O metal mineiro pelos olhos noruegueses de Fenriz, do Darkthrone

Cariocas se gabam de morar na cidade de onde saiu a bossa nova, gênero que ganhou fama internacional e influenciou até o Frank Sinatra. Baianos se orgulham de viver no berço onde nasceram os tropicalistas. Belo-horizontinos gostam de falar de Milton Nascimento e do Clube da Esquina. Há também os que falam do sucesso mundial do Sepultura.

Mas ainda tem aqueles que têm orgulho de morar na cidade de onde surgiu o Sarcófago. “O pai do black metal moderno”, alguns se arriscam a dizer. É dito que a banda é responsável por influenciar diversos grupos pelo mundo inteiro por conta da sua música rápida e caótica, seu visual agressivo e suas temáticas satanistas. É comum ouvir admiradores falarem: “pode perguntar para os noruegueses!”.

Foi o que eu fiz. Entrei em contato com o músico norueguês Gylve Fenris Nagell, mais conhecido como o Fenriz do Darkthrone.

Fenriz viveu toda a formação, ascensão e queda(?) da famosa cena de black metal norueguês. Cena que ficou famosa por, no final dos anos 80 e início dos 90, gerar bandas como o próprio Darkthrone, Burzum, Gorgoroth, Immortal, Mayhem, Emperor e outras.

E, claro, pela violência entre alguns de seus membros e a associação a incêndios de antigas igrejas da Noruega. Coisa que foi bastante explorada no livro Lords of Chaos e no documentário Until The Light Takes Us.

Perguntei ao Fenriz sobre o Sarcófago, o metal mineiro e sua influência sobre a cena norueguesa. Ele respondeu essas questões e além.

(Agradeço aqui a uma específica confraria de amigos de longa data que me ajudaram nas perguntas. Valeu, FnF!)

Fotos: Ashley Maile e Vanda Gui

Darkthrone - Portraits

Quando você lançou a coletânea Fenriz Presents … The Best Of Old School Black Metal, em 2004, lá estava uma faixa do Sarcófago. Eu gostaria que você me contasse como o Sarcófago ajudou a forjar o som e o visual do  black metal. O que você considera único no Sarcófago?
Em primeiro lugar, esse tipo de som muito caótico era o que tinha de mais extremo na época. Mas o Sodom já tinha feito isso alguns anos antes no disco In The Sign of Evil. É um som que vem do caos que surge do fato de não saber tocar assim tão bem. O que também significa que é totalmente original e que ninguém consegue fazer cover dessas músicas, porque toda a configuração da banda e o nível de falta de habilidade com os instrumentos é o mais importante, mais importante que qualquer estrutura musical. Ou seja, é isso definitivamente arte por natureza, por assim dizer.
Eu nunca seria capaz de criar algo caótico assim. E eu gosto demais de ouvir bandas assim porque eu não consigo tocar desse jeito (é chato ouvir bandas que soam como a minha própria banda).
É um negócio dos infernos, eles queriam criar uma vibração necrótica realmente satânica e eu acho que eles conseguiram completamente ser bem sucedidos nessa criação com INRI. Aquilo é um clássico,  e nos anos 80 não tínhamos muitos discos que podíamos chamar mesmo de black metal como este. Todo os álbuns de black metal dos anos 80 são clássicos e são 95% da minha inspiração para o Darkthrone, uma vez que mal existiam discos de black metal nos anos 90 até nós começarmos a tocar.

Sarcofago

Quando você ouviu Sarcófago pela primeira vez? Qual disco foi?
Foi o INRI, é claro. Acho que comprei pela mailorder da Wild Rags, dos EUA. Deve ter sido em 89, eu acho. A Cogumelo não tinha distribuição aqui na Noruega. Eu tinha uma demo que eu acho que eu consegui trocando fitas. Algo lá para 88, então eu sabia que era eu podia esperar algo abissal e caótico. O disco totalmente certo e errado ao mesmo tempo. Bem o tipo de som que muitas vezes acaba virando cult e depois se torna um clássico.

