DisXease: sobre intensidade e tradição

Há tempos que eu não escutava uma banda de hardcore tão boa. Há anos não ouvia tanto uma banda hardcore brasileira.

Fotos: Mateus Mondini

Outro dia, numa mesa de bar, estava conversando com um amigo de longa data que conheci na época de (quase militância no) punk hardcore. Falávamos sobre como o contato com o punk (ou o metal) definiu ou acentuou nossas buscas e curiosidade por criações que carregassem originalidade, autenticidade e intensidade. Senão houvesse todas essas qualidades, que pelo menos uma delas fosse bem pronunciada.

Para nossa inconveniência, muitas vezes essa procura foi (ainda é às vezes) por coisas na vida em geral. Mas, para todos efeitos, a conversa  era sobre música,  cinema, arte, toda essa coisa da experiência estética.

Intensidade é um negócio me atrai muito em música. Aquele negócio lento ou rápido, amplificado, distorcido, em alto volume, agressivo… Isso mexe comigo. Sei lá o que se passa. Mas esse tipo de música é quase como um esporte ou um treinamento de artes marciais: é  canalizar violência e agressividade de um jeito criativo ou saudável. E sem danos para ninguém nem coisa alguma – importante.

disxease mateus mondini 1

E me incomoda que quando vou ouvir algo pesado eu acabe caindo quase sempre nas mesmas coisas que já escuto há anos. As novidade não costumam me agradar. Numa análise rasteira e generalista, música pesada atual – atual de fato, ou seja, que não faz (ou  que não exagera no) pastiche de bandas velhas – acaba se encaixando em duas grandes categorias. Ou é muito técnica e cheia de firulas e muita produção. Ou segue uma construção composicional progressiva, atmosférica, climática e com muita produção. Ou os dois.

Claro, tem bons representantes em ambos times. Mas sinto falta de uma coisa mais bruta, mais simples, sem muita técnica, sem firula, com uma produção mais discreta. Aquela agressividade mais – atenção para o polianismo – pura, quase primitiva.

Por isso o DiseXease não para de tocar nos lados de cá. O quarteto paulistano – composto por uma turma há tempos entrincheirada no punk e que passou por tantas bandas que nem vou começar a citar – lançou uma demo de seis músicas no fim do ano passado. Você pode ouvir todas elas pelo seu bandcamp, ali em cima neste post.

E é isso que você está ouvindo, um som espesso e bruto sem soar metal, quase uma força da natureza. Uma continuação de uma genealogia oitentista que passa por SSD, State, Negative Approach, Confront, Brotherhood. Para quem não é muito familiarizado com o estilo (leia-se: nerd), as referências são um pouco obscuras. Mas, se lhe interessar, apele ao Google e dê uma conferida.

O DisXease não existe para prezar pela originalidade. Porque, assim como no blues, é uma continuação de uma linhagem, de uma tradição musical. E, assim como os bons bluseiros, consegue ser autêntico repetindo do seu próprio jeito fundamentos de uma tradição. Sobre essas fundações, soa como uma boa banda da década de 2010. Que é o que é, afinal. Pra mim, tá mais que ótimo.

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