinha jeito. O cara é louco de falar pau no cu de Deus, ia cair um raio nele. A gente desistiu, deixou o Dorsal pra lá e seguiu com a turnê.

Carlos Vândalo bangueando em Americana

Carlos Vândalo bangueando em Americana

Tudo aconteceu nessa turnê, se eu for te contar você vai gastar seis fitas. Os apelidos dos caras das bandas apareceram nessa turnê, os primeiros homossexuais também. A gente não conhecia homossexual e foi descobrir que tinha na nossa turma. Descobrimos porque a gente foi dormir lá no ginásio e de noite uma barulheira, sombra dando na parede… Aí o João Gordo falou “espera aí, tem alguma coisa errada”, aí ele acendeu a luz. A hora que ele acendeu a luz tinha umas aranhas enormes no lugar todo, umas doze aranhas. Eu morro de medo de aranha e o Igor também. A produção jogava a gente nos lugares mais podres que eles podiam jogar, no fundo de açougue, lá no matadouro. Então dava bicho pra caramba, nós não morremos porque o anjo da guarda tomou conta.

Essa mania do pessoal de usar suástica, o Holocausto, o Igor…
O Igor usava sempre. A gente não tinha noção do que era aquilo e era engraçado que a família do Igor era italiana, o pai dele era cônsul italiano no Brasil. Era uma coisa pra chocar e foda-se. O Igor depois virou judeu pra casar com a Mônica, então a gente gozava ele muito. E eu falava: “olha, eu tenho aquela foto sua lá com a camisa, vou mostrar pro seu sogro, pro Salomão”. Ele falava, “não não, não faz isso não, aquela foto eu escondo ela”. Achava legal, refletia a nossa agressividade, tipo “nós somos agressivos, temos que usar um negócio agressivo”.

Casamento cheio de pompa e circunstância de Igor e Mônica

Casamento cheio de pompa e circunstância de Igor e Mônica

Igor e Paulo, apenas rostinho bonitos

Igor e Paulo, apenas rostinhos bonitos

Achava legal ser agressivo, ser podrão… Eu, o Max e o Igor, a gente já assaltou pivete aqui em Belo Horizonte. O pivete vinha pro nosso lado e a gente falava “ô vei, me arruma uma grana aí” e a gente era tão mais podre que o pivete, ele estava tão mais bem vestido que a gente… Acontecia isso muito. A gente pegava o ônibus no Santa Tereza, não pagava, em 1989, descia do ônibus, olhava pro trocador e fazia assim (mostra o dedo do meio), ele fazia assim (dá de ombros) e pronto. Mas não tinha arma, não era mau, não, era aproveitando o próprio medo do outro sem ser mau.
O Holocausto… O som do Holocausto era o mais pesado na época, em todos os sentidos. Meio que pela razão social deles, eles eram muito mais pobres… A gente já era fodido, mas eles eram muito mais pobres, não era favela, mas eram pobres pra caramba. O Chakal também quando começou era um pessoal mais pobre, então eles eram muito mais pesados que a gente, pela pobreza mesmo. Eu lembro de um cara uma vez do Holocausto, o Marquinho, ele já até morreu… Ele falou assim “Jairo, você quer ver uma coisa realmente pesada?”. Falei “quero”. A gente estava comendo pão molhado no Bolão, é o pão com a carne do espaguete que ele faz lá, cebolinha e queijo ralado. A gente tava comendo pão molhado de madrugada, três horas da manhã, bêbado. Ele falou um negócio no ouvido da namorada dele, cochichou alguma coisa, ela enfiou o dedo na garganta e vomitou no chão. Eu falei: “nó vei, que coisa podre”, aí ele “você não viu nada”. Ele pegou o pão, passou no vômito e comeu na minha frente. Aí eu comecei a sacar que já estava virando circo bizarro. Competição de quem é o mais podre.

