Tomando umas cachaças com um Sonic Youth

Já fiquei dez anos sem beber. Resolvi voltar aos 28. Pagas as ocasionais taxas físicas e uns raros tributos morais, tem valido a pena o hábito. Acabei criando minha filosofia de boteco também. Vou poupar vocês dela, mas deixa eu só dizer umas coisinhas…

Esse ritual de beber em grupos, às vezes, transcende as meras convenções sociais que fazem a AmBev lucrar absurdos. Sentar com outras pessoas para dividir uma substância psicoativa e contar histórias é um negócio ancestral que cria elos. E álcool, na medida certa, é soro da verdade. Tem que ser muito bom ator para ser falso sob efeito etílico.

(Esta apologia à bebedeira não é desculpa pra encher a cara, é só uma observação contemplativa.)

Por esse motivo – as histórias –,  me animei quando, em abril de 2012,  recebi um email da Billboard Brasil, me perguntando se eu aceitaria ciceronear em BH o (ex?) guitarrista do Sonic Youth Lee Ranaldo e sua mulher, a artista plástica e fotógrafa Leah Singer. Junto do email que me escalava como guia turístico, seguia um pequeno roteiro listando coisas e lugares que o casal gostaria de ver e fazer BH: arte contemporânea, arquitetura, culinária local, beber cachaça…

Fotos: Dani Antonopoulos e Rodger Bridges

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Cachaça. A ideia de sentar pra tomar umas pingas boas com o sujeito me agradou muito. Imagina quanta história boa não tem um peão desses que passou mais de 30 anos excursionando com uma banda cujo sucesso é um dos mais improváveis na indústria musical.

Mas a expectativa da equipe de produção antes da sua chegada era a de que talvez não houvesse tempo para isso. Ou de que o casal estivesse muito cansado e pouco aberto a uma proposta boêmia dessa.

Só sei que, lá pelas 10 horas da noite do sábado do dia 28 de abril, estou entornando caipirinhas e  doses de cachaça com Lee, Leah e a fotógrafa da reportagem num bar, no bairro Santo Antônio.

Mas este sábado começou antes, às duas da tarde, no saguão do hotel onde os dois estavam hospedados. Foram convidados pelo festival de arte audiovisual Vivo Arte.Mov para apresentar em BH a performance Sight Unseen. Uma parceria do casal, mistura projeções de imagens, áudio, guitarras, percussão. A coisa toda propõe uma observação diferente dos sons e cenas da vida cotidiana. Um lado do guitarrista pouco conhecido pelos fãs do Sonic Youth.

Não faltava assunto para a ocasião. O casal vinte do Sonic Youth, Thurston Moore e Kim Gordon, tinham se separado há pouco tempo e os rumores sobre o fim da banda eram fortes. O Lee Ranaldo tinha acabado de lançar um disco solo, Between the Times and Tides. Bom pra caramba, bonito o negócio. É o seu primeiro trabalho solo que conta com uma banda e um repertório de canções propriamente ditas. Algo inédito para o músico, uma vez que suas empreitadas solitárias sempre tomaram um caminho ruidoso e experimental que poderia assustar até o mais devoto admirador do Sonic Youth. Além da própria perfomance com a Leah.

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De volta ao saguão. Lá estavam o gringos, tinham chegado naquele mesmo sábado. Para quem tinha enfrentado mais de 12 horas de voo, Lee e Leah pareciam animados. Estavam bem dispostos a realizar em tempo recorde – já que ficariam um fim de semana só – toda a programação que bolaram antes de botar os pés em BH.

Lee Ranaldo é meio como a sua voz soa nas poucas canções do Sonic Youth que canta: elegante, cool (esse termo é foda, mas não consegui achar outro), fala baixo. É bem humorado, mas econômico com as palavras. Cinquenta e seis anos, dono de um narigão italiano – que faz jus à origem do seu sobrenome – e uma uma cabeleira grisalha que contrasta com grandes olhos escuros, às vezes até meio arregalados. Ao longo de todo o fim de semana insistiu em vestir um blazer de brim azul que só tirava quando o calor estava demais. Leah é mais falante, tem um ar mesmo de artista plástica, sabe como? Formam um casal bem simpático.