As pessoas aqui no Brasil costumam dizer que o Sarcófago foi uma enorme influência sobre os primeiras bandas de black metal norueguês. É verdade? Se sim, como Sarcófago influenciou você, suas bandas e seus amigos? O corpsepaint é algo que veio da influência do Sarcófago ?
Não, não musicalmente. Nenhuma das bandas norueguesas soou nada como Sarcófago, Sodom antigo ou Blasphemy, se esse é o caso. Mas todo mundo escutava! O Sarcófago deu todo um sentindo  black metal verdadeiro para a coisa, é claro , mas o estilo caótico e meio tosco só não foi copiado aqui na Noruega (pode ter havido algumas bandas menores fazendo isso em 92-94, mas eu não conheço).  O Beherit, no início, pareciam com o Sarcófago, eles eram da Finlândia.
Eu considero esse o melhor jeito de tocar black metal, esse estilo caótico dos anos 80. Algo feito de um jeito transgredido pelo Teitanblood hoje em dia, eu diria. Ou como o Sinoath, da Itália, dos anos 90. Eu nunca poderia tocar assim, de jeinho nenhum. O Darkthrone sempre teve uma estrutura bem definida em tempo 4/4.
Comecei a curtir Sarcófago cedo, mas não tão cedo. Eu comprei o vinil em 1989 e logo amei aquela vibe satânica super necro. Era uma daquelas bandas que nos faziam acreditar no black metal. Mas, como eu disse anteriormente, o estilo musical do Sarcófago não foi copiado muito aqui na Noruega, não.
Sarcófago foi uma das bandas que evidenciaram muito o corpsepaint, a pintura esteve presente  difusamente no mundo todo aos longo dos anos 80. Na Noruega, foi o sueco, Pelle (Dead), que usou mais no início. Eu usei pela primeira vez em um vídeo no início de 1990, mas era mais para parecer como primeiro disco do Slayer, de 1983.

sarcofago_04

E as outras bandas da cena de Belo Horizonte: Mutilator, Holocausto, Chakal, Sepultura…?
Em 1986 , tinha meia página na revista Kerrang dedicada às bandas do underground. A seção chamava Deathvine e era escrita por Don Kaye. Ele fez uma resenha do Bestial Devastation, dizendo “Sepultura tem um som que faz flores ficarem pretas “. Isso, pro molequinho que eu era na época, soou muito interessante e me fez mandar um dinheiro para o endereço, pedindo tanto o split com Overdose quanto o Morbid Visions, que estava prestes a sair.
Um ano mais tarde eu recebo um pacote do Brasil . Era do Max se desculpando por ter demorado tanto. Na carta, ele dizia que o cara que estava entregando suas correspondências pegou o dinheiro e jogou fora um monte de cartas. Mas o Max descobriu isso e conseguir achar algumas das cartas. Uma delas era a minha. Para se desculpar, ele também incluiu o novo álbum do Sepultura, o Schizophrenia, um dos melhores discos de thrash metal já lançado. Então fomos um dos primeiros garotos, o Darkthrone,  a ter nas mãos o Schizophrenia no mundo todo. Piramos com isso! E o disco ainda inspirou alguns riffs  tanto da nossa primeira quanto da nossa segunda demo. Eu ainda coloco para tocar em programas de rádio “Antichrist”, do Bestial Devastation.
Euronymous, do Mayhem, era fã do Mutilador e do Holocausto, acho. Mais tarde, comecei a ouvir essas bandas também. Eu me correspondia com vários zines brasileiros na década de 80. Também trocava cartas com a banda Mystifier, eu tenho o primeiro compacto deles. Mas eu acho que eles pensam que eu passei a perna neles ou algo assim. Sinto muito por isso.