O negócio era ser extremo.
Era. Como o Sarcófago. Eles tocavam daquele jeito da foto do primeiro disco (N.: INRI). Neguinho tomava choque, neguinho espetava o outro, sangrava porque o outro encostou nele, sangrava o rosto… O Gegê, do Sarcófago, o baixista, num show do Sepultura, a gente estava tocando e ele estava batendo a cabeça num lugar podrasso. Tinha umas tábuas, uns tapumes e ele estava batendo a cabeça. Eu estava tocando e vi ele bater a cabeça num prego. O prego entrou na testa dele e ele ficou grudado no tapume. Na hora que ele voltou o tapume veio junto. Aí eles tiraram ele e ele continuou agitando, eu falei “cara, nós vamos chegar num ponto que isso aqui vai virar o Iraque”. Não tinha hospital nem porra nenhuma, era isso mesmo e vamos embora com tudo.

E o Sarcófago e o Sepultura?
Não combinavam. Tinha treta de bater e quebrar a Savassi. Tinha duas turmas, a do Sarcófago, que era mais pro lado da Pampulha; e a do Sepultura, aqui no Santa Tereza e Floresta. Já teve treta de um jogar cadeira no outro, o Max quebrar garrafa na cabeça do Wagner… Não se falam até hoje, é engraçadíssimo. O Wagner não fala comigo, eu não tenho nada contra ele, eu nunca bati nele. Tenho até vontade de trocar uma ideia.

Falando em Sarcófago e Holocausto, você se lembra de quando o Warfare Noise saiu, em 1986, com, além das duas bandas, Mutilator e Chakal?
Sim, deu mais visibilidade para as bandas além do Sepultura. Rapidinho as bandas viram que elas estavam crescendo e o material delas estava indo pra fora do país, fazendo shows, então as bandas começaram a se separar. Eram amigos, mas cada um tomou seu rumo, os ensaios começaram a ser menos frequentados. Por exemplo, o ensaio da Sepultura era super frequentado, depois todo mundo tinha banda. O ensaio do Holocausto tinha um monte de gente, depois todo mundo virou músico e a gente começou a passar por aquele problema… Eu falei isso uma vez numa entrevista e o cara riu pra caramba, isso foi há 20 anos atrás, que a gente estava tocando no palco e todo mundo no público estava com um instrumento esperando a hora de eles tocarem. Virou isso, um workshop pra bandas, não era nem show mais. Todo mundo começou a achar que a coisa era fácil…
Algumas pessoas que frequentavam nossos ensaios viraram inimigos nossos da noite pro dia. A gente perguntava “o que tá acontecendo?” e o cara virava a cara, porque ele já tinha banda e se considerava inimigo. A gente nunca teve isso, nunca pensou nisso. A gente era do tipo “vamos tomar uma, vamos fazer um churrasco lá em casa” e ninguém aparecia.

Coletânea Warfare Noise, 1986, Cogumelo Records

Coletânea Warfare Noise, 1986, Cogumelo Records

Então começaram a criar nichos. Nichos muito localizados em termos de bairros também. O pessoal do Castelo, que na época devia ter duas casas no Castelo, Alípio de Melo também, acho que a Holocausto era de lá… Acho que nessa época o povo começou a ver isso: “agora eu posso ter minha banda”. Começaram a surgir lojas de instrumentos, o acesso a vinil ficou muito maior, a Cogumelo passou a ter discos que antes só teria em São Paulo, na Woodstock… Então as pessoas começaram a ter poder próprio: “agora eu não preciso mais do Sepultura pra nada, não preciso ir no ensaio do Sepultura porque eu também toco”. O que, depois de alguns anos, virou naturalmente foi uma peneira, um monte dessas bandas não foram pra lugar nenhum e algumas outras deram certo. Mas criou sim uma cisão, ao invés de a gente ter mais contato pra trocar figurinhas acabou que ficou cada um na sua. E até 1990 o público só foi aumentando. De 90 pra 2000… 93 até 99, foi decadência, foi difícil.

