“Sinto saudades da época que tocava nos botecos mais ferrados do mundo”, entrevista com Max Cavalera

O Cavalera Conspiracy ainda nem tinha nome quando eu falei com Max Cavalera. Vinte e seis de junho de 2007 e o Max estava acabando de compor as músicas para o primeiro disco do projeto com o irmão Igor (ou Iggor se preferir).

Depois de tantos anos sem tocar com Igor, Max estava bem empolgado com a ideia e saudoso dos primeiros anos do Sepultura. A cabeça estava cheia de ideias e planos incipientes. Falava em gravar uma ou duas músicas no Brasil, em passear em Ouro Preto, em tomar cerveja em bares do bairro belo-horizontino de Santa Tereza… Coisas que não aconteceram. “Mas eu nem sei o que vai dar”, ele avisou.

Como a pauta da época era o futuro Cavalera Conspiracy, suprimi toda conversa sobre o projeto e especulações sobre o Sepultura clássico se reunir ou não – um papo que já deu, certo? Publico aqui os trechos desta entrevista inédita em que ele relembra os tempos idos da década de 1980. E depois Max responde uma pergunta minha de fã.

Fotos: Vanda Gui e acervo de Silvio Gomes

bhm1 max cavalera dez 1984

“Eu experimentei muito com o Soulfly e meio que cansei. Eu me achei de novo, tive algumas experiências com o Soulfly, mas depois a banda foi ficando com o tempo cada vez mais crua e mais pesada. Em termos de música, meu tesão, meu coração está mesmo no metal, no hardcore, que é um tipo de música que eu e o Igor ouvimos desde que a gente tinha 12, 11 anos.

Minha música sempre foi bem aberta, mas a agressividade está sempre ali, independente se for death metal, thrash, new metal… Isso não me importa. Rótulo de música nunca me interessou. Desde a época do Sepultura que a cada disco tentavam botar um rótulo diferente na gente. Pra mim, isso tanto faz. Tendo coração, raiva de verdade, pra mim, tá legal.

Sem querer fazer um marketing, mas ser brasileiro é diferente, velho. Os gringos sabem que a gente toca diferente, a gente fala diferente, tem uma coisa que o pessoal fora do Brasil fica louco mesmo.

Parece doido, mas, às vezes, sinto saudades da época que a gente tocava nos botecos mais ferrados do mundo, do Barroliche (N.: onde o Sepultura fez seu primeiro show, em dezembro de 1984), viajava por 60 horas para tocar em Caruaru, pulava em vagão de trem para viajar sem pagar, roubava microfone, arrombava porta de lanchonete, dormia debaixo de palco, saía na mão em treta… Tinha de tudo… Mas tudo em amor à música.

Muita gente mais nova não sabe o quanto nós ralamos para construir a banda: dormir debaixo de palco no Recife, trocar porrada com skinheads e essas coisas. Se não fosse por tudo isso, não teria Sepultura.”

Max cavalera
“É difícil explicar, mas aconteceu algo muito especial com a gente. De tantas e tantas bandas, e a gente conseguir chamar atenção internacional e mudar um pouco a mentalidade dos gringos em relação ao Brasil. O pessoal começou a ver o Brasil de forma diferente depois do Sepultura, mudou… É uma coisa da qual eu tenho muito orgulho.

É doido porque desde o começo eu sentia uma coisa diferente. Uma das primeiras coisas que eu notei foi uma entrevista do Renato Russo nos anos 80. Era uma entrevista na Bizz, ele falava que o Sepultura era a banda do futuro do Brasil (risos). Eu pirei, achei muito maluco, nunca conheci ele, nunca tive o menor contato, o Legião Urbana era gigante nessa época, maior banda do Brasil. Devia ser 1988, 1989… Eu disse: `caralho, velho, chegou nossa hora, vai rolar uma coisa diferente com a gente que nunca rolou antes`. E aconteceu mesmo, vieram turnês no exterior, o Rock in Rio…

Sempre teve algo diferente. Até quando a gente não sabia tocar os instrumentos era legal porque as pessoas diziam que viam algo de diferente. (risos) O pessoal via o show da gente – tudo desafinado, a gente tocando mal pra caralho – e falavam:  `putz, os caras não sabem tocar, tá tudo desafinado, mas é legal, os caras têm uma atitude muito foda`.

O que rolou nessa época, em BH, o movimento death metal de BH… Mesmo tocando no mundo inteiro, não é o mesmo sentimento. Essa época do Barroliche, com o Chakal, Overdose, Mutilator… Foi uma doideira, velho. Mudou tudo mesmo, mudou a música no Brasil. Depois do Sepultura, mudou tudo.