Nosso primeiro destino do dia é um restaurante de comida típica mineira na Pampulha. Na van, já dá para notar que Lee Ranaldo e Leah Singer pesquisaram bem o lugar em que estavam pisando. Olham e apontam curiosos para a cidade do lado de fora da janela, arriscam algumas palavras em português, lendo os sinais e placas do percurso. Perguntam sobre futebol (“Nossos filhos são loucos com futebol e fãs do Ronaldinho”), Oscar Niemeyer, arte contemporânea, arquitetura, pão de queijo, Burle Marx… Lee se empolga com as pichações dos prédios: “quero depois catalogar isso, estou pensando em usar na arte do meu próximo disco” (Não rolou).

Quando fica sabendo que chegou um dia depois de Milton Nascimento ter se apresentado num show de comemoração de seus 50 anos de carreira, se mostra frustrado.“Adoro os discos dele da década de 70 e o pessoal do Clube da Esquina. É uma pena eu ter chegado depois dessa apresentação”.

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O almoço é mineiro demais da conta. Feijoada, jiló, costela de porco, angu… E couve, verdura que encantou a dupla. “Como é que a gente faz pra levar esse negócio pra Nova Iorque?”, perguntavam.

Um dos produtores do festival sentados à mesa puxa conversa sobre os atentados do 11 de setembro de 2001. O músico mora com a mulher e os dois filhos, Sage e Frey, em Tribeca, bairro de Lower Manhattan. O loft deles fica a cinco minutos de caminhada de onde World Trade Center foi erguido. Eles estavam em casa no dia dos ataques.

“Nossas crianças eram bebês na época, um tinha dois anos e o outro apenas seis meses. Ficamos aterrorizados! O barulho foi ensurdecedor e, ao nosso redor, nossas janelas ficaram completamente enegrecidas. Nesse tempo, o estúdio do Sonic Youth era bem perto do meu apartamento. Um pedaço grande do motor de uns dos aviões caiu justamente em cima prédio onde ensaiávamos”, conta. “Ainda assim adoro Nova Iorque e as pessoas já superaram essa tragédia”, Leah dá uma contemporizadinha.

De lá partimos para a Igreja da Pampulha, trabalho que tornou Oscar Niemeyer internacionalmente famoso, e seguimos para o Mercado Central de Belo Horizonte. No vernáculo de comparações meio preguiçosas do jornalismo musical, ficou comum associar Lee Ranaldo à imagem de George Harrison,  o beatle cool, místico, quieto e misterioso. Estamos andando e papeando pelos corredores do Mercado Central e Lee Ranaldo dá umas deixas de que a comparação não é descabida.

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“Por causa de um professor da época da faculdade, eu comecei a meditar. Pratiquei meditação zen por anos, mas parei e agora quero retomar. Foi algo que me ajudou muito a lidar com a inconstância das coisas da vida. Não digo que tenho religião, mas a que mais agrada é o budismo. Mas não digo que sou budista, até mesmo porque nos EUA tornou-se moda dizer que é budista”, ele me conta. E os carregadores do mercado esbarram em nós no meio daquele monte de pimentas, queijos e cheiro de torresmo.

Pergunto se isso afeta sua música. “Sim, pode ser. Acho interessante que o mundo esteja se tornado mais espiritualizado e deixando aos poucos de supervalorizar a razão. É importante para nos tornarmos mais intuitivos. John Medeski, que gravou teclados em meu último disco, sempre vai ao Peru tomar Ayahuasca com um xamã. Quero fazer isso um dia”.

Saímos do mercado, fomos embora para o hotel para dali sentar num bar e beber umas cachaças. No caminho até o carro passamos pelo famoso Quarteirão do Soul. Pra quem não é de BH, é o seguinte: uma turma que periodicamente leva tapetes, toca discos e vinis para uma rua no centro da cidade e faz uma festa de black music ali mesmo. Já é tradicional e os habitués do evento vão à caráter e dançam pra cacete. Os dois acharam aquilo incrível. Ficaram lá arriscando uns passinhos tímidos, dando atenção para uns poucos fãs que reconheceram Lee e papeando com a rapaziada do soul.

