Idelber Avelar e a visão acadêmica ma non troppo do metal mineiro

Quando comecei a pesquisar o metal mineiro, no fim de 2005, logo me deparei na Internet com um artigo acadêmico sobre o assunto. Fiquei surpreso por encontrar o texto Heavy Metal Music in Postdictatorial Brazil: Sepultura and the Coding of Nationality in Sound (PDF), publicado no Journal of Latin American Cultural Studies e escrito por um pesquisador da universidade americana Tulane.

Fui procurar mais produções do mesmo autor. Achei De Mílton ao Metal: Política e Música em Minas. O autor calhou de ser o belo-horizontino Idelber Avelar, PhD em literatura e estudos culturais, conhecido no Brasil por seu antigo blog O Biscoito Fino e a Massa e colunas na revista Fórum. Há sete anos nós trocamos uma ideia por email sobre o metal mineiro. A rápida entrevista  você confere aqui:

Fotos: Naty Tôrres, Vanda Gui e acervo de Silvio Gomes
foto naty torres

Em seu artigo “De Mílton ao Metal: Política e Música em Minas”, você sugere que há uma relação entre o Clube da Esquina e a cena metal de BH dos anos 80. O que há de comum entre esses dois?
Não há uma relação direta, claro. Mas é a perda de representatividade da MPB entre a juventude que abre o caminho para as tribos que surgem nos anos 80, entre elas o metal. Ao longo dos anos 70, a MPB havia representado anseios de rebeldia e transformação social. Na medida em que a MPB vai sendo incorporada à indústria cultural e seus ícones vão se transformando em estrelas globais, a juventude começa a se apropriar de um estética roqueira que se opõe a ela. O metal surge negando, rasgando, implodindo a estética emepebista. O Clube da Esquina e o heavy metal compartilham uma relação com a iconografia cristã de Minas Gerais, mas a tomam em sentidos contrários. Mílton tentava reapropriá-la para uma política fraternal e emancipatória (pensemos em discos como Sentinela e Missa dos Quilombos). O heavy metal usaria uma estratégia oposta: esvaziaria essa simbologia de todo o significado, revirando-a pelo avesso e  submetendo-a ao furor do satanismo.

No seu entender, por que logo a capital de Minas calhou de ser a meca do metal brasileiro durante os anos 80?
É difícil determinar por que uma cena musical surge num determinado lugar e não em outro. Há uma história roqueira em Minas que se remonta não só ao Clube da Esquina, mas também a bandas como O Terço ou Som Imaginário. 1985 marca o ápice do que eu chamo de “tancredização” do Clube da Esquina, com o sucesso de “Coração de Estudante.” A temática do “amigo” chegava a um momento de particular pieguice. Isso coincide com o giro satanista do death / thrash metal, que adquire para os jovens mineiros um sentido todo especial. Tratava-se de desmontar séculos de simbologia católica. Talvez o thrash metal tenha “pegado” em Minas exatamente pela herança cristã ser tão forte no estado. Belo Horizonte não deixa de ser um cenário bem propício para a explosão de tribos como o heavy metal: a cidade é imensa, caótica, suja, barulhenta, sobre-populada e cheia de igrejas.

Sepultura, 1986: estação perfeita para fazer pose de mal na porta de igreja

Sepultura: quando legal era fazer pose de mal na porta de igreja

Você acha possível dizer que BH presenciou durante esse período a cena metal mais importante do Brasil ou talvez até mesmo da América Latina?
Sem dúvida, em qualidade e em quantidade BH foi e continua sendo a capital latino-americana do heavy metal. Aqui surgiu o primeiro selo brasileiro dedicado quase que exclusivamente ao metal (a Cogumelo Records), daqui começaram a se disseminar pelo mundo milhares de fitas cassette de dezenas de bandas iniciantes, aqui surgiu a mais respeitada e cultuada banda de thrash metal da América Latina, talvez do mundo (o Sepultura).

O marco zero foi o lançamento do split album do Overdose com o Sepultura, em 1985, e a coletânea Warfare Noise I, de 1986, que reuniu Chakal, Mutilator, Holocausto e Sarcófago. Essa coletânea foi chave para disseminar o metal mineiro nacional e internacionalmente. Em 1985 a Cogumelo, que já era uma loja de discos desde 1980, se transforma em selo. Surge também o primeiro estúdio verdadeiramente de rock de BH, o JG Studio, que veio do estúdio da Tribo de Solos. Dali sai  um EP histórico da pioneira banda Kamikaze. Também nessa época realizam-se dois festivais importantes, o BH Metal I e II, com bandas mineiras como Sepultura, Sarcófago, Sagrado Inferno, Morg, Armaggeddon, Holocausto, Chakal e Overdose, além do Minotauro, de São Paulo. Também aparece o primeiro programa de rádio dedicado ao heavy metal, o Metal Massacre, da Liberdade FM. O ápice eu diria que aconteceu entre os LPs Schizophrenia (1987) e Beneath the Remains (1989), do Sepultura, discos que foram verdadeiros objetos cult na Europa. Eu não diria que a coisa tenha começado a “ruir”jamais. Sim, ela perde um pouco de ímpeto (ou pelo menos de novidade) ao longo dos anos 90. Mas a cena metal mineira ainda é forte e vitalíssima. Exemplo recente é o novo petardo do Witchhammer, Ode to Death.