E a sua saída do Sepultura? Como isso aconteceu?
Eu liguei para os caras e falei que estava saindo, foi uma tristeza danada. Até hoje eu nunca tive um feedback de ninguém igual eu tive do Igor e do Max, de chorar igual menino pequeno, me segurar e falar pra eu não sair não. Eu não falo isso porque eu me gabo, mas fiquei emocionado pela amizade. Tudo era assim: o Igor perdeu a virgindade lá em São Paulo e me chamou, falou “ô Jairo, a mulher que está querendo sair comigo está aí”, eu falei “uai, sai com ela”. Então quase que eu fui no motel com os dois pra ensinar, eu já era namorado da prostituta com quem eu me casei, os caras já tinham esse respeito por mim.
Mas eu chamei os caras na minha casa, na rua Aimorés com Ceará, onde morei depois que eu saí da casa do Max. Eu já estava matando ensaio, com a cabeça em outras coisas. Os caras ficaram muito chateados, eles foram lá pra essa reunião achando que eu ia falar pra gente ensaiar direito ou pedir um tempo. Eu também já estava muito drogado nessa época, estava cheirando e tudo, era uma coisa muito nova pra mim. Eu até acho que eu tive influência da minha mãe, porque como ela sempre foi muito liberal e abriu muito o meu caminho e eu desencaminhei. Eles ficaram muito chateados e falaram que iam me dar uma semana pra pensar e voltar.

Sepultura, 1986

Sepultura, 1986

O Igor dizia “eu sei que você vai voltar”. Um dia eu estava na Cogumelo – sempre gostei de metal e não parei de gostar porque tinha saído da banda – eu vi um cartazinho: “Sepultura procura guitarrista, favor ligar para o telefone tal e marcar uma audição no ensaio”. Na mesma hora eu arranquei o cartaz e fui lá. Falei com o Max e o Igor: “se qualquer um me substituir, eu fico na banda. Agora, se o cara certo me substituir, aí tudo bem, mas qualquer um não. Colocar na Cogumelo pra um desses molequinhos paga-pau aí entrar no meu lugar? Aí não.”
Então eu falei que se precisassem de um tempo pra achar o cara certo, eu ficava. “Vamos pra São Paulo, vamos caçar um cara lá. Tem o Índio do Necromancia, tem o Andreas da banda lá que eu esqueci o nome, eu pensava em todo mundo. Aqui em BH tem o Magoo que era do Mutilator, ele toca legal, tem instrumento, tem grana.” O Magoo era o Alexander, ele morreu em Londres. Ainda tenho contato com o irmão dele até hoje, o Erick, roteirista ali na Fábrica de Quadrinhos . O Max deu uns telefonemas e um dia o Andreas veio pra cá fazer um teste. O Max me ligou e eu fui lá, aí o Andreas me agradeceu por eu ter lembrado dele aí eu falei “você dá um toque lá nos caras da sua banda que eu não tenho nada com isso”. Então falei “você conversa com o seu pai e o seu quarto é esse aqui”. Abri o meu quarto pra ele na casa do Max, ainda tinha tudo lá, minhas fotos na parede, minha roupa de cama, meu armário. Tirei tudo, coloquei na mochila e falei pra ele “olha, você vai ficar aqui, precisa de alguma coisa?”.
Fui embora, tive prazer em fazer isso porque eu sabia que ele era profissional, ele era uma cara de uma geração de músicos melhor do que a nossa, não usava maconha nem nada disso, hoje ele é o maior fumador que eu conheço. Sofremos no dia que eu dei a noticia, sofremos depois, mas quando o Andreas entrou foi tranquilo. Eu falei com o Max, “agora você vai assumir a guitarra também, tocar direito”. A guitarra que tinha o patrocínio dele já saía da fabrica com três cordas. A gente já tocou com moeda porque não tinha palheta em turnê… Quando eu saí da banda eu falei “gente, não faz besteira, não deixa ninguém escrachar vocês, levem a sério”. Depois eu montei uma outra banda farofa com o meu irmão de criação, uma turma que depois veio a ser o Easy Rider e fiquei tocando na minha casa.

