“2013 foi um ano louco, ainda estou tentando entender”, entrevista com Mac DeMarco

Até o metade de 2012, o canadense Mac DeMarco levava uma vida meio insalubre em Montreal. Tentava emplacar uma carreira de músico enquanto dava um jeito de pagar as contas e o aluguel com o dinheiro de subempregos e trocos que ele tirava se submetendo a testes médicos em centros de pesquisas.

Até ali tinha lançado algumas fitas com a antiga banda Makeout Videotape, um EP já com o próprio nome, e desenvolvido um estilo relaxado de composição e um jeito peculiar de tirar sons de uma guitarra quase caindo aos pedaços.

Em junho daquele ano, assinou com a gravadora novaiorquina Capture Tracks, que em outubro lançou 2, seu primeiro LP. E então 2013 foi, para DeMarco, um ano maluco que transformou o jovem subempregado em astro indie em franca ascensão.

Em março de 2014, uma longa turnê mundial começa – com São Paulo (19 e 20 de março) e Porto Alegre (21 de março) na rota. Em abril, um novo disco sai, Salad Days.

Nesta primeira entrevista de fato exclusiva para o Desova, conversei com o talentoso músico de 23 anos. Com frases incompletas cheia de kinda’s, like a’s, sorta’s e I don’t know’s, DeMarco falou sobre o último e intenso ano, shows no Brasil, o novo disco, Steely Dan, Jonathan Richman entre outras coisas.

Fotos: Lou Le Guilloux, Guillaume Sautereau, Robert Redfield, Veronica Rose e Christina Hicks

Guillaume Sautereau

Você está falando de Montreal?
Ah, não. Estou falando de Nova Iorque. Estou morando em Brooklyn agora, me mudei pra cá tem uns seis meses.

Você tem pouco mais um mês antes de começar uma longa turnê. Tá preparado mentalmente e fisicamente para ficar na estrada por tanto tempo?
Mentalmente, eu costumo enfiar cara nisso e só. Mas a banda precisa aprender as músicas do disco novo porque eu o gravei totalmente sozinho. Então vai levar algum tempo para os caras aprenderem as músicas. Mas aí quando estiver tudo no ponto estaremos prontos pro rock.

Do que você gosta mais em estar na em turnê?
Acho que é conhecer pessoas. E tocar. Viajar e tocar. É legal, é como uma aventura. Você fica meio cansado às vezes, mas eu gosto muito.

E do que você gosta menos?
Ficar longe de casa, longe da minha namorada… Saudades de casa, não é divertido o tempo inteiro, mas OK.

No começo dessa turnê você vai tocar no Brasil, o que você está espera daqui?
É, deve ser ótimo. Mas eu não sei bem o que esperar. Nunca estive aí antes. E um monte de moleques do Brasil me escrevem e-mails: “por favor venha para o Brasil por favor venha para o Brasil por favor!”. Então tomara que os shows fiquem lotados com uma molecada empolgada. Mas eu confesso que eu nunca procurei saber muito sobre o Brasil… Claro que sei onde é e sei um pouco a respeito. Não posso falar muito do Brasil. Mas tenho certeza que estar quente aí o que é ótimo já que aqui está um frio terrível agora.
Eu gosto de João Gilberto. Ele é brasileiro, né? Adoro bossa nova e o jeito que ele toca  violão gosto desde bem pequeno. Fora isso, não sei se conheço outras coisas do Brasil… Não sei…
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Bom, 2013 deve ter sido um ano bem doido para você, eu imagino…
É, foi. Altamente intenso. Mas já tive um pouco de descanso. Quero voltar logo para a estrada, estou empolgado com a ideia. Foi meio esquisito, mas eu já tive a oportunidade de descansar e agora quero tocar, acho que vai ser legal.

A coisa pro seu lado ficou grande de uma hora para outra no ano passado. Você tem medo de que com isso venham pressões e responsabilidades maiores?
Hmm… Não, não muito. As coisas estão loucas, mas ainda sinto que estamos no controle. Não sei… Claro, há algumas pressões, mas nada que me incomode. Continuo fazendo as coisas do jeito que eu gosto de fazer e do jeito como eu já estava fazendo antes disso tudo, então… Não é algo com o qual eu me preocupo.

