Um amigo meu e o stage dive mais longo da história

Conheço um monte de histórias que começam com “um amigo meu…”. Sabe esse tipo de história? Aquelas inconfessáveis em algum nível ou outro? Ou cujo narrador prefere proteger a identidade do protagonista por alguma razão qualquer? Sabe essas? Essas histórias são boas.

Ao longo dos anos acumulei algumas dessas. Porque participei, testemunhei ou só escutei. Começo aqui uma série de casos de amigas e amigos meus. Esta primeira é sobre o stage dive mais longo da história.

Um amigo meu era skatista, morava em Belo Horizonte. Devia ter uns 16 ou 17 anos. Quando não estava no colégio, estava (matando aulas e) arrastando suas roupas três ou quatros números maiores que o seu em busca de lugares para andar de skate.

Ou estava assistindo a vídeos de skate, tentando aprender manobras novas e descobrir as bandas da trilha sonora. Ou estava curtindo um som em casa ou em algum show. Gostava de punk rock, hardcore, “música alternativa” em geral – como diziam na época, o início dos anos 90.

Começo da década de 1990, você deve saber: os três anos e pouco, quase quatro, que se seguiram após a explosão do Nevermind, do Nirvana, fizeram com que a cena musical mundial passasse a se pautar pelo rock independente. O rock brasileiro foi na mesma leva.

Isso criou uma atmosfera de renovação e uma certa ânsia por novidade que empolgava os jovens apreciadores de música. Lembre-se: não havia internet, não havia MP3. A informação levava bem mais tempo para circular. Quando ouvia-se falar de uma banda ou lia-se a respeito, poderia demorar meses para o peão chegar a ouvi-la. Isso gerava um tipo de expectativa em torno de discos, fitas e bandas que hoje não existe mais. Era a ótima a sensação. Mas a coisa também podia ser catastroficamente decepcionante.

O caso era que estava rolando um papo sobre uma nova e promissora banda na cidade. Pelo telefone sem fio daqueles dias, falava-se que ela combinava música pesada com pandeiro – algo sintomático da época. Essa turma se chamava Virna Lisi.

Meu amigo skatista não gostava de pandeiro. Mas era novidade, os amigos falavam que podia ser “o novo Sepultura” e tinha guitarra, rock pesado e tal e coisa. De guitarra e rock pesado ele gostava. Ficou curioso.

Um dia ficou sabendo que o tal do Virna Lisi faria um show junto com Atack Epiléptico e Gothic Vox. Mistura que só os anos 90 poderiam colocar num mesmo palco.

Era uma sexta ou um sábado o dia da apresentação. Meu amigo reuniu uma turma de camaradas e garrafas de vinho Chapinha para passar o tempo até a hora do show chegar. Preencheu a tarde e o início da noite andando de skate com os amigos e fazendo paradas estratégicas para sentar no meio fio e apreciar um bom vinho tinto suave de mesa.

Como a apreciação do Chapinha foi ostensiva, meu amigo chegou flutuante ao lugar do show. Lá, as bandas se apresentaram nessa ordem: Gothic Vox, Atack Epiléptico e Virna Lisi.

Meu amigo viu o show do Gothic Vox com dificuldade. A banda parecia meio turva no palco, o som chegava um pouco devagar até ele, a lei da gravidade do lugar parecia funcionar de um jeito diferente…  Não estava muito bom. Resolveu aguardar o fim do show para sacudir o esqueleto ao som punk raivoso do Atack Epilético.

Atack Epiléptico sobe ao palco. Aê, caos! Meu amigo se empolga, pula, poga, dá socos no ar, empurra os amigos, dá ombradas em ombros alheios dentro do mosh pit. “Vou dar um stage dive”, decidiu.

Dificilmente você não saberá o que é um stage dive. Mas, por vias das dúvidas, vamos lá: stage dive consiste em subir no palco durante a apresentação de uma banda de rock e despencar lá de cima em direção ao público. No Brasil, sabe-se lá bem o porquê, há quem chame isso de mosh.

(É importante que você aperte play na faixa baixo para entender o contexto das manobras que virão a seguir:)

O amigo sobe até o palco. A princípio, sem obstáculos. Mas quando está quase concluindo a escalada uma tonteira suave o acomete. Não, não é bem uma tonteira. É… É algo diferente, é um… Um sono. Um soninho gostoso…

“Acho que vou me deitar por aqui mesmo”, pensou sem pensar o amigo. E, enquanto a banda fazia um barulheira descomunal, recostou a cabeça em uma das caixas de retorno e se ajeitou ali no palco mesmo. Dormiu, capotou.

Silêncio. As luzes se apagam. Infinitude. Escuridão.

Zzzzz…

De repente a paz é quebrada por um batuque crescente. Batidas de… pandeiro.

Dormiu Atack Epiléptico e acordou Virna Lisi. Grogue, se dando conta daquela cena, o amigo se levantou e pulou em cima da plateia. Foi por esse motivo, afinal, que ele tinha subido no palco.

E esse foi o stage dive mais longo da história do rock.

Foto: Chad Horwedel (Creative Commons)

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Um pensamento sobre “Um amigo meu e o stage dive mais longo da história

  1. massa demais, fui num show do virna lise no caverna (hoje matriz) junto com a lendaria banda overdose…. quem diria que o overdose tocou no matriz hein?kkk

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