Bibika - Mutilator

Na sua opinião , Bestial Devastation, do Sepultura, pode ser chamado de black metal ?
Sim. A música “Antichrist” com certeza. A banda belga Possession fez um cover de alguma outra faixa desse disco há pouco tempo, para você ver o quanto esse material era black metal. Mas lembre-se de uma coisa, os anos 80 são a sopa primordial do death, black, thrash, muitos lançamentos tinham todos esses estilos ao mesmo tempo. E eu prefiro assim. Nada nesta vida ou no universo é 100%, mas é que é o metal é um estilo de música baseado no exagero. Portanto, muitas vezes dizemos “total black metal”, por exemplo, mas nada nunca é total.

No final dos anos 80 e início dos anos 90 , ideologias de extrema direita eram um tanto populares entre as bandas de black metal norueguesas. Se os caras dessas bandas costumava ouvir bandas brasileiras , como é que eles se relacionam com essa coisa vinda do Brasil, um país tropical completamente miscigenado e multicultural ?
É, isso veio esgueirando-se devagar por meio de um nacionalismo romântico e pegou forte por volta de 1992. Mas não havia nada disso no final dos anos 80. É um assunto difícil , eu mesmo escrevi diversos tipos de letra de música e tenho escrito todo minha vida – e passando por diferentes períodos e tendo as mais variadas formas de pensamento. Mas eu sempre ouvi todo tipo de música desde pequeno, acho que música é bem mais importante que qualquer ideologia.
Eu falo por mim, não posso falar pelo outros. É um tema difícil e qualquer argumentação vai falhar. É como se eu argumentasse que se, as letras do Sarcófago eram misóginas, então , logicamente, todos os fãs Sarcófago não deve gostar de mulheres, certo? Você vê, isso simplesmente não funciona assim. Eu nunca ouvi ninguém aqui dizendo que tinha um problema com bandas de qualquer outra nacionalidade. Mesmo.

Confira mais dos arquivos do metal mineiro na série Iron Minas aqui

Darkthrone - Portraits

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43 pensamentos sobre “O metal mineiro pelos olhos noruegueses de Fenriz, do Darkthrone

  1. muito boa a entrevista, uma grande pena ter sido pequena…mas enfim voce conseguiu desvencilhar essa icognita que permeava nossas dúvidas quanto a influência do Sarcófago na noruega. Parabens novamente pela excelente materia.

    • Gostei da parte que ele diz que não pode falar pelos outros, a galera aí tem que entender isso: é subjetivo. Depois que eu procurei o significado exato daquela palavra no Google tudo ficou mais claro pra mim. E também observei que mudei várias vezes minha maneira de pensar sobre diversos assuntos, isso se chama evolução. Parabéns pela matéria!

  2. Excelente entrevista e matéria. Mas aqui no Rio nasceu uma grande banda de metal que começou tudo, Dorsal Atlântica. Acho que o real berço do metal está no Rio. Eles possuem demo desde de 82, época que ainda se tinha a ditadura. Em 85 eles lançaram o ultimatum, o primeiro álbum de metal nacional.

    • Léo, não falo do metal mineiro em detrimento do de outros estados. Nunca que ignoraria o Dorsal Atlântica, mas é que a proposta desta série é falar do metal de Minas.
      Abraço!

      • E logicamente, a sonoridade mineira é bastante distinta da carioca, paulista, gaúcha, etc…e a questão envolve justamente esta sonoridade, que você não vai encontrar no Dorsal.

    • Em 82 já tinha Stress e SP Metal pia. Mas se bem que o Rio pode ser considerado o berço do metal mesmo já que o Stress gravou o álbum por aqui.

    • Discordo. Acho que o Stress foi a banda de metal que começou tudo em terras tupiniquins. Em 1982, eles lançaram um disco homônimo que é o primeiro álbum de metal nacional, não o split Ultimatum, gravado em 1984..

  3. Muito bom, apesar de apreciar e ter o Metal como gênero musical preferido, ainda tenho que aprender muito sobre música.

  4. Da lhe mais uma ótima entrevista cara! Eu sempre fiquei pensando nessa última pergunta e finalmente tive minhas dúvidas esclarecidas rsrs. É uma pena mesmo que todas essas entrevistas FODAS não tenham sido publicadas. Você já pode ir adiantando quem serão os próximos entrevistados?