Estou te perguntando isso porque eu vi alguns vídeo de shows recentes de você e alguns desses vídeos mostravam fãs bem loucos, malucos para encostar em você, tietagem da brava… E você não parece ser um tipão celebridade. Como você está lidando com isso?
É um pouco bizarro às vezes mesmo. Eu estou tentando me acostumar com isso. Eu tento tratar todo mundo igual. As pessoas surtando e eu tento ser educado. Mas, sei lá, se é por causa da minha música, é um jeito das pessoas serem lisonjeiras, aí é legal… Sei lá, ainda estou tentando entender isso. 2013 foi ano foi um ano doido. Mas, sabe, eu tenho dado duro para ser músico por um bom tempo e, se as coisas têm ficado meio malucas e eu tenha ainda que entender isso, tá tudo bem. De certa forma, eu trabalhei para isso.

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Você tocou em tudo quanto é tipo de lugares no último ano, em grandes palcos em festivais, em pequenos clubs… Você prefere os shows grandes ou os menores?
Eu costumo pensar que são cenas diferentes. Em shows em festivais, às vezes, em festivais bem grandes, a gente pode tocar para a plateia errada. Às vezes, tocamos no palco e ninguém dá a mínima e  é um pouco esquisito. Mas eu gosto muito de tocar em festivais. Tem uma vibe muito diferente. Gosto também porque, como tocamos com um monte de bandas, a atenção não é só para nós e eu posso ficar de rolê com as pessoas. Fazer show em lugares menores é legal também, é doido ver a quantidade de gente que aparece só para nos ver tocando. Isso é maravilhoso, pra mim.

Você tem um jeito de tocar guitarra bem peculiar, como você aprendeu a tocar?
Eu tive aulas de guitarras por uns dois anos, meio que para eu arranjar um jeito de lidar com o instrumento. Por um tempo que tentei ser meio técnico, tentei tocar jazz. Meu professor queria me transformar num guitarrista fodão de fusion. Larguei as aulas e, em algum momento, decidi usar afinação uma guitarra slide. E era como se eu não soubesse mais como tocar, era uma afinação com a qual eu não estava acostumado, era completamente diferente. Então eu tive que meio que reaprender a tocar e acho que desenvolvi meu próprio estilo dessa forma. Então eu meio que voltei a afinar do jeito antigo e eu não fazia isso há… Isso meio que mudou a coisa toda… Mas, não sei é como… Eu me sinto confortável tocando guitarra hoje em dia e… Sim, isso vem de tanto tocar. Quanto mais você faz, mais você… Mas não sou de ficar estudando outros guitarristas, de tentar aprender os truques de outros músicos, eu só vou tocando até achar algo novo. Então isso é meio que uma evolução gradual do jeito que eu toco, eu acho.
por benjaminrodde
Ainda assim, você consegue apontar alguns discos que influenciaram seu jeito de tocar guitarra?
Hmmm… Eu adoro a guitarra do George Harrison. All Things Must Pass tem umas guitarras muito incríveis pra mim. Eu amo… Ah… Merda, quem é mesmo…? Hmm, sei lá, eu costuma gostar de gente que fazia umas coisas muito loucas na guitarra, como solos esquisitos. Agora, me interessa mais aquela sensibilidade pop. Adoro as guitarras das coisas dos Kinks, adoro as guitarras dos discos do David Bowie, as guitarras nos disco do Lou Reed… Gosto dessas coisas pop num sentido menos tradicional, isso é o que me interessa.