chakal 6
O que torna essas bandas tão especiais a ponto de chamar a atenção internacional?
No caso do Sepultura, eu acho que foram as letras e as inovações vocais do Max, a extraordinária técnica do Igor na bateria –nos primeiros discos já se anunciava a revolução de sincopagem que se veria em Roots (1996) – e o virtuosismo do guitarrista Andreas Kisser, um instrumentista formado no blues e no heavy metal tradicional. Pouquíssimas bandas de death / thrash tinham uma combinação tão poderosa. Pode ser que tenha também influído o fator “exótico” de eles terem vindo do Brasil, um país até então ausente  do circuito do metal. Mas com o tempo eles se impuseram por sua competência musical, política e cultural.

Belo Horizonte nunca teve um capítulo significativo na história do punk nacional, mas você considera que o que aconteceu aqui é, em algum nível, um paralelo do punk paulista da primeira metade da década de 80?
Poderíamos dizer que o punk representou para São Paulo o que o heavy metal representou para Minas Gerais. Eu tenho a impressão de que em BH havia mais permeabilidade entre essas tribos. A relação entre punks e bangers em geral era boa, com a exceção de um período em que houve rivalidade, criada pela saída do Wagner do Sepultura, que era uma banda que tinha relação com os punks. Essa rivalidade gerou atritos entre os punks e os metaleiros ligados à turma da nova banda do Wagner, o Sarcófago.

Para você, quais são os discos mais importantes desse período?
Todos os discos do Sepultura citados acima e mais o Morbid Visions (1986), além da coletânea Warfare Noise I, são indispensáveis. Além deles, eu citaria: Kamikaze II (1990), Campo de Extermínio (1987), do Holocausto, Aboninable Anno Domine (1990), do Chakal, You’re Really Big (1989), do Overdose, INRI (1987), do Sarcófago, Sexual Carnage (1989), do Sextrash e muito especialmente o belíssimo Mirror, my Mirror (1990), do Witchhammer, que traz colaboração com a cantora lírica Sílvia Klein, e um passeio que inclui não só o thrash metal mas também o hardcore, o blues e o rock pesado melódico. É uma pérola de álbum. Para quem quiser uma raridade, a dica é a demo tape de 1987 do Witchhammer, Weekend in Auschwitz. Quanto a “romper o gueto” do metal eu marcaria dois momentos, ambos na carreira do Sepultura: Beneath the Remains (1989), o disco que rompe o gueto terceiro-mundista e explode na Europa, e depois o Roots (1996), na minha opinião o maior disco de heavy metal já feito no planeta, caldeirão de conversas inusitadas entre o metal e as sonoridades indígenas e afro-brasileiras.
Holocausto - Vanda Gui
Você viveu essa época aqui em BH?
Vivi sim, mas eu não era banger, era gótico. Gostava de Siouxsie, Bauhaus, Durutti Column. Os bangers eram meus irmãos mais novos. Eu me apaixonei pelo metal mais tarde, estudando-o academicamente. Loucura, né? Uma boa história foi a que aconteceu logo depois do BH Metal II. Os metaleiros se reuniam no Soft Pastel, na Cidade Nova, porque lá havia muita mulher bonita. Um dia uns 10 metaleiros foram espancados por uns 50 playboys que saíam de uma boate das redondezas. A galera se reuniu e decidiu que não baixaria a cabeça. Decidiram voltar lá no domingo seguinte, com o maior número de conhecidos possível. No caminho eles iam chamando o povo pobre das favelas ao lado: “vamos lá, fomos espancados por uns playboyzinhos”. A coisa virou uma gigantesca invasão metálica. Eram mais de 100. As pessoas iam abrindo caminho, como o mar para Moisés. A metaleira tomou o lugar de assalto, impôs sua presença, o chefe dos playboys se desculpou e nunca mais os bangers foram hostilizados por lá. Eu não estava presente, mas Paulo Henrique, guitarrista do Witchhammer, estava, e se ele conta, eu dou fé.

Confira mais dos arquivos do metal mineiro na série Iron Minas aqui

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