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Quando Leah e Lee aceitaram o convite de vir para BH fizeram uma pesquisa bem OK sobre a cidade. Pesquisando, caíram num artigo do New York Times sobre o bar com a maior carta de cachaças do Brasil, o Via Cristina, no bairro Santo Antônio. Eu mal lembrava desse lugar. Trabalhamos bem no bar. Além de não sei quantas caipirinhas, nós quatro (Lee, Leah, a fotógrafa Dani e eu) provamos seis tipos diferentes de cachaça.

Beber com os dois é como beber com aqueles boas praças que você calha de conhecer num mesa bar, aquele povo gente fina que é amigo do amigo do seu amigo. Gente interessante que bebe sem preocupação e conversa despretensiosamente. A diferença é que os causos contados ao longo da noite não são sobre o camarada lá que fez faculdade com você, o conhecido que abriu não sei o quê e está se dando bem com seu pequeno negócio, seu vizinho que se mudou para o exterior, são sobre figuras públicas e umas loucurinhas do mundo da música.

Vocês vão me desculpar, mas nesse momento já tinha cachaça demais na minha corrente sanguínea. E como a falta de falta de educação me impediu de meter um gravador na mesa para registrar o papo, lembro de poucos detalhes.

Mas a coisa era mais ou menos assim: surgia um assunto sobre a trilogia de filmes Senhor dos Anéis, um deles falava “oh, conhecemos o Viggo Mortensen uma vez na Espanha. Puta cara elegante e gente fina. Na época ele estava andando muito com o nosso amigo Pedro…” Pedro? “Pedro Almodóvar…” Certo.

“Vi sua tatuagem do Black Flag no pulso, bem legal…” Gosta? “Sim, adoro. Semana passada estava almoçando com o Raymond Pettibon e…”

E mais histórias sobre turnê com o Neil Young, amizade com beatniks Allen Ginsberg e William Burroughs, expor em Viena trabalhos em partituras composta por cogumelos alucinógenos, sobre “um parente que viajava muito pelo mundo…” Por quê? “Err… ele era traficante…”

Bom, então por uma conversa embriagada numa mesa de bar dá para chutar que eles tiveram – têm ainda – uma vida bem interessante. É o mínimo que dá para dizer.
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No dia seguinte, domingo, partimos de manhã para Inhotim, o imenso museu em Brumadinho, a 60 km de BH, que reúne diversas obras aclamadas de arte contemporânea. Com o cronograma apertado, tivemos que correr para conseguir ver o máximo de obras do acervo de mais de 500 espalhadas por 100 hectares de jardins botânicos, pavilhões, galerias e lagoas.

No carrinho elétrico que nos levou até as galerias, Lee recebe uma mensagem pelo smartphone do caçula Frey, dizendo que havia pintado o cabelo de roxo. “Isso é o que acontece quando você deixa seu filho com outras pessoas”. Aliás, se teve uma coisa que ele não parou de fazer ao longo dos dias foi fuçar no smartphone dele. Outra coisa foi falar que ele estava louco para tocar no Brasil em setembro.

Faz sentido. O sujeito estava empolgado com o novo disco e ansioso por causa da turnê pelos EUA e Europa, que começaria no dia 5 maio. “Estou feliz com o jeito como o disco saiu. As composições foram saindo do nada do violão e partir daí fui desenvolvendo-as. Quando vi que tinha um bom material convidei pessoas de quem sou próximo e que gosto do trabalho para me ajudarem na gravação. Foi um processo bastante prazeroso e feito num ambiente muito familiar”.

Com a exceção do tecladista John Medeski e do guitarrista Nels Cline, do Wilco, a banda que o acompanhará na turnê é a mesma que gravou o disco: o guitarrista Alan Licht, o baixista Irwin Menken, e o baterista Steve Shelley, companheiro de guerra do Sonic Youth. “Quero vir tocar no Brasil com minha banda em setembro”, disse e manteve-se repetindo isso o fim de semana inteiro: setembro, setembro, setembro.