E você usa uma já famosa guitarra velha e barata…
É, é isso coisa de gente esquisita que cisma com uma guitarra e… Eu nunca soube a marca dessa guitarra. É… Eu toco com ela há muito, muito tempo. Ela meio que adquiriu vida própria, ela quebra toda hora, já a consertei um monte vezes. Eu insisto muito nela, sei lá, eu me sinto bem com ela, já peguei a manha de fazê-la soar bem. Sei lá…
Gosto de usar efeitos nela, comecei a usar um monte de chorus. Na verdade, tem um cara, Connan Mockasin, um músico da Nova Zelândia. Ouvi uns discos deles alguns anos atrás e… Antes de as ouvir coisas dele, eu dizia “urrgh, chorus, oh não”. As guitarras dele são cheias de chorus… E ouvi aquilo e meio que abriu meus olhos:  “oh, isso até que é legal”. Então eu gosto de usar uns efeitos meio vagabundos, nada demais… Mas, você sabe, devo tentar algumas coisas novas…

Você costuma dizer que a música que você toca é uma versão vagabunda de Steely Dan.
Eu gosto muito de Steely Dan, sou bem fã de Steely Dan. Mas… Quero dizer, isso só uma piadinha, algo engraçado a se dizer. Mas o que gosto em Steely Dan é que é técnico, mas meio que cool, mas de um jeito cool para o seu pai, meio bobo… Mas não de um jeito irônico. Só é… Meio, sabe… Estranho.
Não sei como é que fui gostar de Steely Dan. Meu pai gostava de ouvir rock de verdade, sabe como? Acho que foi uma coisa do pai de algum amigo. Tinha o pai do meu amigo Scott que vivia falando: “Oh yeah! Steely Dan! Doobie Brothers! Michael McDonald!” E acho que a partir daí eu e uns amigos fomos pegos pela banda e começamos a tomar gosto pela coisa. Não sei.
Mac DeMarco
Jonathan Richman também exerceu uma grande influência sobre você. E, como você, ele não se leva muito a sério, e canta sobre coisas prosaicas…
Eu até acho que ele se leva a sério, mas do jeito como ele faz as pessoas acabam dizendo “ah não, ele não deve estar sendo sério”, sabe? O que deixa tudo mais interessante. Mas, sim, ele é muito divertido, está velho e os shows deles são pura diversão e rock ‘n’ roll.
Acho que o escutei pela primeira vez quando eu tinha uns 16 anos. Foi algo que clicou na minha mente: “caralho, esse cara é incrível!”. Não lembro se o disco foi o I, Jonathan ou algum disco com o Modern Lovers… Mas eu ouvi algumas músicas dele pela Internet antes pegar um disco mesmo.

Seus shows estão ficando famosos por serem bem divertidos e também pela banda estar quase sempre bêbada. Beber te ajuda no palco?
Acho que é uma coisa com a qual eu me acostumei. Não sei se ajuda, provavelmente deve me atrapalhar um pouco. Não sei… É mais uma coisa de tomar umas cervejas com os amigos, fazer um show e se divertir. Não é algo que muda demais as coisas… Sei lá, não vou também subir super chapado no palco. Mas é algo que ajuda a você entrar no clima, a fazer você subir no palco menos nervoso, sei lá.

E maconha?
Nah… Eu não fumo. Um monte de gente pensa que eu fumo, mas não fumo. Um monte de moleques me chama para fumar com eles o tempo todo. Não é que eu nunca fumo, eu fumo bem de vez em quando, mas não sou exatamente um maconheiro como alguns supõem.
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Sei que antes das coisas com a banda começarem a emplacar, você fez algumas coisas meio malucas e teve alguns empregos bem ruins para conseguir pagar suas contas. Qual foi o pior?
Provavelmente foi trabalhar numa firma de construção de estradas. Não foi nem um pouco divertido. Isso foi muito ruim. Era como… Sabe, o trabalho em si era legal, fazia exercícios o tempo todo, mas… O clima não era bom, e era difícil era lidar com algumas pessoas bem estranhas, com quem eu não concordava nem um pouco, o que normalmente me colocava em situações complicadas.
Além disso, às vezes, eu ia a centros de pesquisas em universidades para servir como cobaia para testes médicos. Em Montreal era muito difícil arranjar um emprego de verdade, então eu fazia isso às vezes para conseguir algum dinheiro. Mas o negócio dos testes era muito estúpido. Eu não conseguia fazer dinheiro de verdade com isso (risos). Mas, sei lá, você tem fazer o que tem que fazer, certo?