Max Cavalera, 88

Max Cavalera, 88

Dentes e acne: Jairo e Max, 86

Jairo e Max: dentes e acne

E aí você foi para o Mayhem ?
Não fui pro Mayhem, fui pro The Mist. O Mayhem virou The Mist antes de eu entrar. Eles lançaram o Phantasmagoria antes. Entrei no segundo disco do The Mist. Eu fiquei de 89 a 91 parado. Eu tinha contato com o Vladimir, ele frequentava minha casa, tinha contato com o Beto, com o Cavalão, que era o guitarrista que morreu… O Vladimir começou a sacar primeiro que eu era o ex-guitarrista do Sepultura e que eu estava parado. Segundo que tudo que eu ouvia era o que eles gostavam, já era uma coisa mais dark na época. Eu gostava de Sisters of Mercy, Bauhaus, Ministry, umas coisas mais industriais, mais eletrônicos e gostava de metal. O Vladimir falou assim “você tem uma qualidade que é do caralho, você escreve bem, você tem uma coisa meio depressiva e legal, você escuta um som mais dark e o The Mist tem essa coisa”. Então ele começou a me dar esses toques e eu entrei pro The Mist. Ele falou pra gente fazer um disco conceitual, meio Alice no País das Maravilhas, meio Mágico de Oz. Aí fizemos o The Hangman Tree. Deixei por conta dele as letras, a gente corrigia junto e passava pro inglês, já tinha uma preocupação em estudar em inglês. No Sepultura não tinha esse negócio não. Tem uma frase do Sextrash que é engraçada, o cara queria falar que o diabo colocou a mulher de quatro, aí ele fala assim “he put she of four” (N.: Na verdade, a música é do Sarcógafo, “Desecration of Virgin”, do disco INRI: “He put the virgin of for”). O Vladimir já começou falando pra gente fazer letras legais. Resultado: gravamos o Hangman Tree, passou um mês a (gravadora inglesa) Music for Nations contratou a gente.
Nós ficamos doidos. Mas nós tínhamos dois problemas na época: um empresário que achava que a gente ia ser o próximo Sepultura, a banda mais foda do Brasil e achava que aquilo era pouco pra gente e tinha o Vladimir que era meio comunista. Ele tinha essa ideia de achar que a gente estava se vendendo, que os gringos não merecem, “vamos mostrar ao mundo que a gente consegue”… O pai dele foi exilado do Brasil, saía de casa, ali na Rua da Bahia, fugindo com ele neném e com os livros comunistas em baixo do braço, era um cara muito inteligente. Então o Vladimir puxou do pai dele essa coisa, ele não queria e nós dissemos não para a Music for Nations.  Todo mundo das outras bandas achou que com isso a gente tinha rachado o contato com a Europa, que com isso as gravadoras não iam mais querer saber do Brasil, que a gente era muito convencido, mas a gente não estava nem aí. O nosso negócio era fazer música inteligente, a gente não queria mais ser podrão, lia Nietzche pra entender e gravar um disco… Nessa época eu já não tinha contato com o Sepultura, eles já estavam morando em São Paulo, viajando para o exterior e eu não tinha mais contato.

The Mist e o estilo característico dos anos 90

The Mist e o estilo característico dos anos 90

Essa época, início dos anos 90, foi o início de uma decadência?
Também, de mercado inclusive. Não sei por que, talvez por um excesso de bandas, de informação, de tudo. Naturalmente, quando você tem um excesso precisa começar a peneirar para pegar a melhor, então foram sobrando só as que prestavam. Pra música, pra moda, pra livro, pra tudo. Então começou a ter essa saturação e uma reciclagem natural. Foi uma fase muito difícil.
Nessa época eu não parei de tocar, mas eu não tinha frutos, feedback legal e não ganhava dinheiro. Até hoje as pessoas falam que gostam de mim porque eu peguei só a podreira. Peguei a podreira do Sepultura e saí quando o Sepultura estourou.
Mas a verdade é que eu nunca fui “true metal”. Sempre busquei conforto na musica, dinheiro e tudo. Quando eu estava no Sepultura a música, pra mim, já tinha uma noção de trabalho. E no The Mist eu comecei a levar mais a sério. Eu era o cabeça na parte de divulgação da banda, de arrumar som, e o (Vladimir) Korg na parte de escrever música e desenvolver discos. Depois a banda mudou, o Korg saiu, nós fizemos um disco eu, o Cristiano, baterista, e o baixista. Depois o baixista saiu e foi para os Estados Unidos, o Marcelo, que era do Soulfly, agora já saiu do Soulfly e tem outra banda…
Aí a gente chamou o Cassiano que era de uma banda de São Paulo e ele começou a tocar com a gente. Foi a pior fase da banda, até 95. O disco era o Gottverlassen, aquela capa que tem uma foto parecendo um índio…

O que é esse título?
Eu tirei do livro O Sapateiro, que é a historia do Joseph Kallinger, um psicopata filho de alemães, filho de um coronel filho da puta na época… Virou sapateiro e matava as mulheres. Tirava tudo por dentro pra ver como elas eram, gostava de pele, de couro e etc. Aí ele era chamado pelas tias de gottverlassen que é o esquecido por deus, abandonado por deus. Ele era uma criança problema. Depois desse disco, fui para os Estados Unidos, fiquei vivendo em Nova Iorque e Los Angeles.