À noite, nos reencontramos após a performance com Leah. A apresentação feita no domingo no Palácio das Artes foi vigorosa. Lee Ranaldo, contra as projeções feitas por sua mulher, golpeia sua guitarra com baquetas, outras vezes com um arco de violino. Arrasta sua guitarra pelo chão. Pendura-a em cabos de aço presos ao teto e a faz girar com força e velocidade. Chega a ser até meio perigoso, pra te falar verdade.

Lee caminha pela plateia com firmeza, imerso na sua atividade. Mas não faz soar uma nota sequer do instrumento. O que sai da guitarra é só barulho. Isso durante 50 minutos de apresentação.

Pode parecer até abstrato demais. E até é. É meio hermético, sim, mas a intensidade e o diálogo sutil entre as imagens projetadas e seus movimentos e os barulhos que saem dos amplificadores mexe visivelmente com as 200 pessoas presente na sala. E mexeu comigo.

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Saio dali achando que Lee Ranaldo está em sua plena forma. E agora, sem o Sonic Youth, tomou os extremos sonoros do grupo e os dividiu em duas frentes de trabalho. Uma, o experimentalismo e o ruído, no trabalho que faz com Leah Singer. Outra, a canção e o refrão em sua produção solo.

A última vez que Lee Ranaldo esteve no Brasil com o Sonic Youth foi em novembro de 2011, quando a banda vez seu derradeiro show no festival SWU, em Paulínia (“Foi legal, mas era um festival grande demais. Prefiro públicos menores.”). O show foi realizado um mês depois de Kim Gordon e Thurston Moore anunciarem o fim de seu casamento de 27 anos e uma paralisação por tempo indeterminado das atividades da banda.

Nesses dias, Thurston Moore e Kim Gordon evitavam falar sobre o possível fim da banda e o Ranaldo estava sendo uma espécie de porta voz do assunto.  As respostas para a imprensa já tinham se tornado elegantemente protocolares: “estamos num hiato”.  Em BH não foi diferente. Todos que o abordavam sobre a pendenga recebiam as mesmas respostas pacientes do músico.

No café do Palácio das Artes após a performance, bebendo (de novo) umas boas taças de vinho, comento sobre sua plenitude artística e minha tese sobre os dois extremos (ruído e canção) e brinco:  “você nem precisa mais de um banda”. “Mas gostaria que a banda voltasse”,  responde com a voz quase embargada.

Nesse momento, uma mulher com uma criança nos interrompe. Ela diz que a sua filha acha que Lee Ranaldo não gosta da sua guitarra pois a acertou várias vezes durante a performance. Ele ri. “É um jeito diferente de demonstrar amor”. E não volta mais no assunto Sonic Youth.

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Na segunda-feira, nos encontramos para um almoço e um café rápido, num restaurante tradicional no Edifício Maleta, no centro de BH. Mais caipirinhas.

Leah me conta da vez que ela e Lee se encontraram com o Dalai Lama num jantar beneficente.  “Foi um desses jantares para conseguir doações para a causa tibetana. Eles são geralmente organizados pela Tibet House e costumam ser caros. Como nós fomos convidados, nós fomos sem pagar (risos). Foi no restaurante do hotel Four Seasons, um lugar super chique. Tinha um monte gente rica esperando solenemente pela entrada do Dalai Lama. Tudo tinha um ar de muita solenidade.

Ele entra no restaurante seguido por dois acompanhantes, provavelmente os assistentes dele. O restaurante parece uma floresta, cheia de árvores, mas são artificiais. O Dalai Lama, senta, não diz uma palavra e fica admirando com calma aquelas árvores. Depois de um tempo ele fala: ‘é impressionante a tecnologia ocidental, vocês podem ter uma floresta inteira até mesmo dentro um restaurante!’ Logo, um dos acompanhantes cochicha algo no ouvido dele. O Dalai Lama diz: ‘ah! Não são de verdade!’ e começa a rir dele mesmo, gargalhar na verdade, o que fez todo mundo risse também. A partir daí o clima de solenidade sumiu.”

Mais umas caipirinhas e a gente se despede. “Muito obrigado pela companhia. Espero vê-lo em setembro”, diz Lee. Ele não veio em setembro de 2012, mas voltou para o Brasil em julho em 2013 com outro bom disco debaixo do braço, Last Night on Earth.

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