Pelo menos isso deve ter pago suas contas…
É, mais ou menos. Era um pé no saco passar por tudo aquilo só para ser capaz de pagar o aluguel. Era meio ridículo.

E quando foi que você largou esses bicos e passou a se dedicar exclusivamente à música?
Assim que assinei com Capture Tracks. Eles me deram um pequeno adiantamento e aí deu para me manter só tocando.
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Seu próximo disco sai em abril. O que pega com esse nome Salad Days? Não consigo evitar pensar no disco do Minor Threat com o mesmo nome…
É, um monte de gente veio falar comigo do Minor Threat quando eu apareci com esse nome, mas isso tem mais a ver com Shakespeare (N.: Na peça A tragédia de Antônio e Cleópatra, do dramaturgo inglês, há um trecho onde Júlio César diz: “My salad days, when I was green in judgment, cold in blood”). Minor Threat não é bem a minha praia (risos). Na verdade, esse nome meio que tem a ver com os temas do disco. Veio de uma piada interna que surgiu no meio da nossa turnê pela Europa e daí fizemos uma música sobre salad days (N.: expressão idiomática para algo como o tempo da juventude, da inocência). E essa música também se chama “Salad Days”. Sei lá…

Quais foram as diferenças na gravação deste novo disco em relação  ao anterior, 2? Se eu pudesse adivinhar, eu chutaria que desta vez você teve mais recursos.
Não exatamente, foi mais ou menos como foi gravado o disco anterior (N.: na casa do músico e com todos os instrumentos gravados por ele). A parte instrumental soa muito similar. Mas os assuntos são bem diferentes, eu acho. De cara, não é uma grande mudança, mas se você se envolver um pouquinho com as músicas, você vai notar a diferença. Então, essencialmente, foi bem parecido com o outro disco: eu gravando sozinho, em coisa de um mês, sem precisar de muito recurso. Acho que é isso. Fiz tudo em Brooklyn, durante o mês de novembro.

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Tá feliz com o resultado?
Sim, sim. Quero dizer… isso demandou um bocado de mim. Foi um pouco esquisito. Eu nunca fiz nada parecido com esse disco. Então precisou um pouco de tempo para eu me acostumar com ele. Mas agora eu estou um pouco mais confortável. E ansioso para que as pessoas ouçam.

Por que foi esquisito?
É que um monte de músicas neste disco são muito pessoais, canto sobre coisas sobre as quais nunca cantei. Não acho que as pessoas vão necessariamente descobrir sobre o que exatamente eu estou falando, mas sinto que estou compartilhando meio demais… Não sei, é estranho, você sabe… Mas senti que eu tinha que fazer dessa forma e fiz.

Já li gente dizendo que você é mais profundo do que o palhação que você quer parecer…
É… Não sei. Pode ser. São coisas diferentes. Em público talvez eu seja mais assim mesmo. Mas, no estúdio, sozinho, pensando sobre outros tipos de coisa… Daí surgem coisas diferentes.
Neste álbum acho que foi muito influenciado pela coisas que aconteceram nos últimos tempos: a vida em turnê, as coisas ficando meio loucas, essa coisa de ter uma vida meio pública – o que não é exatamente ser famoso, mas mais exposto, com um monte gente sabendo da sua vida… É sobre um monte de circunstâncias as quais minha vida está submetida, é como um diário.

Tá com medo de ter sido aberto demais?
Hmmm… Sim, um pouco. Porque essas músicas não são sobre o que comi no café da manhã ao acordar.
São coisas que, num primeiro momento, me deixaram muito desconfortável escrever sobre elas. Mas  sofri uma espécie de impulso para me expressar e acaba que isso torna-se público quando você coloca numa música. Mas foi bom. Quando você coloca algo assim no papel, você torna-se capaz de seguir em frente.

Mais informações sobre as apresentações do Mac DeMarco no Brasil aqui.

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