  5. o cara nao admitiu e ficou em cima do muro em varias respostas,mas como ele disse, teve outras bandas q influenciaram o sarcofago e sepultura no inicio como possessed,kreator,destruction,slayer,sodom e obviamente o venom.

  6. A ultima pergunta foi bem bostejada.
    O Brasil é um país miscigenado? Sim, é. Mas, não em totalidade, tendo em vista que durante a WWII, o maior braço do partido Nacional-Socialista fora da Alemanha encontrava-se no Sul do Brasil.

  7. À luz de minhas humildes opiniões, devo dar créditos à essa defesa à originalidade norueguesa que Fenriz ergue e clarifica, afirmando que a influência brasileira não era musical, mas quanto à indumentária. Creio que usar o termo “sentido Black Metal verdadeiro para a coisa” é por demais abrangente e não esclarece qual seria esta “real” influência além-estética. Seriam as temáticas líricas? De forma geral, é uma grande honraria que este país em decadência étnico-cultural tenha contribuído para tão majestoso “movimento” internacional.

  8. Mais uma vez ótima entrevista Sávio. Gostei demais desse trecho que o Fenriz diz,…” Mas eu sempre ouvi todo tipo de música desde pequeno, acho que música é bem mais importante que qualquer ideologia”. Perfeito!!!!

  9. excelente entrevista, uma coisa que o FENRIZ falou que é importante é que o black metal oitentista não havia um padrão de como se deveria tocar, cada banda fazia seu próprio som. e o SARCOFAGO foi mais influencia pra bandas de WAR/NUCLEAR BLACK METAL como DEIPHAGO, BLASPHEMY, BEHERIT, REVENGE etc muita gente de outros estilos mias modernos de black metal acha que o war metal é tudo igual, porem esse estilo andou evoluindo bastante e chegou no auge de 5 anos pra cá com uma banda norte americana chamada NYOGHTHABLISZ que faz um som que da a sensação de estar no inferno

    sobre as influencias do DARKTHRONE no black metal, creio eu que, quando eles fizeram o A BLAZE IN THE NORTHERN SKY, eles tiveram parte de suas inspirações na demo SATANAS TEDEUM do ROTTING CHRIST de 1989, eu ja vi entrevista que o FENRIZ cita essa demo do ROTTING CHRIST, inclusive entrevista de 1990 quando o fenriz estava na transição do DEATH pro BLACK METAL.. e no A BLAZE tem um agradecimento a uma banda de black metal da época de 1992, que era da MALASYA, que fazia um som realmente autentico antes dessa padronização pos 1994, mas não lembro o nome da banda agora.

  10. Tenho 18 anos e adoro o Fenriz… ele foi uma das grandes influencias para mim começar a ouvir esse tipo de som, tosco e totalmente Black Metal!
    Adorei a materia e posso dizer que o Brasil tem sim bandas boas!

  11. E eles tinham que vir com perguntas politicamente corretas típicas do brasileiro socialista chupa pinto do Fidel Castro e de toda a escória sionista comunista!! Vá te foder!! E daí se as bandas norueguesas de black metal são de extrema direita? O que você tem que ver com isso? Vai te tirar um pedaço? Tu mora lá por acaso? hahaha

  12. Cara, que entrevista insana! Da pra aprender muita coisa, Fenriz com toda certeza é um cara que sabe o que fala e define o black metal como ninguém! Parabéns.

  13. Parabéns pela entrevista, muito boa mesmo! Cada vez que leio tenho uma nova percepção sobre o tema abordado.
    Continue realizando esse trabalho cultural!

  14. Interessante como só se fala em black metal hoje em dia e nos anos 80 considerávamos o Sarcófago (apesar das letras e visual) uma banda de Death Metal. Interessante também o fato do primeiro disco do Dark Throne ser death metal, sendo que nesse mesmo período o black metal “estourou” e eles viraram a casaca. Esse Fenriz pra mim é um bostão.

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