The Mist

The Mist

Fazendo o quê?
Nada, eu tinha uma grana, 10 mil dólares na época, fui pra lá gastar. Fiquei na casa de uns caras de bandas, fui dar um rolê. Por coincidência, o Sepultura estava gravando os últimos detalhes do Roots e mixando o disco em Nova Iorque. Eu encontrei com os caras e fiquei no hotel com os caras um mês, acompanhei a gravação do Roots lá. Conheci o Andy Wallace, fiquei na casa dele. Aí já era o Max, a Gloria (Cavalera), o Igor, o Paulo e o Andreas. Os caras me trataram super bem, eu fiquei lá e aprendi muita coisa, até com a Glória. Eu tinha uma agenda eletrônica, ela pegou a dela e falou assim “você tem uma banda né? Vou te passar meus contatos”. Ela ligou o cabo dela e mandou tudo, o que tinha asterisco na frente era da família, apaguei depois, o resto era contato. A partir daí eu comecei a ligar, mandar e-mail, contatar algumas pessoas. Só que nessa época o The Mist começou a ter a brigas internas, a bola murchou aí nós paramos. Uma semana antes do The Mist acabar oficialmente o Eminence tinha me chamado. Eu assisti a gravação do primeiro disco deles na Cogumelo e fiquei impressionado com a banda, pra mim era uma outra coisa que eu não conhecia, eles escutavam Pantera e eu comecei a gostar, a achar o trabalho dos caras profissional e entrei pra banda. No Eminence eu fiz a mesma coisa que eu fiz quando eu entrei no Sepultura. Eu entrei e fui limpando, tirei neguinho da banda porque eu sabia que estava muito mais pra auê do que pra trabalhar mesmo. Foi que nem com o Wagner, que era vocalista do Sepultura, eu entrei e já falei que ele tinha que sair. Foi aí que ele virou inimigo do Sepultura.

Leia a primeira parte da entrevista e confira mais dos arquivos do metal mineiro na série Iron Minas aqui

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13 pensamentos sobre ““O Sepultura teve muita sorte, era pra gente estar morto” – 2.ª parte da entrevista com Jairo Guedz

  1. Excelente entrevista. Só uma observação: o verso tosqueira citado pelo Jairo provavelmente é “He put the virgin of for”, de ‘Desecration Of Virgin’, do debute do Sarcófago (“Inri”, de 1987). Abraços!

  2. Estou viajando nessas entrevistas sobre o Sepultura e o metal em Minas e no Brasil!
    Parabéns!
    Michael Meneses – Selo Cultural Parayba Records – Rio de Janeiro/RJ

  3. Fantástica série! Parabéns !
    Tou seguindo de perto, lembrando umas coisas e esperando o resto.
    E nessa primeira foto o Max tá parecendo o Joey Ramone. Só faltou a altura do Jairo.

  4. acho que ele se enganou quando disse que o max quebrou uma garrafa na cabeça do wagner.na verdade,foi o dd crazy(baterista do sarcofago na era INRI) que quebrou a garrafa no andreas e isso separou até os fãs das duas bandas

  5. Achei do caralho, também tô viajando em todas essas entrevistas sobre o Sepultura das antigas, os anos 80 foi uma época muito foda! O Sepultura hoje em dia não é o mesmo, simplesmente não é, sem o Max, sem o Igor, eles eram a alma da banda! Parabéns para o blog.

  6. O Sepultura sempre foi uma bandinha superestimada e o Andreas sempre foi um cuzão. Pra piorar foram pela cabeça do João Gordo e se tornaram uma bandinha thrash de merda.

  7. Pingback: De Jon Bon Jovi a Shakira: os shows gringos do "Programa Livre", nos anos 1990 - POP FANTASMA

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