É de outra época, mas eu tenho aqui na minha parede, uma página do jornal Estado de Minas com uma matéria sobre o show do Sepultura com Ramones, em BH (N.: em 1994, no Parque da Gameleira). Foi Overdose, Viper, Ramones e o Sepultura fechou o show. Foi um dos shows mais legais do mundo pra mim.”

Max

sepultura talvez em 88

Corta para a pergunta de fã:

Já ouvi falar que foi o Neurosis que fez o Sepultura começar a experimentar percussão na música de vocês. É isso mesmo?
Foi uma das bandas pesadas que a gente viu, eu, o Igor e todo mundo, naquela época, que tinha um lance de percussão. Um lance totalmente diferente da gente, meio industrial, sei lá… Nem sei categorizar o Neurosis. O Neurosis é uma banda completamente diferente de tudo. Mas, bom, eles tinham percussão e já a gente viu um show deles e ficou “oh! Que do caralho”. Eu lembro que o Igor disse: “que doideira que os caras estão fazendo”. Meio que a semente veio daí. Não lembro exatamente qual foi a ordem, mas quando eu fiz o Nailbomb, o Dave (Edwardson), baixista do Neurosis, tocou baixo nos nossos shows ao vivo.

E a primeira vez que a gente fez uma jam ao vivo com percussão foi na Argentina, com o Titãs abrindo para a gente (N.: abril de 1994, turnê do Chaos A.D., no Estádio Obras, em Buenos Aires. O Titãs, na abertura, tomou uma chuva de cuspes dos fãs do Sepultura.). Os Titãs subiram no palco com a gente e fizemos essa jam. Uma coisa do nada.

Outro dia eu estava vendo uns lançamentos da Roadrunner, eles lançaram um DVD especial do Roots. E uma coisa que eu nem me lembrava mais o Andy Wallace (N.: produtor do Chaos A.D.) comentou nesse DVD. A gente foi fazer uma foto em Phoenix, num lugar que tinha uma monte de coisa mexicana, umas coisas xamânicas, de magia e tal… Essa casa estava cheia de instrumentos de percussão e a gente fez uma jam session.

sepultura talvez em 88 bh

casa do paulo 1 hhkhjk

Acho que o Andy Wallace tá certo, a primeira jam de percussão que a gente fez foi nessa casa, que eu nem lembro de quem era ou onde foi. O Andy Wallace viu aquilo e disse: “seria legal se vocês gravassem alguma coisa assim desse tipo”. E acabou virando “Kaiowas”.

Mas o Neurosis, de todos nós, o Igor que era fanzão mesmo de Neurosis. Eu comecei a ouvir mais depois dele. O Igor sempre foi mais por esse lado, ele gostava de Neurosis, Amebix, Eyehategod… E pouco a pouco eu comecei a gostar dessas bandas também. O Igor sempre foi diferente. No Sepultura, já na época do Schizophrenia, nós escutávamos Hellhammer e Slayer e ele ia para o ensaio ouvindo Beastie Boys. Mas a gente sempre ouvia coisa misturada: Slayer, Morbid Angel, Dead Kennedys, Discharge, as bandas punk finlandesas…

Inclusive, a primeira vez que eu vi alguém usando uma camiseta do Kaaos foi você no clipe de “Arise”.
Porra, me roubaram essa camiseta durante uma turnê. É a camiseta que eu gostaria mais de ter de volta. Foi num stage dive que eu dei num show na Europa e neguinho catou a camiseta. Sempre fui muito fã dessa cena finlandesa. Inclusive, no ano passado (N.: 2006, esta entrevista foi feita em 2007, é bom lembrar), eu conheci pessoalmente o pessoal do Rattus. Eles estão ainda tocando e me fizeram um convite para participar do disco novo deles, que eu não sei quando vai sair ainda. Mas eu falei que faria com o maior prazer, seria uma honra. Agora, não sei se vai rolar, espero que sim.

Confira mais entrevistas e fotos raras dos arquivos do metal mineiro na série Iron Minas

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7 pensamentos sobre ““Sinto saudades da época que tocava nos botecos mais ferrados do mundo”, entrevista com Max Cavalera

  1. Parabéns! Ótima entrevista e esclarecedora da época que ainda existia o SEPULTURA, bons tempos! Vida longa aos Brothers Cavalera!!
    Saudações de Teresina-PI

  2. Ótima matéria e poucas perguntas mas bem curiosas mesmos, pois todos nós queríamos saber de onde veio a influência das percussões no som do Sepa. Estou no aguardo da próxima parte Sávio. kkkk

  3. Pingback: Quando Os NEUROSIS Usavam Rastas

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