Um amigo meu e os CDs do The Edge, do U2

Um amigo meu mora em Dublin, Irlanda. Ele é um tanto louco. Não sei dizer se é um quadro clínico diagnosticado, mas posso dizer que, entre os meus amigos malucos, ele é um dos mais.

Durante uma época ele morou numa casa antiga. Daquelas bem grandes: dois andares, vários quartos, mangueiras enormes no quintal. Dividia o espaço com quatro amigos: dois rapazes e duas moças.

Ele não fazia muita coisa por lá. Para administrar o tédio, inventava algumas distrações. A casa tinha um fluxo de gente constante. A campainha tocava o dia inteiro e era um entra e sai intenso de pessoas.

Meu amigo gostava de afanar vestidos curtos de uma das meninas da casa e, sem cueca, ir receber os convidados (e também os não convidados). Não seria nada demais um cara usando um vestido te receber na porta daquela casa – até combinava com o ambiente. Mas é que a dona da peça de roupa era magrinha e media cerca de 1,60m e ele era um cara grande de quase 1,90m. E sem cueca.

Quando não combatia o ócio chocando convidados ele se jogava do alto da escada da casa, escorregando feito um esqui humano sobre uns 20 e tantos degraus. Ele fazia mais coisas, mas essas são impublicáveis.

Um dia ele se encheu e resolveu se mudar para Dublin.

Meu amigo era um colecionador extremista de música e filmes. Gostava de free jazz, pós-punk cabeçudo, cinema complicado. Algumas vezes passou dias à base de leite e biscoito de maisena para economizar dinheiro para comprar CDs e DVDs. Naquela época, ainda valia a pena comprar CDs. Não a ponto de quase entrar em processo de inanição, claro, mas valia.

Em Dublin, logo ele arranjou um emprego numa loja de discos. Demorou muito pouco para se integrar à fauna social da cidade. Levava a vida trabalhando na loja e viajando pela Europa. Sempre foi esquisito, mas também um cara interessante, engraçado, bom de papo. Um sujeito que faz amigos com facilidade. Socializar-se naquela cidade de gente beberrona foi tranquilo para ele.

Uma pausa na vida social do meu amigo para uma breve contextualização. Pense na Irlanda e pense numa banda. Se você não for um nerd colecionador de discos, você vai dizer U2, certo? Tem gente que ama U2, tem gente que detesta e tem gente que não dá a mínima.

Para quem detesta e não dá a mínima: talvez você não saiba que a banda é uma máquina econômica e financeira. Só o vocalista Bono acumulou um patrimônio de cerca de 600 milhões de dólares. Não seria exagero dizer que o U2 contribui(a) de maneira razoável na composição do PIB irlandês. Até o final de 2013 – quando banda resolveu malandramente se esquivar da tributação irlandesa e transferir sua sede e seus negócios para a Holanda – o U2 empregava muita gente (e ainda emprega) em Dublin, direta ou indiretamente.

Voltamos para a vida social do meu amigo. Ele, maluco boa praça vendedor de loja de discos, um dia conheceu o então caseiro que tomava conta da casa de campo do The Edge, o guitarrista do U2. E ficaram amigos.

Numa primaveril tarde de sábado, o caseiro amigo ligou para o meu amigo. “O que você está fazendo?”. “Nada”, disse meu amigo. “A casa de campo do The Edge está vazia. Lá é lindo, vou te levar lá”.

A casa era uma beleza mesmo. Não muito longe de Dublin, mas isolada. Cercada por campos verdes, no alto de um despenhadeiro com vista para o Mar da Irlanda. Nada muito grande – ao contrário do controverso monstro em forma de mansão que o proprietário mais tarde quis construir em Malibu, Califórnia –, mas bem aconchegante. Mesma casa que, nos anos 90, deu abrigo à amiga e estrela de cinema Julia Roberts, quando fugia dos holofotes da imprensa marrom durante o rompimento com o agente Jack Bauer, o ex-noivo Keifer Sutherland.

A casa era bem cuidada, mas parecia ser pouco usada. E era onde The Edge acumulava seus CDs. Na sala, uma parede inteira do chão ao teto era ocupada por colunas e mais colunas de CDs.

Em algum momento, meu amigo ficou a sós com essa parede. “Vamos ver o que The Edge gostar de ouvir”, pensou o amigo.

Meu amigo foi divagando na frente da parede de CDs do The Edge. “Hmmm… Gang of Four… será? The Fall… mesmo? Buzzcocks? Duvido que ele se lembre da última vez que ouviu Buzzcocks… Fugazi? Não pode ser… The Pop Group? Ele ouve isso mesmo? James Chance and the Contortions… Naaah…”

E, à medida que fazia comentários mentais sobre a discoteca do sujeito, sacava um CD da prateleira e o metia na mochila. Pegou emprestado por tempo indeterminado discos  a) que ele considerava que o The Edge não ouvia, b) que o The Edge tinha cópias repetidas e c) que ele próprio já tinha, mas achava que o The Edge não merecia ouvir.

The Edge nunca deu falta dos CDs.

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Um pensamento sobre “Um amigo meu e os CDs do The Edge, do U2

  1. Querido Çáwell,
    Grato pelas tenras palavras. Me fez rir aqui.
    Saudades,
    Seu saltimbanco trapalhão.

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